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  • Foto do escritorBeatriz Pereira

Na doação de sangue, solidariedade e necessidade se encontram

Atualizado: 13 de out. de 2023

O Rampas acompanhou o percurso de um doador de sangue e de alguém que recebe transfusão; uma doação pode salvar até quatro vidas


Fachada principal do Hemorio, Hemocentro coordenador do estado do Rio de Janeiro. De acordo com o Ministério da Saúde, 14 em cada mil brasileiros doam sangue regularmente nos hemocentros do Sistema Único de Saúde (SUS)– Foto: Beatriz Pereira


No edifício cinza e bege, número 8 da Rua Frei Caneca, no centro do Rio de Janeiro, duas histórias se encontram. A de Fábio Willian, de 41 anos, que saiu em rumo ao Hemocentro para uma rotina que repete de seis em seis meses, há 23 anos: doar sangue. E de Maurício Luiz de Assis, também de 41 anos, que chegou ao prédio para receber as obrigatórias transfusões de sangue a que se submete quinzenalmente há oito anos, desde que foi diagnosticado com anemia falciforme.


Na recepção do Hemorio (o Instituto Estadual de Hematologia Arthur de Siqueira Cavalcanti), Fábio se identifica na recepção e aguarda ser chamado por uma das enfermeiras. Maurício atravessa, após o cadastro na recepção, o complexo hospitalar para chegar ao terceiro andar. O caminho é longo e um pouco confuso, principalmente para ele, que anda com certa dificuldade de marcha. Ele chega ao Aquário Carioca, uma sala de paredes azuis, inspirada no fundo do mar e criada como espaço lúdico para receber pacientes infantis, mas que acabou sendo usado também para atender adultos. Maurício se senta na primeira cadeira à esquerda da sala de transfusão sanguínea.



Aquário Carioca recepciona e acolhe pacientes de quimioterapia e transfusão sanguínea na sede do Hemorio – Fotos: Rogério Santana



Dois andares abaixo, no salão de doadores, Fábio apresenta o documento de identidade, recebe um crachá numerado e aguarda ser chamado. O movimento é típico de uma quinta-feira no horário do almoço, há poucas menos de 6 pessoas esperando atendimento. Em menos de 20 minutos, Fábio é chamado. Não precisa mais preencher o questionário de doador, já fez isso muitas outras vezes. É encaminhado a um consultório, onde uma enfermeira, verifica suas condições de saúde. Tudo certo, pode continuar.


Já sentado na cadeira de doação, a enfermeira como sempre, mede sua pressão e temperatura, lhe dá um copo d’água, e pergunta qual foi a última refeição que ele fez e se ingeriu alguma bebida alcoólica recentemente. Feitos os preparativos e as perguntas devidamente respondidas, a profissional prende a fita amarela no braço dele e, depois de uma agulhada no antebraço, o sangue percorre o tubo plástico e é coletado numa bolsa própria. O doador, à vontade, mexe no celular, fala com a filha, se atualizando do noticiário do dia. Quando vê, pronto. Já acabou a coleta. Em 15 minutos, 420 ml de sangue foram retirados de seu corpo.



Liberado, Fábio segue para o refeitório, onde precisa se alimentar. Os doadores voluntários se sentam nas mesas fixadas ao chão e recebem em bandejas plásticas um lanche: bolo de laranja, suco, biscoitinhos, geleia e um quadrado de requeijão. Fábio conta como se tornou doador de sangue recorrente: “Há 23 anos eu descobri que a minha filha tinha sopro no coração, e que ela corria o risco de ter que passar por uma cirurgia”.

O sopro cardíaco é uma condição de saúde na qual há uma alteração no fluxo sanguíneo, e o movimento do sangue entre as estruturas e vasos do órgão provoca o ruído, que pode ser percebido por um médico durante exames de rotina. Essa condição às vezes resulta em mau funcionamento do órgão mais importante do corpo, e por vezes, precisa ser corrigido cirurgicamente, em casos de pessoas adultas com histórico de doenças cardíacas.

Diante da situação da filha, que precisaria de uma cirurgia e de doações para repor o sangue perdido, Fábio se tornou doador. A jovem, hoje com 25 anos, acabou não precisando se submeter à cirurgia, pois seu quadro melhorou apenas com tratamento e medicamentos. Mas Fábio seguiu doando.

Duas salas ao lado, no setor de promoção à doação de sangue, a assistente social Karla Sant’Anna, funcionária do Hemorio há quase 8 anos, explica que seu trabalho diário é correr atrás de potenciais doadores. Como Hemocentro coordenador do estado do Rio de Janeiro, o Hemorio abastece cerca de 180 unidades de saúde, entre públicas e privadas, do estado, além dos pacientes internos. Karla relata que, num dia bom, a unidade atende uma média de 200 a 250 candidatos para doação por dia. Mas isso é quase a metade do ideal para manter os estoques em situação satisfatória.


O caminho do sangue



O elevador monta cargas leva as bolsas de sangue da sala de doação até os laboratórios no andar superior. – Foto: Beatriz Pereira

No salão de doadores, as enfermeiras recolhem todas as bolsas de sangue e as colocam no montacargas – um elevador próprio que leva tudo até o segundo andar do hospital, onde passarão por um processo rigoroso de processamento e análise.


O material é inspecionado e separado em tubos de amostras, que são enviados para os laboratórios no mesmo andar. Depois o sangue segue para o setor de processamento, onde a equipe de hemoterapia ‘separa’ os elementos do sangue: hemácias (células sanguíneas, os chamados glóbulos vermelhos ou eritrócitos), plaquetas (estruturas relacionadas à cicatrização de feridas e reparação de vasos sanguíneos) e plasma (componente que corresponde à maior porcentagem do sangue, representa a parte líquida e reúne 90% de água, sendo o restante constituído por substâncias dissolvidas, como proteínas, sais, lipídios, hormônios e vitaminas).


Composição dos elementos do sangue humano. – Imagem: g1.globo

No laboratório de produção de hemocomponente, as máquinas separam os principais elementos do sangue e coletam amostras para análise. – Foto: Beatriz Pereira

Da sala de produção de hemocomponentes, as amostras passam para o Laboratório de Sorologia, onde a supervisora Sueli Cordeiro coordena o processo de análise do sangue. Ela explica que a sorologia faz parte do chamado ‘Ciclo do sangue’: a triagem do doador, a captação do material, separação dos elementos e, finalmente, análise das amostras. É quando a equipe dela pesquisa se o sangue doado contém agentes infecciosos que podem transmitir doenças através da transfusão de sangue, tais como o HIV, doença de Chagas, sífilis, anti-HTLV (anticorpos que mostram infecção pelos vírus HTLV 1 e 2, que atinge as células de defesa do organismo, os linfócitos T), hepatite B e hepatite C.

"Procuramos trabalhar com tecnologia de ponta, estamos atualmente com os equipamentos e uma plataforma específicos para sorologia. Os testes são altamente específicos, sensíveis, o que ajuda a melhorar a qualidade dos resultados”, conta a supervisora.


A equipe informa imediatamente quando alguma amostra de sangue dá sinais de contaminação. As equipes do Hemorio se comunicam, a bolsa de sangue é descartada e o doador é chamado para fazer uma segunda coleta. Se o resultado se repetir, o doador é avisado e encaminhado para a equipe hospitalar. Torna-se paciente.



A sala de testes sorológicos conta com 4 máquinas de alta tecnologia que conseguem reconhecer partículas infecciosas em pequenas amostras de sangue. – Fotos: Beatriz Pereira


Recebendo a doação de sangue


De volta ao térreo, lá no Aquário Carioca, Maurício já está pronto para receber as bolsas de sangue que precisa como parte do tratamento. Ele é portador de anemia falciforme, um distúrbio hereditário, em que os glóbulos vermelhos (hemácias) assumem um formato de foice. As células morrem prematuramente, causando uma menor taxa de glóbulos vermelhos saudáveis, e isso causa a anemia. O fluxo sanguíneo também pode ser obstruído, causando dor.


Imagem: biologianet.com

Infecções, dores e fadiga são sintomas dessa doença. Maurício conta que tem uma úlcera nas pernas (uma ferida aberta que se desenvolve na perna) e precisa da transfusão como forma de tratamento da ferida. Desde os 33 anos, quando descobriu a doença e começou o tratamento, a cada 15 dias, ele fica de 2 a 3 horas no hospital, entre exames e a transfusão em si. Durante o procedimento, enquanto conta sua história, recebe um telefonema de sua esposa, que quer saber se ele já está voltando para casa. Maurício, com um pouco de dificuldade para falar, diz a ela que falta pouco. Quando desliga, diz que o tratamento, por mais cansativo que seja, é o que lhe permite voltar para casa e a família. “Sangue é isso, é vida.”


Desde o início do ano até o meio de do mês de maio, 28.150 pessoas doaram sangue no Hemocentro. Isso é metade do que seria necessário para suprir toda a demanda dos hospitais públicos do Rio de Janeiro.


Maurício Luiz de Assis, de 41 anos, recebendo transfusão sanguínea para tratamento da anemia falciforme. – Foto: Beatriz Pereira

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