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Mudança de hábito: ingressos gratuitos e ações sociais ajudam a formar novas plateias para o teatro

7 de set.
8 min de leitura

Desafio passa por alteração de rotina, mas também por políticas públicas que facilitem não só a ida ao evento, mas também o transporte


Por Karen Teixeira


Plateia do musical Wicked, em cartaz na Cidade das Artes (Foto: Karen Teixeira)
Plateia do musical Wicked, em cartaz na Cidade das Artes (Foto: Karen Teixeira)

Ir ao teatro como lazer pode até parecer uma atração tranquila: escolher a sessão, comprar o ingresso do melhor assento, separar a roupa mais bonita e, por fim, assistir ao espetáculo. À primeira vista não parece ser tão diferente de ir ao cinema assistir um filme ou se preparar para qualquer outra forma de lazer, mas, na prática, o cenário é bem diferente.


Para uma grande parte da população carioca, ir ao teatro envolve diversos obstáculos que antecedem a abertura das cortinas. O preço dos ingressos, a distância, os horários das sessões, o transporte até o local, a falta de costume e, até mesmo, a sensação de ser um “peixe fora d’água”. Todos esses são fatores que dificultam a adesão e espantam potenciais espectadores.


E é por conta dessas dificuldades que as iniciativas de formação de plateia surgem, com a finalidade de aproximar quem geralmente não frequenta os teatros. No Rio de Janeiro, os projetos desenvolvidos por instituições culturais, universidades, ONGs e o poder público atuam principalmente na distribuição de ingressos gratuitos ou com preços mais acessíveis.


Colocar os novos espectadores dentro da sala de espetáculo por meio dessas iniciativas é só o primeiro passo na missão de transformar uma experiência positiva em um hábito regular. Mais do que nunca, é necessário que o público possa se reconhecer e se identificar com aquele espaço e experiência.


A atriz Thais Fernanda Meotti, de 29 anos, participa de ações de formação de plateia há cerca de dois anos e conta que conheceu a iniciativa a partir da indicação de um amigo que já frequentava os espetáculos por meio do Grupo ECO. Dependendo da programação, ela chega a frequentar os teatros mais de duas vezes por mês por meio dessas ações.


Para a atriz, democratizar o acesso ao teatro vai além de oferecer entretenimento: “O teatro é mais que um palco, é um local de empatia, reflexão, crescimento pessoal que deve estar ao alcance de todos.” Thais também chama atenção para uma relação que muitas vezes fica escondida quando se fala em gratuidade: a sustentabilidade do setor cultural. Toda a produção de um espetáculo envolve atores, técnicos, produtores e diversos outros profissionais que dependem do público para manter tudo funcionando.


Thais e um amigo na peça Não Me Entrego, Não! por meio do Grupo ECO (Foto: Thais Meotti)
Thais e um amigo na peça Não Me Entrego, Não! por meio do Grupo ECO (Foto: Thais Meotti)

E quem está chegando pela primeira vez aos teatros?


A própria UERJ pode ajudar a responder essa pergunta. Danielle Villard, de 27 anos, aluna de Jornalismo e ex-estagiária da Divisão de Teatro da universidade, atuava justamente na área de formação de plateia. Ela conta que acompanhou diversos grupos que assistiram aos espetáculos por meio da distribuição de ingressos gratuitos.


O processo de reservar os ingressos era simples: a pessoa responsável preenchia um formulário com todos os dados e quantidade necessária e depois a equipe da UERJ entrava em contato para confirmar as informações.


Danielle destacou a participação de um grupo de meninas de um projeto social de ginástica da Mangueira, ocasião em que as jovens chegaram no teatro com seus uniformes verde e rosa. Também havia um grupo de mulheres idosas que passou a frequentar regularmente as apresentações e, aos poucos, uma amiga convidava a outra. A partir disso, o grupo cresceu e o público também. Outro grupo que marcou a vivência de Danielle no teatro foi o dos alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), que também participavam com frequência do processo de formação de plateia.


“Vinham muitas ONGs, (...) teve uma da Mangueira, com meninas ginastas de um projeto, elas vieram todas bonitinhas com os uniformes às sete horas da noite para assistir o espetáculo”, relembra Danielle.


Público na sessão do ensaio aberto de Remix, da Cia Déborah Colker (Foto: Instagram @teatrosuerj)
Público na sessão do ensaio aberto de Remix, da Cia Déborah Colker (Foto: Instagram @teatrosuerj)

Além de todas essas iniciativas, ainda há casos em que a produção do teatro organiza sessões específicas para estudantes, o chamado Palco das Escolas. São sessões voltadas para alunos de diferentes idades, que costumam acontecer nas tardes de quinta-feira, antes da principal sessão do dia, que ocorre no período da noite.


Vale ressaltar que, no mês de agosto, o Teatro Odylo Costa Filho, da Uerj,  está fazendo 28 anos. A comemoração será feita com uma programação especial que pode ser conferida  no instagram da Divisão de Teatro da universidade. Além disso, o formulário para os interessados em participar da formação de plateia também está disponível nas redes.


O Grupo ECO e a aproximação da cultura com o território


A luta pela democratização do acesso à cultura tem ganhado força e projeção em diferentes locais. No morro Santa Marta, o Grupo ECO atua desde 1976 na aproximação da cultura com a comunidade. A relação do grupo com o teatro, porém, começou muito antes das atuais ações de formação de público. O ECO veio para transformar a realidade do Santa Marta, com mutirões relacionados a questões como lixo, moradia e bem-estar social. Ao mesmo tempo, surgiu o Jornal Eco, criado para “ecoar” as informações e criar pontes entre a comunidade e o restante da cidade.


Última edição impressa do Jornal ECO (Foto: Facebook Grupo ECO)
Última edição impressa do Jornal ECO (Foto: Facebook Grupo ECO)

O teatro passou a fazer parte do ECO pouco depois. As questões apresentadas pelo jornal também eram transformadas em representações teatrais, tornando as informações mais visuais e acessíveis, especialmente para pessoas que não sabiam ler. Simone Lopes, jornalista e uma das coordenadoras do grupo, entrou no ECO em 1996 justamente por meio do teatro.


Apresentação na Feira das ONGs no Museu da República, 1999 (Foto: Facebook Grupo ECO)
Apresentação na Feira das ONGs no Museu da República, 1999 (Foto: Facebook Grupo ECO)

No ECO, a formação de plateia surgiu diante de uma preocupação do grupo em levar as crianças da colônia de férias ao teatro. A atividade reúne cerca de 250 crianças e 50 instrutores durante 15 dias todos os meses de janeiro. Durante anos, Simone buscou uma forma de levar todo esse público ao teatro, mas encontrou dificuldades relacionadas à quantidade de pessoas e à programação disponível no período. Ela conta que uma vez conseguiram levar as crianças ao Teatro Dulcina, no centro do Rio, e que foi uma experiência muito positiva para todos os envolvidos


Jornal ECO impresso por mimeógrafo, 1984 (Foto: Instagram Grupo ECO)
Jornal ECO impresso por mimeógrafo, 1984 (Foto: Instagram Grupo ECO)

Um dos amigos do ECO sugeriu, então, que eles poderiam participar dos espetáculos ao longo do ano em grupos menores, sempre que houvesse oportunidades de ingressos oferecidos pelas produtoras. Simone conta que, atualmente, recebem aproximadamente 30 a 50 ingressos por espetáculo e que as inscrições são feitas, em suma, de forma digital, a partir de formulários enviados no grupo de Whatsapp do ECO.


O primeiro teatro a estabelecer uma parceria com o ECO foi o Teatro Riachuelo, no centro do Rio. O projeto começou a receber convites e ingressos de outros teatros, enquanto Simone também cumpria a função de entrar em contato direto com as produtoras em busca de ainda mais oportunidades.


Fachada do Teatro Riachuelo durante a temporada de Hair em 2025 (Foto: Karen Teixeira)
Fachada do Teatro Riachuelo durante a temporada de Hair em 2025 (Foto: Karen Teixeira)

Só em 2025, o ECO conseguiu contemplar cerca de 200 pessoas com os ingressos gratuitos para 58 espetáculos distribuídos em 22 teatros diferentes. A quantidade de ingressos recebidos foi superior ao número de pessoas contempladas, pois muitas delas acabaram adquirindo o hábito de frequentar os teatros e assistiram a mais de uma apresentação.


Mas só o ingresso gratuito basta?


Se o preço dos ingressos é uma das maiores barreiras, oferecê-lo de forma gratuita, na teoria, soluciona o problema. Na prática, não é bem assim, principalmente para quem trabalha na produção cultural. Na maioria dos espetáculos, os ingressos no valor cheio podem variar de R$ 50 até R$400, dependendo do setor escolhido.  Em algumas produções, os ingressos na modalidade inteira podem variar de R$50 até R$400, dependendo do setor. 


Ana Beatriz Jacomelli, de 24 anos, produtora cultural recém-formada pela UFF, defende a existência dos ingressos mais acessíveis e a aproximação do público dos bastidores. Para ela, as visitas guiadas, atividades relacionadas aos espetáculos em cartaz, palestras e oficinas com as equipes técnicas e criativas poderiam maximizar a experiência para muito além das duas horas de espetáculo.


A produtora recorre ao conceito de capital cultural, desenvolvido por Pierre Bourdieu, para explicar que existem barreiras que não são necessariamente financeiras. Preferências, conhecimentos e códigos sociais podem influenciar a maneira como as pessoas se sentem pertencentes a determinados espaços. Nesse sentido, só o acesso ao ingresso não vai eliminar todas as dificuldades de acesso.


Ingressos da peça Céu da Língua em 2025 (Foto: Karen Teixeira)
Ingressos da peça Céu da Língua em 2025 (Foto: Karen Teixeira)

O primeiro contato com o teatro passa a ter um papel decisivo para as pessoas voltarem ou não. Segundo Ana Beatriz, uma boa recepção pela equipe dos espaços, uma experiência positiva com o espetáculo apresentado e ter atividades que estimulem a interação podem aumentar as chances de criar o hábito de retornar ao teatro. 

Para Ana, o papel de quem trabalha com cultura também envolve pensar em questões de acessibilidade, expandindo seus projetos para as áreas periféricas e criar condições ideais para que a arte faça parte da vida das pessoas. Uma das ações que ela faria para formar plateia é oferecer ingressos gratuitos ou a preços populares por meio de parcerias com escolas, ONGs e instituições culturais. Ana também defende a realização de conversas entre público e a equipe artística, antes ou depois das sessões, e a confecção de materiais educativos sobre os espetáculos.


O ingresso é gratuito, o transporte e lanche, não


Mesmo com a entrada garantida nos espetáculos, o deslocamento até os teatros segue sendo uma questão sensível, seja por horários, clima ou o custo. Danielle se lembra de uma situação em que um espetáculo receberia duas turmas de EJA, mas um temporal impediu uma delas de chegar a tempo até a UERJ.


No ECO, Simone relata o caso de uma pessoa que precisaria levar três crianças e decidiu cancelar a sua participação, pois não teria condições de pagar o transporte público de ida e volta para toda a família. Assistir o espetáculo não custaria nada, mas o trajeto, sim. Na maioria das vezes, o gasto não se limita só ao transporte, é preciso considerar o lanche e, até mesmo, imprevistos que possam surgir no passeio.


O Teatrão da UERJ não é o único a ter um formulário específico para inscrição dos grupos de formação de plateia. A Fundação Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, tem o seu próprio programa de formação, que pode ser acessado no site oficial da  Cidade das Artes. O processo de inscrição é bem parecido com o da UERJ, basta preencher o formulário com as informações da pessoa responsável e da ONG.


Cidade das Artes decorada para o musical Wicked em 2026 (Foto: Karen Teixeira)
Cidade das Artes decorada para o musical Wicked em 2026 (Foto: Karen Teixeira)

A solicitação desses ingressos geralmente tem algumas exigências simples a serem seguidas pelas ONGs. Depois da sessão, como forma de acompanhamento da experiência do coletivo, é necessário o envio de fotografias do grupo, vídeos contando o que acharam do espetáculo e, também, o aviso de que não podem vender os ingressos de cortesia.


A Secretaria do Estado de Cultura  e Economia Criativa (SECEC) também desenvolve ações para ampliar o acesso para além da simples distribuição de ingressos, como o Passaporte Cultural. Esse Projeto tem o objetivo de democratizar o acesso à cultura não só nos teatros mas em outros equipamentos culturais também, como museus e bibliotecas.


De onde vêm os recursos?


Apesar das leis de incentivo fiscal como a Lei Rouanet e a Lei Estadual de Incentivo à Cultura viabilizarem a produção cultural,elas não garantem, sozinhas, a formação de plateia. Para Ana Beatriz, as leis são importantes para ampliar a produção e possibilitar ações de democratização, mesmo com as barreiras econômicas, territoriais e simbólicas que ainda dificultam o acesso. Com isso, as contrapartidas sociais vem para aproximar os espetáculos com os espectadores que ainda não têm o hábito de frequentar os teatros. 


Procurada, a assessoria de comunicação da SECEC informou que, nos últimos cinco anos, foram lançados 17 editais destinados à linguagem do teatro e que a instituição recebeu mais de 756 propostas de todo o Estado. Ao todo, 44 municípios foram alcançados pelos projetos com mais de R$37 milhões em investimentos apenas no setor teatral. Ainda sobre essas ações, foi criado o edital  "Infracultura", lançado em 2026, que destinou R$ 4,75 milhões da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), e contemplou dez propostas voltadas à reforma, restauração, revitalização e modernização dos equipamentos culturais.


De fato, formar uma plateia não é apenas preencher a sala de espetáculos. A gratuidade dos ingressos pode ser o primeiro contato, mas para que vire um hábito, diversos outros fatores entram em cena. A formação de plateia talvez seja sobre dar acesso aos locais e, ainda assim, criar condições favoráveis para que as pessoas queiram e, sobretudo, consigam voltar.


                  Entrada do Teatro Claro Mais, em Copacabana (Foto: Karen Teixeira)
                  Entrada do Teatro Claro Mais, em Copacabana (Foto: Karen Teixeira)



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