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  • Foto do escritorYan Ney

De onde vêm os nomes dos bairros do Rio de Janeiro

Atualizado: 13 de abr.

Influências indígenas, africanas, europeias e religiosas explicam denominações de regiões da cidade



Carioca: termo de origem tupi-guarani, derivado da expressão kara'i oka, que significa “casa do homem branco”. No Brasil Colônia, essa palavra indígena passou a ser usada também pelos brancos para designar quem nascia na capitania do Rio de Janeiro. Tudo por causa do Rio Carioca, que fornecia água potável à população.

E, assim como o nome de quem nasce na cidade, muitos bairros do Rio carregam a história africana e indígena. Outros têm nomes associados à imigração portuguesa e à tradição católica dos colonizadores. O Rampas decidiu contar algumas histórias dos mais de 160 bairros da cidade, por meio da consulta aos sites do governo do Estado, da prefeitura e de instituições públicas e privadas. Foram consultados os sites “MultiRio”, “Rio: Um Olhar no Tempo”, “Rio Prefeitura”, “Brasil Escola”, “Biblioteca Nacional" e “Supervia”.

André Nunes de Azevedo, professor adjunto de História Moderna e Contemporânea da Uerj e pesquisador da influência da imigração portuguesa no Rio de Janeiro, conta que a formação dos bairros cariocas se relaciona com a divisão de terras que eram dos jesuítas. “Os nomes que têm origem nos povos originários estão ligados à expulsão dos jesuítas do Reino Portugal, e automaticamente da América Portuguesa. A terra que era desses jesuítas começa a ser repartida, e esse processo é fundamental para a gente entender a formação dos bairros”, afirmou.

O Rio de Janeiro foi fundado em 1565. O primeiro bairro planejado só surgiu mais de 200 anos depois: Vila Isabel. Segundo a historiadora Lili Rose Cruz Oliveira, autora do livro “Vila Isabel de Rua em rua”, em 1872 o Barão de Drumond convidou um arquiteto para fazer o bairro e deu lotes para criar igrejas, colégios e uma companhia de bonde, já que as pessoas precisavam morar perto do Centro da cidade, onde estava o emprego. Anteriormente, a área era denominada Fazenda do Macaco e foi dada de presente de casamento por D. Pedro I à sua segunda esposa, a princesa Amélia Augusta. Mais tarde, em homenagem à Princesa Isabel, o bairro foi renomeado.


Bairros batizados a partir do tupi-guarani

Com influência tupi, o nome do bairro Tijuca significa “água parada" e se referia às lagoas da atual Barra. Ipanema designa "lago fedorento”, e Guaratiba, “morada das garças”. Maracanã é sinônimo de “semelhante a um chocalho” e recebeu este nome porque o rio homônimo era habitado por papagaios. Já Paquetá significa “muitas conchas”, enquanto Sepetiba é “sítio dos sapês” por causa das florestas.

Jacarepaguá deriva de três palavras da língua tupi-guarani: yacare (jacaré), upá (lagoa) e guá (baixa), ou seja, a “baixa lagoa dos jacarés”. Curicica vem de ya-cury-ycica, “a árvore que baba”, e Andaraí provém da expressão “Andirá-y”, ou seja, “Rio dos Morcegos”.

Inhoaíba é distorção de “nhu” (campo), “ahyba” (ruim), denominação antiga dada pelos indígenas àquela região. Com a implantação do ramal ferroviário, foi inaugurada a estação Engenheiro Trindade, depois chamada de Inhoaíba, consolidando o nome do bairro. No entanto, há quem diga que a denominação venha de “Terras do Senhor Aníbal”, e como se falava Nhô Aníbal, foi se adaptando até chegar em Inhoaíba.


O professor André Nunes de Azevedo acrescenta que a grande presença dos nomes com origem indígena se dá porque a tradição oral desses povos se difundia pelos jesuítas. “Há uma presença muito forte da língua dos povos originários, muito mais do que dos africanos, porque eles eram objeto das ações dos jesuítas, que faziam uso da sua língua para tanto. Então a tradição oral vai sedimentando esses nomes”, contou André.

Também com influência tupi-guarani, Grumari vem de “curu” (seixos, pedras soltas) e “mari” (que produz água). Para Copacabana, mercadores peruanos trouxeram uma cópia da imagem da Virgem Maria – que era adorada pelos habitantes da península de Copakawana (localizada no Lago Titicaca, entre o Peru e a Bolívia) – e montaram um altar no final da praia. Tempos depois, foi construída, no local, a Capela de Nossa Senhora de Copacabana, nome que acabou batizando a região.


Influência africana

Bangu, bairro da zona oeste, tem o nome relacionado a “banguê”, vocábulo africano, simbolizando uma espécie de tabuleiro de couro para transportar materiais. Uma outra versão diz que o nome é derivado de “útang-û”, em referência à grande sombra projetada pelo Maciço da Pedra Branca sobre o vale onde Bangu se localiza.

Mas, para uma cidade cuja história é marcada pela presença negra, não são muitos os bairros batizados a partir de línguas de origem africana. O professor Azevedo diz que a influência colonial que pairou sobre a sociedade brasileira ajudou a relacionar o negro ao escravo, que não é bem visto na hierarquia social. “Dentro da escala de valorização social, o grupo étnico que historicamente foi considerado de menor status foi o de negros, descendentes de africanos. Havia uma visão muito negativa, ligando o negro à escravidão. Isso prejudicou o uso de nomes africanos em espaço público”, explica.


Colonização europeia

Muitos bairros também carregam traços da colonização portuguesa. Engenho da Rainha, por exemplo, ganha esse nome porque as terras da região pertenciam à rainha Carlota Joaquina, casada com D. João VI e mãe de D. Pedro I.

Botafogo, Brás de Pina, Madureira e Méier levam o sobrenome dos proprietários daqueles terrenos. Enquanto isso, Flamengo e Leblon têm relação um com o outro. O último bairro está ligado à chácara do holandês Charles Leblon, que viveu no local em meados do Século XIX. O Flamengo é uma homenagem ao navegador Olivier Van Noort, vindo da região de Flandres, na Bélgica - mas na verdade ele era holandês.

Com origem nos engenhos, Realengo vem de “Campos Realengos”, usado para indicar áreas destinadas à serventia pública e à pastagem do gado de pecuaristas que não possuíam terras próprias. Olaria foi batizada por causa dos fornos de cerâmica para fabricação de tijolos nas olarias da região.

Na região hoje conhecida como Paciência, no séc XIX os mensageiros imperiais saíam a cavalo da Quinta da Boa Vista (residência do imperador) para levar documentação até Santa Cruz para despachar com D. Pedro, que vinha de São Paulo. Eles ficavam em uma casa aguardando liberação para prosseguir até Santa Cruz – e às vezes a espera era de dias. Por isso, quando saía da Quinta da Boa Vista, e se fosse perguntado para onde ia, a resposta deste mensageiro era ” A casa da Paciência”!

Já o Largo do Pechincha recebeu essa denominação por causa do comércio tradicional e forte, onde pessoas de todas as partes da cidade barganhavam na hora de comprar as mercadorias.


Força religiosa

Alguns bairros carregam nome de igrejas ou santos, como Glória (por causa da Igreja de Nossa Senhora da Glória), Penha (igreja de Nossa Senhora da Penha), Santa Teresa (convento de mesmo nome localizado na região) e Santo Cristo (Igreja do Santo Cristo, construída em frente ao cais do porto). Em Vigário Geral, o padre responsável pela paróquia de Nossa Senhora da Apresentação (que existe até hoje, em Irajá) vinha sempre por uma estrada de ferro. A estrada levou o nome de “Estrada do Vigário Geral”, que deu nome ao bairro.

Originalmente, Piedade se chamava “Terra dos Gambás”, até que os moradores se reuniram e escreveram uma carta para o diretor da Estrada de Ferro Central do Brasil, no fim do século XIX. O texto era o seguinte: “Por piedade, doutor, troque o nome da nossa estaçãozinha”. O apelo acabou dando certo e o diretor respondeu: ‘Minha senhora, será feito. O nome do bairro será Piedade’.

Por fim, na região de Santa Cruz, os jesuítas colocaram uma grande cruz de madeira, pintada de preto, encaixada em uma base de pedra sustentada por um pilar de granito. O cruzeiro deu nome ao bairro e mais tarde foi substituído por outro de dimensões menores. Atualmente existe uma cruz no mesmo local, mas não é o cruzeiro histórico, e sim uma réplica que ali foi erigida.


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