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Animações da infância estimulam criatividade na vida adulta

29 de ago.
6 min de leitura

Filmes como Cinderela e A Viagem de Chihiro inspiram artistas na criação de suas obras


Por Mariana Guimarães


Cena do filme “A Viagem de Chihiro”.- Imagem: Studio Ghibli | Reprodução: The Movie Database 
Cena do filme “A Viagem de Chihiro”.- Imagem: Studio Ghibli | Reprodução: The Movie Database 

Criar algo novo nunca pareceu tão necessário. Em meio a um fluxo constante de informações, tendências e imagens nas redes sociais, a criatividade se tornou quase uma exigência cotidiana, seja para quem trabalha diretamente com criação, seja para quem precisa encontrar novas soluções em diferentes áreas. Ao mesmo tempo, surge uma contradição: se estamos cercados por referências o tempo inteiro, por que ainda é tão difícil encontrar inspiração?


A inteligência artificial acrescenta uma nova camada a esse cenário. Com ferramentas capazes de produzir textos, imagens e outras formas de conteúdo em poucos segundos, a busca por aquilo que é original e autoral ganha ainda mais importância. Em vez de simplesmente produzir, é preciso saber o que dizer, como olhar e quais referências combinar para chegar a algo próprio.


Nesse cenário de excesso, talvez a criatividade não dependa apenas da busca pelo que é novo. Para algumas pessoas, uma parte importante do repertório pode estar em lugares já conhecidos. 


O movimento de olhar para trás


Se a criatividade é constantemente associada à capacidade de produzir o novo, olhar para trás pode parecer um movimento contrário. Mas, para quem cresceu cercado por desenhos e animações, revisitar esses universos pode significar menos uma tentativa de voltar à infância e mais uma forma de reencontrar referências que continuam fazendo parte de quem se é.


Não se trata apenas de nostalgia. As obras que marcaram os primeiros anos de vida podem permanecer no repertório mesmo depois que a infância termina: personagens, cores, trilhas sonoras, traços, cenários e formas de contar histórias são incorporados ao imaginário e podem reaparecer, consciente ou inconscientemente, em diferentes momentos da vida. Ao reencontrá-los, o adulto também pode estabelecer novas associações e descobrir possibilidades que não estavam ao alcance do olhar infantil.


É o que acontece com a jornalista e criadora de conteúdo Isabela Rincon. Desde criança, ela se identifica com atividades artísticas e sempre teve uma relação intensa com determinadas animações. Algumas ficaram tão marcadas em sua memória que, anos depois, ela ainda se lembrava de músicas, personagens e detalhes que pareciam ter desaparecido da memória de outras pessoas.


A percepção de que carregava consigo referências que ninguém ao redor parecia reconhecer acabou se transformando em conteúdo. Isabela começou a falar nas redes sociais sobre desenhos que, para ela, pareciam ter sido um “surto” ou uma “alucinação” coletiva, produções que lembrava com nitidez, mas que quase ninguém parecia conhecer. O primeiro vídeo sobre o assunto viralizou e deu origem a uma série de conversas nos comentários: pessoas que compartilhavam as mesmas lembranças, outras que descobriam aquelas animações pela primeira vez e ainda outras que apresentavam novos desenhos esquecidos.


O que começou como uma lembrança individual tornou-se, assim, uma forma de recuperar e compartilhar um repertório comum. 


O que existe nessas animações que continua inspirando? 


Quando Isabela Rincon revisita algumas das animações que assistia na infância, uma das coisas que mais chama sua atenção é aquilo que ela não conseguia nomear quando era criança. Em Pinky Dinky Doo, por exemplo, ela hoje identifica uma estética próxima da colagem, com fundos que parecem fotografias e personagens desenhados. “Eu já sabia que ele tinha uma estética diferente, eu não sabia qual era o diferencial”, contou. 


Personagem Pinky do desenho “ Pinky Dinky Doo" - Imagem: Cartoon Pizza | Reprodução: The Movie Database
Personagem Pinky do desenho “ Pinky Dinky Doo" - Imagem: Cartoon Pizza | Reprodução: The Movie Database

Essa permanência das imagens e histórias no repertório não acontece por acaso. Os desenhos animados fazem parte das experiências culturais que participam da construção do imaginário durante a infância. É o que discute Isac dos Santos Pereira no artigo O corpo brincante, o brinquedo corpo que fala: desenhos animados, comunicação e imaginário no desenvolvimento infantil, publicado em uma revista acadêmica de Comunicação da Universidade de São Paulo (USP), ao analisar a relação entre animação, comunicação e imaginário no desenvolvimento infantil. 


Mais do que apresentar histórias, essas produções oferecem às crianças personagens, cenários, formas de expressão e possibilidades de imaginar. São referências que podem ser incorporadas ao modo como elas percebem e interpretam o mundo.


É uma característica presente em obras de diferentes épocas e estilos. Nos filmes de Hayao Miyazaki, por exemplo, a construção de mundos fantásticos, a atenção aos detalhes e a combinação entre realidade e imaginação criam universos que podem ser vistos de maneiras diferentes conforme o espectador muda. Uma criança pode se encantar pela aventura e pelas imagens; anos depois, o mesmo espectador pode perceber outras camadas da narrativa, da estética e dos personagens.


Essa permanência também pode aparecer diretamente no trabalho de quem cria. Para o designer e ilustrador Arthur Tonon, animações como Scooby-Doo, Hora de Aventura e, principalmente, Monster High continuam presentes em seu repertório visual. Ele aponta o traçado, os personagens e o design dessas produções como elementos que ainda influenciam seu próprio trabalho. “Muito do meu traço vem, inclusive, das coisas que eu consumia quando era menor”, afirmou.


Personagens do desenho “ Monster High" - Imagem: Mattel | Reprodução: The Movie Database
Personagens do desenho “ Monster High" - Imagem: Mattel | Reprodução: The Movie Database

Não significa reproduzir aquilo que já foi feito, mas carregar referências de um universo para outro. Um traço observado na infância pode reaparecer anos depois transformado; uma escolha estética pode ser combinada a outras; uma personagem pode servir de ponto de partida para uma nova ideia.


Essa permanência do imaginário infantil também aparece na moda. Na coleção Childsplay, “Brincadeira de Criança”, o designer Robert Wun investiga a infância a partir de um olhar adulto. Inspirado por contos de fadas e pelas animações de Hayao Miyazaki, Wun constrói uma narrativa sobre a complexa transição entre a infância e a vida adulta. 


Cinderela, Chapeuzinho Vermelho e Lobo Mau, de Robert Wun. Reprodução: Instagram
Cinderela, Chapeuzinho Vermelho e Lobo Mau, de Robert Wun. Reprodução: Instagram

Revisitar essas obras, portanto, não significa apenas lembrar do que se gostava. Significa também descobrir, com um olhar mais experiente, o que havia nelas para ser visto.


Por que isso funciona? 


Para a psicóloga Sheila Kira, o movimento pode estar relacionado à possibilidade de reencontrar uma versão de si mesmo que continua existindo, mesmo depois das transformações da vida adulta.


“Quando revisitamos uma história que marcou nossa infância, não estamos apenas reencontrando aquela obra, estamos reencontrando uma versão de nós mesmos”, explicou. Algumas produções ficam associadas a pessoas, lugares, sensações e momentos específicos, formando o que a psicóloga chama de uma espécie de memória emocional. Por isso, mesmo quando os detalhes da história se perdem, determinadas sensações podem permanecer.


É o que aparece nas lembranças de Isabela Rincon. Ao falar sobre uma de suas animações favoritas da infância, ela não se recorda apenas do desenho: lembra de sentar para assistir, de comer um misto feito na chapa com requeijão e de tomar leite com Toddy. A obra está ligada a uma experiência inteira, e não apenas ao que acontecia na tela.


Mas a memória, sozinha, não explica a relação com a criatividade. Ao revisitar uma obra conhecida, o espectador, como já conhece personagens e parte da narrativa, pode direcionar a atenção para outras camadas: estética, construção de personagens, ritmo, humor ou simbolismos.


Para Sheila, esse processo pode ampliar o repertório justamente porque “a criatividade depende muito da capacidade de fazer conexões”. Uma memória pode se encontrar com uma experiência atual; uma imagem pode despertar uma ideia; uma personagem pode ajudar a enxergar um conflito de outra maneira. Criar, nesse sentido, não significa necessariamente produzir algo a partir do zero, mas combinar de novas formas aquilo que já nos atravessou.


A infância também ocupa um lugar particular nesse processo. É uma fase marcada pela curiosidade, pela experimentação e pela capacidade de imaginar mundos sem a mesma preocupação com o erro que pode aparecer na vida adulta. Para Sheila, revisitar algumas dessas referências pode ser uma maneira de reativar essa relação mais espontânea com a curiosidade.


Esse retorno também ganha outro significado em um cotidiano marcado pelo excesso de informação e pela pressão constante por produtividade. “Talvez estejamos vivendo uma época em que até o descanso precisa parecer produtivo”, afirmou a psicóloga. Rever um desenho pode ser simplesmente uma pausa, uma experiência que não precisa ensinar, melhorar ou produzir nada para ter valor.


“Às vezes, voltar para uma história da infância não é querer voltar a ser criança. É lembrar de uma parte de nós que continuou existindo enquanto a vida adulta acontecia”, conclui Sheila.



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