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  • Foto do escritorLorrane Mendonça

Lugar de criança não é na internet - muito menos sozinha

Atualizado: 9 de abr.

Menos da metade dos pais supervisiona as atividades digitais dos filhos, revela pesquisa; abandono digital de crianças pode levar à perda do poder familiar


Reprodução: Freepick

O menino X., de 8 oito anos, cresceu em uma família que sempre usou a tecnologia. Desde cedo teve acesso a dispositivos eletrônicos e aprendeu a utilizar as redes sociais. No entanto, sem a supervisão adequada dos pais, acabou explorando o mundo digital sozinho e sem compreender totalmente as consequências. Um episódio preocupante ocorreu quando ele começou a acreditar que estava em um relacionamento romântico com a atriz Jenna Ortega, a Wandinha na série homônima da Netflix. O menino se sentia emocionalmente conectado com ela, pois conseguia conversar diariamente através das redes sociais. No entanto, o garoto não percebia que estava interagindo com um perfil falso e que a pessoa por trás dele era completamente desconhecida.


A descoberta dos pais sobre a atividade online do garoto e seu suposto "relacionamento" com Jenna Ortega foi um grande choque. “Eu fiquei extremamente preocupada quando descobri que meu filho estava conversando com uma pessoa que se passava pela Jenna Ortega, a atriz famosa. Para piorar, ele chegou a acreditar que eles estavam namorando. Senti uma mistura de raiva e medo, e confesso que a vontade de bater nele surgiu, mas respirei fundo e abordei a situação de forma mais calma”, explica Jaqueline Moraes, mãe do menino.


De acordo com o estudo TIC Kids Online Brasil 2022, realizado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), cerca de 96% dos usuários entre 9 e 17 anos utilizam a internet todos os dias ou quase todos, mas apenas 39% dos pais ou responsáveis monitoram as atividades online de seus filhos. Era exatamente o que acontecia na casa de Jaqueline. Ela conta que o filho já comprou comida por delivery usando o seu cartão de crédito que estava cadastrado no celular. “Ele entrou em um aplicativo de comida enquanto o deixei brincando em meu celular. Fez pedidos de hambúrguer e pizza, o pior é que isso aconteceu mais de uma vez”, conta a mãe.


Especialistas têm alertado sobre o chamado abandono digital. Sem acompanhamento, crianças e adolescentes são alvo de predadores sexuais, conteúdos inapropriados e cyberbullying. A mesma pesquisa TIC Kids identificou que cerca de 40% das crianças e adolescentes já se depararam com conteúdos violentos ou pornográficos na internet, e mais de 20% das meninas de 15 a 17 anos já receberam mensagens com teor sexual indesejadas.

Segundo o advogado Filipe Medon, doutorando e mestre em Direito Civil pela Uerj, o tema costuma ser compreendido não pela prática de algo, mas sim pela sua ausência: “A gente entende primeiro que existe um dever dos pais em relação aos filhos de promover a educação digital. Então o abandono digital é o inverso. É quando falta essa educação digital”, explica.


No segundo semestre do ano passado, o Disque 100 recebeu mais de 73 mil denúncias de violação de direitos contra crianças e adolescentes, sendo quase 5.700 violações na esfera virtual. A educação digital permite que os pais ou responsáveis ensinem às crianças e adolescentes formas de se comportar e se prevenir de perigos existentes na internet, além de monitorar suas atividades online. O advogado Medon chama atenção para casos em que os próprios pais não possuem familiaridade com ambientes virtuais, o que dificulta o processo da educação digital. “Por mais que você não saiba, você tem que garantir que aquela criança aprenda e conheça os riscos. Então alerte essa criança dos riscos”, destaca o advogado. Ou seja, uma vez que a criança se encontra online, há a necessidade de estabelecer educação e controle de suas experiências virtuais. Caso não ocorra esses alertas e monitoramento, configura-se, portanto, o abandono digital.


A pesquisa Tic Kids Online Brasil 2022 revela ainda informações preocupantes: só 14% dos jovens relataram ter sido alvo de situações constrangedoras ou de violência para pessoas da mesma faixa etária, 12% compartilharam esses incidentes com seus pais ou responsáveis, e 7% optaram por não confidenciar a ninguém. Além disso, 30% das crianças e adolescentes afirmaram utilizar a internet como forma de apoio emocional ou para conversar sobre suas emoções quando se sentem tristes.


A psicóloga clínica Luíza Miranda, que trabalha com o assunto, diz que é fundamental ter cuiado com os conteúdos consumidos durante toda a infância e adolescência. ”É possível que, em um contexto de ausência ou de pouco de afeto, os sujeitos busquem sim suprir em outras relações suas necessidades afetivas. E isso se aplica às crianças, que têm necessidade de afeto e cuidado.”


Riscos e consequências


Sem o controle e o monitoramento dos pais as crianças se tornam suscetíveis aos danos que podem tanto sofrer quanto causar na internet. Para Medon, há o risco dessas crianças e adolescentes promoverem bullying e ofensas por estarem sem a supervisão adequada, assim como também estão expostos ao próprio bullying, cyberbullying, a pedófilos e a demais perigos encontrados na internet: “Então, no fundo, o abandono digital tem essas consequências, de que você acaba deixando a criança suscetível a esse tipo de de conduta”, alerta.


O advogado ressalta que não há uma definição expressa na lei sobre o que é o abandono digital, e por isso não há sanções ou consequências predeterminadas. No entanto, as discussões acerca do tema passam pelo Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA e também pela Lei 12.965/2014, conhecida como Marco Civil da Internet, que garante responsabilizar os usuários de acordo com suas práticas no ambiente digital. Diante disso, o advogado afirma que, por não ter uma definição legal, e consequentemente não haver sanções legais predeterminadas, geralmente se utilizam de algumas analogias para definir possíveis consequências aos pais pelo abandono digital.


Segundo Medon, em casos extremamente graves, pode haver a suspensão e perda do poder familiar, que consiste no conjunto de direitos e deveres dos pais em relação à educação e proteção de seus filhos: “Você tira a guarda daquele pai, deixa de ter a guarda daquela criança, daquele adolescente, por conta dessa perda ou suspensão do poder familiar”, esclarece.


Prevenção


Mãe de duas crianças, uma de dez e outra de quatro anos de idade, Patrícia Mazala destaca algumas estratégias que utiliza para monitorar as experiências virtuais de seus filhos: “Eu uso o Google Family. O aplicativo restringe e bloqueia o acesso das crianças a conteúdos não permitidos para suas idades. Ambos não possuem e-mails, logo tudo o que eles acessam é através do meu email. Se por um acaso minha filha tira uma foto de seu celular eu recebo na hora”, declara.


Já Luciere Pires, mãe de uma menina de seis anos, utiliza uma estratégia parecida. Ela afirma que sua filha consome mais vídeos pelo celular, por isso deixou instalado a versão do YouTube Kids no celular dela. Segundo a própria empresa, o YouTube Kids foi criado com o objetivo de “oferecer às crianças um ambiente controlado onde elas podem sozinhas explorar conteúdos de maneira mais fácil e divertida.” Além disso, a plataforma possibilita que os pais e responsáveis direcionem os conteúdos que serão apresentados.

Luciere ainda afirma que, pelos compromissos e tarefas do dia a dia, muitas vezes não consegue estar perto de sua filha para monitorar suas atividades online. “Por isso só a deixo ao alcance de aplicativos infantis.”


A psicóloga Miranda aconselha estimular atividades presenciais e reforçar relações familiares para que se estabeleça um vínculo familiar seguro e confiável, de modo que faça com que as crianças ou adolescentes deixem de recorrer à internet em busca de apoio ou companhia.


Campanha de conscientização


Como forma de conscientização, o publicitário Brunno Barbosa, da agência Mr. Da Vinci, lançou uma campanha em parceria com a ONG Bandeiras Brancas para promover o combate ao abandono digital. O projeto discute a falta de controle parental e a violência nas escolas. Com a crescente incidência de ataques escolares no Brasil e no mundo, a campanha tem uma abordagem global e visa alertar a importância da prevenção desses problemas que afetam a sociedade como um todo.


O destaque principal da campanha é um curta-metragem de dois minutos, “Amor não Se Programa”, que expõe as consequências graves do abandono digital e da falta de supervisão dos pais na vida dos jovens e adolescentes. O vídeo chama atenção para casos em que crianças recorrem à internet para solucionar suas curiosidades e problemas pessoais devido a falta de atenção dos pais, começando com pesquisas como “Por que a água do mar é salgada?” até chegar a casos mais graves de perguntas como “Por que mamãe não me dá atenção?”.


O vídeo ainda aborda a violência e o bullying nas escolas, e mostra como o abandono digital pode ser perigoso pela possibilidade da criança buscar na internet uma forma de refúgio e resposta - obtendo, por exemplo, informações sobre como utilizar armas ou outras formas de violência. A campanha busca conscientizar a população sobre a importância de combater o abandono digital, ressaltando que o carinho e cuidado devem vir dos pais, e não do algoritmo.

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