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Em busca da pílula anticoncepcional masculina

Atualizado: 9 de abr.

Medicamento em fase de teste em animais reacende debate sobre divisão da responsabilidade na contracepção


Por Camille Mello, José Henrique Costa e Maria Luiza Vieira

Pesquisas em todo o mundo buscam equivalente à pílula anticoncepcional feminina para o público masculino. Foto: Pixabay/Gabriela Sanda

Em fevereiro, pesquisadores da Weill Cornell Medicine, nos Estados Unidos, publicaram na revista científica Nature Communications um estudo sobre um medicamento capaz de imobilizar espermatozoides. Ainda não testada em humanos, a droga é um passo importante para o desenvolvimento de um novo método contraceptivo, uma espécie de pílula anticoncepcional masculina, e reacendeu o debate sobre a divisão de responsabilidades entre homens e mulheres no tema.


Os testes realizados em camundongos apontam para uma infertilidade temporária causada pela pílula. Caso seja atestada a eficácia em humanos, usuários poderão tomar uma dose única do remédio antes do ato sexual. Além do uso “sob demanda”, outra vantagem do medicamento é que, ao contrário da pílula anticoncepcional feminina, ele não envolve hormônios e tem efeitos colaterais praticamente nulos.


O estudo norte-americano integra um rol de pesquisas em todo o mundo que buscam, para homens, um equivalente à pílula anticoncepcional feminina. No Brasil, um time de cientistas da Universidade Estadual Paulista (UNESP) também desenvolve um medicamento que reduz a locomoção dos gametas masculinos.

Medicamento que reduz a locomoção de espermatozoides está sendo desenvolvido pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Imagem: Pixabay/Steffen Erbe

Embora não haja previsão de comercialização, a ideia de que o lançamento do medicamento está mais próximo do que nunca tem gerado expectativas sobre uma divisão mais justa da responsabilidade na prevenção da gravidez — peso que recai historicamente sobre as mulheres. Há mais de 60 anos o corpo feminino tem sido alvo dos mais de 20 métodos contraceptivos listados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Paralelamente, apenas dois são destinados a pessoas com pênis: o preservativo e a vasectomia.


Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) revelou baixa adesão dos brasileiros ao preservativo. Foto: Pixabay

“Tradicionalmente, a função de contracepção é delegada à mulher. Então, os homens geralmente se isentam de usar até mesmo preservativos, enquanto a parceira usa o contraceptivo oral ou injetável”, afirmou o ginecologista e sexologista Charles Schneider Borges.


Embora o professor da Universidade Feevale seja cético em relação à popularização imediata da pílula masculina, algumas pesquisas de opinião têm apontado um cenário otimista de adesão dos homens a essa inovação científica. Um levantamento feito no ano passado pela rede de drogarias do Reino Unido Independent Pharmacy revelou que 52% dos britânicos estão dispostos a tomar o contraceptivo masculino.


No Brasil, a novidade também foi bem recebida por uma parcela dos homens. O ator Roberto Rodrigues, de 38 anos, afirma que experimentaria o novo método, mesmo diante de potenciais efeitos adversos. “Se nós, homens, submetemos as mulheres por tanto tempo a medicamentos novos e ‘inseguros’, por que eu não assumiria algum risco caso fosse necessário?”, questionou o carioca.


Mulheres, por sua vez, cansadas de sofrer os efeitos colaterais de métodos hormonais, buscam alternativas à pílula, como o dispositivo intrauterino (DIU), a laqueadura e até a percepção da fertilidade, que ensina à usuária a identificar o período do ciclo menstrual mais propenso à gestação. Um reflexo disso é a quantidade de grupos no Facebook com a temática de contracepção não-hormonal – o maior deles soma mais de 120 mil membros.


Dispositivo intrauterino (DIU) é alternativa popular à pílula. Foto: Unsplash

Mas a discussão sobre as pílulas anticoncepcionais no Brasil – método utilizado por 58% da população feminina, de acordo com uma pesquisa do Instituto Ipsos – vai além da mera escolha individual sobre seu uso. A ginecologista e obstetra Victoria Relvas pondera que o país enfrenta muitas limitações quanto à oferta de métodos contraceptivos em geral para a população mais pobre, o que torna a questão um problema de saúde pública.


“É difícil a gente conversar sobre a escolha do método ser hormonal ou não, se não se consegue prover a mínima contracepção de larga escala”, disse a médica, lembrando que, no Brasil, quase 70% das gestações não são planejadas.


A falta de acesso à contracepção eficaz e à educação se desdobra em outros problemas. Entre eles, os abortos clandestinos realizados no país – quase 500 mil ao ano, de acordo com a Pesquisa Nacional do Aborto, dos professores Débora Diniz (Universidade de Brasília), Marcelo Medeiros (UnB) e Alberto Madeiro (Universidade Estadual do Piauí).


Outro problema é a baixa adesão dos brasileiros ao preservativo que, além de prevenir a gravidez, também protege contra infecções sexualmente transmissíveis (IST’s). Dados da última Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2020, mostram que apenas 22,8% das pessoas acima de 18 anos no Brasil afirmaram usar preservativo em todas as relações sexuais.

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