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Conexão 60+: projeto ensina mulheres idosas a usar aplicativos do dia a dia

  • Foto do escritor: Rampas
    Rampas
  • 2 de jun.
  • 4 min de leitura

Alunas superam preconceito e aprendem a gerir contas bancárias, obter documentos e navegar nas redes sociais


Por: Sofia Inerelli


Alunas do projeto TECER Mulher com seus certificados - Foto: divulgação Projeto TECER Mulher 
Alunas do projeto TECER Mulher com seus certificados - Foto: divulgação Projeto TECER Mulher 

“Eu tenho um filho que não mora na mesma cidade que eu. E agora eu ligo para ele de chamada de vídeo, ele pode estar em Brasília, pode estar em Belém, pode estar na cidade dele que dá certo”. Quem conta é Oneide Couto, uma dona de casa de 62 anos que mal sabia usar a internet e as redes sociais. A mudança aconteceu depois que ela foi aluna do projeto Intercâmbio Intergeracional para a Mulher Idosa (TECER Mulher), que propõe integrar a população 60+ na internet. No programa, as mulheres aprendem a pedir um Uber, a usar o aplicativo do banco, a acessar contas de streaming e documentos no site do governo. Coisas simples e comuns para muitos brasileiros, mas que Oneide e suas colegas não sabiam fazer.


Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que mais idosos vêm utilizando as redes: quase 70% em 2024, um salto comparado com os 44,8% de 2019. Ao mesmo tempo, 66% desses usuários afirmam não saber utilizar os recursos disponíveis na internet. Ou seja: o idoso pode ter em casa o celular, a televisão, o computador, mas muitas vezes não sabe como ligar ou interagir com esses aparelhos. A coordenadora do TECER Mulher, Leia Sousa, explica que a iniciativa do projeto surgiu a partir de uma situação semelhante, ao perceber que seus pais não viam TV quando saía de casa pois tinham dificuldades de mexer no controle remoto. 


Leia logo entendeu que a televisão não era o problema ou ao menos era apenas um deles. Ela  é professora de desenvolvimento de aplicativos na Faculdade de Sistemas de Informação da Unifesspa (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará) e propôs a seus alunos começar uma turma para entender quais eram as reais demandas dos idosos ao usar a internet. Assim começou o projeto TECER. Até agora, cerca de 200 pessoas já passaram pelo treinamento.


A iniciativa ganhou em abril de 2026 o prêmio LED, oferecido pelo festival homônimo realizado no Rio de Janeiro, recebendo um aporte de R$ 200 mil. Tudo que começou com um olhar mais atento para pessoas que na maioria das vezes não são vistas e não são incluídas no mundo digital. Um dos diferenciais do TECER é  a própria metodologia do ensino do projeto, que foi toda adaptada às demandas das mulheres idosas, inserindo nas apostilas mais imagens e aplicativos da atualidade. Elas também aprenderam coisas simples, como inserir um chip,  ligar e desligar os aparelhos. Leia diz que as alunas ficam apegadas aos instrutores e sentem falta das aulas quando termina a turma: “Ah, manda o Eduardo voltar, manda o Emerson voltar.”


A dificuldade no uso das tecnologias aumenta quando o conhecimento de múltiplas áreas torna-se necessário. Leia cita, por exemplo, os aplicativos que protegem a mulher contra a violência, que exigem conhecer um pouco mais sobre expressões jurídicas. “Para você habilitar o botão do pânico e pedir socorro, aparecem mensagens que requerem leitura no idioma ‘juridiquês’, instruindo a pessoa a habilitar o rastreamento e habilitar o microfone. Uma pessoa idosa ou uma pessoa que não acessou a escola não vai entender aquela linguagem, não vai entender os símbolos, não vai conseguir fazer aquelas configurações ali.” O que reforça a importância de garantir que o acesso a ferramentas digitais seja de fato para todos e passe a ser entendido como uma questão de cidadania.


Mesmo após aprender a usar os aplicativos,  idosos ainda têm dificuldades para acessar redes sociais, que são pouco acolhedoras para quem está nessa faixa etária. Um estudo da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) mostra que 82% dos idosos brasileiros já sofreram tentativas de golpes virtuais. O crime muitas vezes ainda é potencializado pelas próprias plataformas,  que não garantem a segurança dos seus usuários. Reportagem da Reuters mostrou, com base em documentos internos da Meta, que a bigtech faturou US$ 16 bilhões em 2024 apenas com anúncios de golpes e produtos ilegais - valor que corresponde a 10% de toda a receita anual da companhia. 


Dominar o mundo digital também permite que essas mulheres se tornem empreendedoras. Esse é o caso de Cláudia Grande, uma mulher de 70 anos que, mesmo com todos os empecilhos, divulga em suas redes sociais pacotes de turismo adaptados para pessoas 60+. O rápido e numeroso alcance em aplicativos como o Instagram permitiu que seu empreendimento alcançasse mais de 300 mil pessoas. Cláudia não é a única: de acordo com um levantamento do Sebrae com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostragem Contínua do IBGE, havia cerca de 1,8 milhão de empreendedores da terceira idade no final de 2021. Pesquisa realizada pela consultoria Data8 mostra que a chamada economia prateada movimenta hoje R$ 2 trilhões na economia e ganha mais relevância em um país onde a população com mais de 60 anos chega hoje a 35 milhões de pessoas - 16,6% do total. Em 2046, segundo o IBGE, os 60+ vão ser a maior fatia populacional do país. E o desafio é garantir que esse grupo, além de viver mais, também vai viver melhor.


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