Movimento de mulheres negras oferece pré-vestibular gratuito para jovens das zonas Norte e Oeste do Rio de Janeiro
Projeto +Nós completou dez anos ajudando jovens a entrarem na universidade
Por João Otávio Alves

Para muitos jovens, é comum que o momento de prestar vestibular seja repleto de dúvidas e medo. Na periferia, quando é preciso trabalhar para sobreviver, o estudo nem sempre é uma prioridade. E foi com foco nesse público que surgiu o +Nós, um movimento de educação popular que já completa 10 anos atuando em benefício de jovens socialmente vulneráveis. Com o objetivo de preparar esses jovens para ingressar nas universidades, foram cerca de 140 alunos que conseguiram passar no vestibular.
Diferentemente de outros pré-vestibulares, o +Nós é um movimento coordenado por mulheres, em sua maioria, negras. Suas unidades atuantes marcam presença em Realengo, Caxias e no Morro do Alemão. A unidade de Realengo é coordenada por Letícia Oliveira, Carmen Ribas e Açucena Silva, três educadoras periféricas que produzem conhecimento e ajudam a construir o perfil afro-referenciado do ensino da unidade. Letícia é graduada em História pela UFRRJ e desenvolve pesquisas nas áreas de Ensino de História, Educação e Relações Étnico-raciais. Ela contou sobre os desafios para a construção de uma intelectualidade negra feminina no pré-vestibular comunitário.
Apesar da presença feminina, a coordenação já precisou lidar com o machismo e a misoginia em seu trabalho, dentro e fora da unidade. "Ano passado chegou a ter um embate com um educador que queria nos ensinar a coordenar. A gente bateu de frente", relata Letícia. Elas também enxergam como em outros pré-vestibulares e em fóruns relacionados ao tema, homens que tem um discurso dito “progressista”, ainda replicam falas ou posicionamentos misóginos. Nesse sentido, a prática se mantém distante da teoria, uma vez que, para se impor, esses homens usam de um tom de voz mais alto e de um posicionamento mais violento. "Quando são confrontados, eles replicam o que fizeram historicamente por muito tempo".
Em relação ao ensino na educação popular, a motivação dos estudantes também é uma questão de preocupação. As coordenadoras relatam que estudantes estão cada vez menos motivados, deixando de enxergar as universidades como forma de transformação da realidade. Apesar de compreenderem que o cotidiano das universidades não é perfeito, elas entendem a importância de corpos periféricos ocuparem esses espaços e buscam passar essa percepção aos estudantes. "É um trabalho de despertar esse senso crítico neles. Essa visão mais dura, mas extremamente necessária da realidade”, diz Letícia.
Outro desafio das próprias coordenadoras é a conciliação do trabalho e estudos com a atuação no movimento social. Manter ativo o lado político e militante, sem que se perca a motivação e o propósito de sua luta é um enfrentamento diário para elas. A correria do dia-a-dia, o cansaço e a quantidade de outras demandas pode fazer com que entrem no “modo automático”, permitindo a reprodução de ações que vão contra seus princípios. Assim, elas entendem a necessidade de sempre revisitar suas práticas, enquanto coordenação e educadoras, para que não percam de vista o porquê de fazerem parte do Movimento. Letícia fala sobre a importância de preservar um espaço que, para além de preparar jovens negros periféricos para as universidades públicas, também leva formação crítica, tanto aos estudantes quanto às educadoras, levando-as a aprender e reaprender diversas lições durante o processo.
Enquanto a coordenação da unidade de Realengo é formada por mulheres negras, o corpo de estudantes também apresenta majoritariamente esse perfil. De 38 estudantes no ano de 2026, a maioria são alunas negras, o que torna natural a construção política do movimento social por meio da intelectualidade negra feminina. Ao longo do tempo, tanto as estudantes quanto a coordenação levam intelectuais negras como referências para as salas de aula, o que ajudou a criar uma forma de pensamento e ensino afro-referenciado. Esse foco se reflete, inclusive, na identidade visual do Movimento, onde a figura de Lélia Gonzalez tem um destaque honorável.

O processo de educação se alimenta da troca entre mulheres negras. As educadoras, ao explicarem sobre teóricas do passado, também se enxergam enquanto produtoras de conhecimento, abrindo portas para os passos futuros de quem às escuta. "Nós falamos (para as estudantes): 'essas mulheres produziram conhecimento, nós estamos produzindo conhecimento e vocês também podem produzir conhecimento'. É isso que vai alimentar nosso movimento social", conta Letícia.
A aula inaugural da unidade de Realengo no ano de 2026 reverenciou justamente essas referências negras. Com o tema "Nós somos porque elas foram", a unidade pôde apresentar suas referências para a construção do movimento, que se baseia no diálogo, na pesquisa e na constante visitação à própria prática educativa. Essa primeira aula pôde inspirar estudantes que estavam conhecendo o movimento e motivar as coordenadoras e educadoras negras no seu ensino.
Sobre a potência de referências intelectuais negras femininas na educação construída pelo +Nós, Letícia afirma: "Existe um esforço, não só intelectual, mas também de autoestima. De nos vermos capazes de produzir muita coisa boa, assim como outras mulheres negras produziram, em situações onde, provavelmente, tinham menos ferramentas que nós”.
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