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  • Foto do escritorBruna Silva

Estudantes da rede pública tentam reduzir desigualdades através de pré-vestibular social: ‘não estava nem um pouco preparada para o Enem’

Pesquisas revelam que alunos da rede particular tem média de aprendizado 40% maior que a do ensino público.


Educador aponta as principais dificuldades enfrentadas por estudantes da rede pública. Foto: Raquel Gomes

A menos de cinco meses para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), milhares de alunos estão no meio da trajetória de preparação para o vestibular. Mas o caminho não é o mesmo: os obstáculos são bem maiores para quem vem do ensino público.


Dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2021 apontam que, enquanto as escolas estaduais atingiram uma média de 3,9 de 10,0 no aprendizado, as do ensino privado alcançaram 5,6. Foi para tentar nivelar essa disparidade e concorrer de igual para igual no Enem que Leila Araújo, de 19 anos, ingressou no pré-vestibular social RAZÃO1 no início de 2023.


Segundo a estudante, foi durante as aulas no RAZÃO1 que ela percebeu que “não estava nem um pouco preparada para o Enem apenas com os conteúdos vistos na escola.” 


A jovem, que estudou a vida toda na rede pública, avalia que os conteúdos educacionais a que teve acesso foram insuficientes. Hoje tem grande dificuldade para acompanhar o ritmo de outros estudantes da mesma faixa etária, principalmente em exatas e na redação. “No pré-vestibular, as matérias pareciam ser extremamente avançadas e eu tinha a sensação de nunca ter aprendido aquilo”, conta Leila.


O diretor da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Washington dos Santos Cunha, explica que a falta de investimento é uma das principais causas da educação pública ter uma média tão baixa no Ideb. “A educação acaba sempre sendo vista como um gasto e não como um investimento. Esse investimento não é um retorno rápido, mas tem retorno crescente se houver sempre essa política”, afirma Cunha.


Raquel Gomes, de 25 anos, é resultado do investimento em educação da Fundação CECIERJ. Foi através do que aprendeu no pré-vestibular social próximo à sua casa que a jovem realizou o sonho de ser aprovada em Jornalismo na Uerj. Raquel estudou durante toda a vida em escolas públicas e encontrou no projeto social gratuito a ajuda necessária para os exames.


Além das aulas semanais, os profissionais ofereciam monitorias online. “Os professores eram incríveis. Tinha professor que se disponibilizava a falar por telefone para ajudar no que a gente precisasse. Biologia, por exemplo, que é uma matéria muito longa, a professora oferecia um resumo muito eficiente e eu conseguia entender o que ela queria dizer”, relembra.


Para o professor de português da escola pública estadual Angelo Figueiredo, o Brasil está submetido a um projeto de desmonte e descapacitação que enterra as possibilidades dos alunos obterem uma educação adequada. Ele argumenta que a infraestrutura precária das escolas, com carteiras quebradas, falta de ar condicionado e escassez de professores, contribui para a má formação dos alunos da rede pública.


De acordo com Figueiredo, as lacunas no ensino geram a heterogeneidade de perfis sociais vistos entre os universitários. “Apesar do Enem ser a principal porta de entrada para várias universidades e de ser um acesso de democratização ao ensino superior, na maioria das vezes, quem tem mais recursos para pagar cursinhos e aulas específicas acaba se preparando melhor. A parcela pobre, mesmo com as cotas, ainda é uma parcela pequena”, explica o professor.


A experiência de Leila como estudante confirma a afirmação de Figueiredo. “Os alunos de escolas particulares acabam tendo um ensino voltado inteiramente para as provas de vestibulares, enquanto na escola pública, aprendemos o básico e precisamos encontrar alternativas para suprir esse problema”, afirma a jovem.


Além da absorção de novos conteúdos, os estudantes relatam o aprendizado de outras habilidades socioeducativas e o desenvolvimento de seus repertórios culturais graças aos estímulos no pré-vestibular social. “Também foi importante para eu conhecer e entender mais sobre a cidade do Rio de Janeiro, porque eles ofereciam atividades ligadas à cultura. Por exemplo, eu conheci  o museu do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) pela primeira vez por conta do pré-vestibular social”, diz Leila.


Professora de história do Pré-vestibular Social da prefeitura de Nova Iguaçu, Maressa Moratti explica que o projeto enfrenta dificuldades por falta de verba e a instabilidade de repasse da prefeitura. No entanto, de acordo com Moratti, além de manter o ensino de qualidade, é necessário doar apostilas, realizar atividades extracurriculares e oferecer refeições para que estes jovens, a maioria de periferia, consigam absorver o conteúdo. 


“Apesar de fazer dois anos que estamos sem reajuste, conseguimos oferecer estrutura e material adequado para esses estudantes. Gostaríamos de poder oferecer outras atividades para eles, como passeios culturais, mas ainda não é possível”, explica a professora. “Mas recebemos um feedback muito positivo deles, porque a gente sabe que é uma galera que não conseguiria pagar um cursinho e que a gente está ali se dedicando. A maioria que está no projeto passa em algum vestibular”, conclui.

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