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  • Foto do escritorRebeca Passos

Brasil e China: nos 50 de relações diplomáticas, comércio e meio ambiente entre as prioridades

Atualizado: 13 de mai.

País asiático é o principal parceiro comercial brasileiro; transição energética virou prioridade no diálogo entre as duas nações


As relações diplomáticas ultrapassam a esfera bilateral - Foto: Alan Santos/PR

Brasil e China comemoram cinco décadas de laços diplomáticos em 2024, numa história marcada por negócios, trocas culturais e pelo debate socioambiental. Em 2009, a China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil, e de lá para cá a relação comercial vem batendo recordes positivos. Durante o ano de 2023, o fluxo comercial acumulado entre os dois países superou US$ 130 bilhões, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). É para a China que vão 30% das exportações brasileiras. 


No ano de 2022, ocorreu um novo recorde em investimentos de empresas chinesas no Brasil: foram 32 projetos, 14% a mais do que em 2021. Em termos financeiros, os investimentos caíram em 78%. O Sudeste foi o destino de 66% dos investimentos.


A expectativa é que este ano supere a marca histórica de US$ 100 bilhões, de acordo com Márcio Elias Rosa, secretário executivo do MDIC - Foto: Laila Tulani/Arquivo Pessoal

As relações comerciais entre os dois países têm sido pautadas por um padrão bem definido. Enquanto o Brasil exporta principalmente produtos de baixo nível de agregação de valor – soja, minério de ferro, petróleo bruto e carne bovina –, a China é reconhecida por investimentos nos setores de eletricidade e de extração de petróleo, bem como transportes, telecomunicações, serviços financeiros e indústria.


Tulio Cariello, diretor de Conteúdo e Pesquisa do Conselho Empresarial Brasil-China, afirma que, apesar da concentração das exportações brasileiras em commodities, isso não impede investimentos significativos da China em outros setores da economia brasileira, como na manufatura, energia renovável ou agricultura.


João Cumarú, pesquisador pleno e especialista em advocacy da Plataforma Cipó,  um instituto de pesquisa independente e sem fins lucrativos, dedicado a questões de clima, governança e relações internacionais, diz que o desafio é diversificar a parceria comercial. Isso envolve não apenas a busca por novos mercados, mas também a incorporação de tecnologia e valor agregado aos produtos exportados. A necessidade de incorporar a tecnologia nas exportações chinesas deveria ser uma preocupação do setor produtivo brasileiro, alerta Cumarú, pois a China vem buscando diversificar suas fontes de suprimentos agrícolas para fortalecer sua produção interna e reduzir a dependência de importações.


O Brasil é o país que mais recebe investimentos chineses na América do Sul - Investimentos Chineses no Brasil em 2022 / Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC)

Cumarú observa que o setor produtivo brasileiro precisa estar mais atento para incorporar preocupações ambientais e critérios de sustentabilidade. Isso se deve à tendência dos consumidores, incluindo os chineses, de estarem mais atentos à origem e às práticas sustentáveis na produção dos alimentos. E, se o setor produtivo brasileiro não acompanhar essas mudanças e preocupações, pode enfrentar problemas. “Por enquanto o setor do agro ainda figura como um peso muito grande, até salvador da balança comercial positiva das exportações para China, mas existe um cenário no futuro que deveria estar sendo observado”, diz.


Memórias diplomáticas: como a parceria foi construída


Antes do estabelecimento das relações entre Brasil e China, o cenário internacional era dominado pela bipolaridade pós-II Guerra Mundial. Em 1974, após 25 anos da Revolução Chinesa, a China começou a se abrir para o mundo, enquanto o Brasil, sob a política externa do governo Geisel, buscava ampliar suas relações internacionais e diversificar parceiros comerciais.


Em 1993, o Brasil foi um dos primeiros países considerados Parceiros Estratégicos pela China. As trocas comerciais cresceram de US$ 19 milhões em 1974 para US$ 1,3 bilhão em 1994, segundo dados do CEBC. Em 2004, durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China, foi criada a Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (COSBAN), principal mecanismo de coordenação das relações bilaterais. Em 2012, os dois países aprofundaram a parceria e firmaram o Plano Decenal de Cooperação (2012-2021), para promover a cooperação econômica e comercial em várias áreas, ao longo de dez anos.


Nos anos Bolsonaro, devido às dificuldades de diálogo com o governo brasileiro, o governo chinês acabou ampliando as parcerias com estados e municípios do Brasil. 


Em abril de 2023, Lula, em seu terceiro mandato como presidente da República, fez sua terceira visita à China como chefe de Estado. Ele e o presidente chinês, Xi Ji Ping, assinaram 15 acordos comerciais e de parcerias envolvendo os governos dos dois países. “É importante dizer que a China tem sido um parceiro preferencial do Brasil nas suas relações comerciais. (...) É com a China que nós temos a maior balança comercial e é junto com a China que nós temos tentado equilibrar a geopolítica mundial discutindo os temas mais importantes”, disse Lula em reunião com o presidente do parlamento chinês, Zhao Leji, durante sua viagem à China. Para este ano, existe a possibilidade de uma visita de Xi Ji Ping ao Brasil


Presidente do Brasil, Lula, junto ao Presidente da China, Xi Jin Ping, em sua visita à China em abril de 2023 - Foto: Ricardo Stuckert/PR

Meio ambiente e transição ecológica


Entre os desafios da parceria sino-brasileira estão os debates sobre sustentabilidade e clima. Para a China, a questão central é a redução das emissões de gases de efeito estufa. Já o Brasil, apesar de utilizar uma matriz energética majoritariamente de baixa emissão de carbono, ainda tem como principais obstáculos setores industriais de alto impacto ambiental, como o agronegócio, a mineração e a pecuária.


Desde 2005, a China é o maior emissor de gases de efeito estufa do mundo. Foram emitidos 1,34 gigatoneladas (Gt) de CO₂ em 2021, segundo dados divulgados pela Climate Watch - Foto: Johannes Plenio/Pexels

Chineses estão investindo fortemente na produção de veículos elétricos, mas o Basil ainda não tem, segundo Tulio Cariello, um marco regulatório que favoreça o desenvolvimento desse mercado. “Carro elétrico no Brasil é muito caro. Você tem um, mas não tem infraestrutura”, afirma. Ele ainda ressalta que algumas das maiores empresas chinesas de tecnologia no Brasil, como a Great Wall Motors (GWM) e a BYD, não só investem na questão dos veículos elétricos, como também em painéis solares. “O Brasil poderia ter muito mais investimento chinês na área de infraestrutura, mas para isso o governo e as empresas precisam apresentar projetos que sejam viáveis”, diz.


Segundo os especialistas, a cooperação bilateral entre Brasil e China em setores estratégicos promete impulsionar o desenvolvimento econômico e tecnológico de ambos os países. “Algumas das maiores empresas do mundo de Tecnologia da Informação estão na China, como a Alibaba, Pinduoduo, e concorrem diretamente com empresas americanas, como a Amazon, por exemplo”, diz Tulio Cariello. 


Cumarú aponta que, em um contexto político favorável, é fundamental repensar e fortalecer as relações bilaterais, com uma estratégia mais sólida que reconheça os interesses de ambas as partes. E diz que, em um curto prazo, a urgência deveria se voltar para questões como a transição energética ecológica e um financiamento para essa transição, onde a China pode desempenhar um papel crucial. 



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