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  • Foto do escritorTiago Mendes

Árbitras de futebol no Brasil trabalham sem receber salários desde 2023

Atualizado: 23 de mai.

Embora a participação feminina no esporte tenha aumentado, profissionais são alvo de machismo cotidiano


Equipe de arbitragem composta apenas por mulheres - Foto: Divulgação/CBF

Enquanto o Brasil discute o lugar da mulher no esporte e oferece mais oportunidades e espaços para elas ocuparem no meio, uma nota da Associação Nacional dos Árbitros de Futebol (Anaf), publicada no mês de Abril, revelou o que era até então desconhecido por muitos: as árbitras estão trabalhando sem receber em diversos torneios femininos desde o ano passado. 


O comunicado foi emitido após acusações por parte do sócio majoritário do Botafogo, John Textor, que criticou a arbitragem brasileira e, sem provas, apontou manipulações de resultados. O texto criticou a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e falou do salário em atraso das árbitras: “Desde o ano passado elas atuam sem receber em diversos torneios femininos nacionais”.


O descaso da CBF com a arbitragem composta por mulheres escancara a falta de comprometimento com os torneios femininos. Quem diz isso é Nadine Basttos, ex-árbitra do quadro Fifa e atual comentarista do SBT, em entrevista à editora de Política do Rampas, Ana Julia Silveira: “Se a instituição não respeita os profissionais que trabalham nas suas competições, fica difícil exigir um desenvolvimento com a atividade. Eu acho que a Anaf e a Associação de Árbitros de Futebol do Brasil (Abrafut), que representam os árbitros, precisam se manifestar em relação a isso, para que a classe tenha uma resposta sobre essa situação”.


Entretanto, o cenário vai muito além da CBF. Em abril, Ramón Díaz, que era até então técnico do Vasco da Gama, teve uma fala machista após se posicionar sobre um pênalti não marcado para o cruz-maltino na partida contra o Grêmio. “É complicado que quem decida no VAR seja uma mulher”, afirmou. A responsável pelo VAR na partida, Daiane Muniz, recomendou a marcação da falta, mas voltou atrás na decisão e entrou na mira de Díaz. Em seguida, após uma sequência de maus resultados, o argentino pediu demissão do cargo.


Coletiva de Ramón Díaz, ex-técnico do Vasco da Gama - Foto: GE

Apesar de ter sido uma árbitra consagrada, Nadine enfrentou dificuldades: “Sou muito grata a tudo que vivi na minha carreira. Porém, passei por desafios e acredito que, sem dúvidas, foi pelo fato de ser uma mulher trabalhando no meio que é predominantemente masculino. A convivência com as pessoas que não acreditam que o futebol também pode ter mulheres, principalmente na arbitragem, pesa muito. Além disso, tem a falta de apoio, porque são poucos que te incentivam a continuar na trajetória”.


O machismo fora do campo


O machismo ultrapassa os limites das quatro linhas do campo. Além das árbitras, narradoras e comentaristas também não escapam das afrontas. Muitos abusos acontecem nas redes sociais, onde os usuários xingam e utilizam palavras ofensivas contra as mulheres. Um exemplo é o da narradora Renata Silveira, que é ridicularizada em ocasiões seguidas no comando de suas transmissões no grupo Globo.


A profissional Luciana Zogaib foi pioneira nas rádios FM e se tornou a primeira mulher a narrar uma partida de futebol na final da Copa Libertadores, disputada entre Flamengo e Athletico-PR, em outubro de 2022. Em entrevista ao Rampas, ela diz que, mesmo com o crescimento das mulheres, ainda é difícil estar no meio esportivo: “Eu me sinto muito mal. Fica cada dia mais claro o tamanho do problema que precisamos superar. Basta uma lida nos comentários das postagens sobre o Ramón (ex-técnico do Vasco da Gama) que a situação do machismo fica escancarada. Isso acarreta não só na arbitragem, mas também nas mulheres narradoras, porque diminuem os trabalhos delas”.


Luciana Zogaib pelo canal Goat - Foto: Reprodução/Instagram

Luciana também aborda a injustiça e o pouco caso nas tentativas de punição aos homens que cometem atos machistas: “É lamentável que os clubes não tenham políticas claras de inclusão e educação em relação ao tema, e até mesmo um setor de compliance para agir nessas horas. No caso do Vasco e do Ramón, acaba manchando a linda história do clube, porque ele provavelmente recebeu alguma multa e depois tudo vai ser esquecido. Como sempre os casos acabam sendo relevados, enviesados e maltratados, indo contra tudo aquilo que as mulheres lutam nesse meio”.


Apesar do preconceito, a narradora mantém o machismo em mente e o usa como motivação para suas lutas e trabalhos. Famosa por seu bordão “Deu Onda”, faz parte do Canal Goat e das rádios Nacional e Roquette-Pinto: “É claro que às vezes me sinto triste e impotente com tudo isso (machismo e misoginia) que as mulheres do meio vêm sofrendo. No entanto, uso como combustível, porque tenho para mim que eles não vão me calar e nem me derrubar, pois sigo resistindo e influenciando outras mulheres nessa luta”.


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