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  • Foto do escritorEmilly Veiga

Animal silvestre não é entretenimento

Atualizado: 6 de jun.

Influenciadores exibem nas redes espécimes que deveriam estar em liberdade, mas criar um bicho como esses exige licença ambiental e aprendizado



Exibir animais silvestres nas redes para ganhar likes e compartilhamentos é uma moda que vem se espalhando, mas quem faz isso não se dá conta de dois problemas: o bem-estar do próprio animal e o estímulo involuntário ao comércio de animais silvestres. Muitos deles são espécies ameaçadas de extinção. Este ano o influenciador digital Agenor Tupinambá fez sucesso ao compartilhar a rotina de sua capivara de estimação, Filó, e o vídeo do roedor deitado na cama, para tirar uma soneca, recebeu milhões de visualizações e curtidas. O rapaz foi multado e teve que entregar o animal ao Ibama.


De acordo com a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), o Brasil é uma das principais rotas de tráfico de animais e um dos maiores exportadores de animais silvestres. A maior parte da comercialização de animais capturados ilegalmente no país acontece aqui mesmo: 70% dos animais capturados são vendidos em território nacional e 30% são enviados ao exterior. A estimativa é que o tráfico de animais silvestres movimenta de 10 a 23 bilhões de dólares anualmente em todo o mundo, segundo a ONG World Wide Fund for Nature (WWF), que trabalha na área de preservação da natureza e redução do impacto humano no meio ambiente. O Brasil é responsável por 10% desse fluxo de dinheiro, o que representaria algo entre R$ 4,8 bilhões e R$11 bilhões. Animais considerados raros são os mais caros.


Um relatório realizado pela "Social Media Animal Cruelty Coalition" (SMACC) reuniu 840 vídeos de animais silvestres sendo retratados como domésticos e fofos. Juntos, eles somam mais de 11 milhões de visualizações. Para a entidade, esses vídeos aumentam a demanda por bichos silvestres e levantam o questionamento sobre o tráfico. A pesquisa da World Animal Protection mostra que 46% dos donos de animais silvestres no Brasil compraram seus pets por impulso. Essa conduta pode comprometer o bem-estar do animal e gerar sofrimento. No Brasil, quem tiver interesse em criar animais silvestres em criadouros habilitados ou em residências, precisa seguir regras específicas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, o Ibama.


Cuidados e aprendizado para ter um animal silvestre


A estudante de jornalismo Lorrane Mendonça, de 20 anos, cria dois pássaros, uma maritaca de dois anos, o Bebê, e um ring neck de nove meses, o Aladim. Os dois animais são licenciados para a domesticação. A jovem afirma que, apesar de já ter interesse em aves, só ganhou uma maritaca depois que um parente tentou manter o bicho em casa e desistiu, por causa do barulho. “Eu brinquei dizendo que da próxima vez que ele quisesse dar a maritaca, desse pra mim, porque eu queria muito um animal daquele. No outro dia ele me mandou buscar o animal”, disse Lorrane.




Bebê e Aladim, respectivamente. (Foto: Lorrane Mendonça)


Quando resolveu aumentar a família e criar seu ring neck, Lorrane procurou um criadouro. Ela afirma que o pássaro foi entregue para ela com a documentação certa. Tinha apenas 20 dias e precisava de cuidados especiais.

"Na maioria dos criadouros você pega o animal muito pequeno para poder aprender o manejo e pro animal realmente criar um vínculo com você. Eu peguei o Aladim com vinte dias. Não sabia como dar papinha, não sabia fazer nada”, explica.



Aladim recém nascido. (Foto: Lorrane Mendonça)

Para ter um animal silvestre em casa, é preciso estar consciente das necessidades deles. Muitos não são apegados aos humanos ou não são facilmente domesticáveis. Além disso, é preciso estar ciente sobre o tempo de vida, alimentação, tamanho e acomodações exigidas.

Lorrane conta que, durante o período de adaptação de Aladim, teve que alimentá-lo com comida pastosa. Por falta de instrução e conhecimento, o pássaro acabou aspirando a comida. "Foi muito complicado, porque é muito difícil achar um médico veterinário que cuide de animais silvestres. Ou é muito caro ou não existe na sua localidade. Então, isso foi o que mais me assustou”.


Hoje, a jovem procura sempre se informar por plataformas na internet, como o Instagram e Youtube, mas principalmente pelo veterinário que cuida de seus bichinhos.

O médico veterinário Luiz Felipe Veiga, especialista em animais silvestres, explica que a criação não licenciada pode trazer sérios problemas para o animal. A maior dificuldade é introduzir uma alimentação adequada para a espécie, que muitas vezes passa pela mão de pessoas irresponsáveis.


“A gente vê na feira várias tartarugas tiradas direto da natureza para o contato humano. Como clínico, atendo dezenas desses animais, e geralmente eles vêm com uma deficiência nutricional absurda, até anatomicamente os cascos são lesionados por falta desses nutrientes”, disse o especialista.


A técnica de enfermagem e estudante de medicina veterinária Jeniffer Barreto, de 22 anos, é dona de uma jiboia arco-íris (Epicrates maurus) chamada Severo, e conta que desde pequena sempre teve interesse em animais diferentes do “normal”. Jennifer não sabia que podia ter uma cobra em casa até ver uma pessoa na internet que criava uma jiboia arco-íris e se apaixonou, decidindo criar uma também.



A jiboia arco-íris Severo. (Foto: Acervo Pessoal)


Ela explica que o processo para obter seu animal de forma legal foi bastante simples, mas, mesmo com a licença do Ibama, teve dificuldades com a alimentação de seu bichinho. Segundo ela, foi difícil encontrar um biotério confiável para comprar os ratos que servem de ração para o animal. “Um dia eu estava comprando coisas pra colocar no terrário, e o vendedor da loja também criava serpentes, aí me orientou. Ainda sim, compro de um lugar bem distante da minha casa.”


Tanto Jeniffer quanto Lorrane falam sobre a importância de estudar e pesquisar sobre o animal que você quer adquirir. É importante estar ciente sobre as especificidades do bicho, além de ter um veterinário de confiança, especialista em animais silvestres. “Eu conheço muitas pessoas que adquirem uma ave e depois de dois, três meses querem devolver, passar ou vender, porque a ave bicou uma criança ou está muito agressiva com o dono”, afirma Lorrane. “Às vezes as pessoas não querem estudar para ter o animal, só querem ter”, completa.


Se você presenciar um crime ambiental ou a posse ilegal de animais silvestres, é possível acionar o Ibama. Denúncias podem ser feitas por meio do Linha Verde, pelos números 0300 253 1177 (interior) e (21) 2253-1177, na cidade do Rio de Janeiro. Além disso, o aplicativo para celulares "Disque Denúncia Rio" também está disponível, permitindo que usuários com sistemas operacionais Android ou IOS façam denúncias anexando fotos e vídeos, com a garantia de anonimato.

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