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  • Foto do escritorGabriel Segantini

Lugar de mulher também é nos gramados

Atualizado: 3 de mai.

Copa do Mundo de futebol feminino explicita desigualdades, mas também inspira novas gerações de garotas que querem praticar o esporte



Em 17 de maio de 1940, no recém-inaugurado estádio do Pacaembu, os torcedores se prepararam para assistir ao amistoso entre os times masculinos de futebol São Paulo e Flamengo. Mas aquela noite teve uma novidade, como registraram os jornais da época: uma outra partida, disputada entre o Sport Clube Brasileiro e o Casino de Realengo, dois clubes do subúrbio carioca. E, pela primeira vez, ambas as equipes eram inteiramente formadas por mulheres. Foi o primeiro jogo de futebol feminino disputado no Brasil, vencido pelo Sport Clube Brasileiro e visto por uma plateia de 65 mil pessoas.


Mulheres com bolas nos pés não eram consideradas jogadoras, mas vistas como “artistas performáticas”: anúncio do Espetáculo do futebol feminino | Reprodução: Acervo Museu do Futebol
Capa do jornal de São Paulo sobre a primeira partida de futebol feminino da história do país. Foto: Reprodução/Peleja

“Conseguirá firmar-se no nosso país o futebol feminino?”, indagou o jornal Correio Paulistano. Não seria fácil. A modalidade foi criticada por torcedores, dirigentes e meios de comunicação, por ser considerada “uma prática antinatural”, que afetava o equilíbrio psicológico das funções orgânicas das mulheres, atrapalhando a maternidade, essa sim, algo visto como natural. Em 1941, o então presidente Getúlio Vargas assinou o decreto 3.199, proibindo o futebol feminino no país: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país.”


Jornal no museu do futebol em São Paulo | Foto: arquivo
Repercussão da proibição das mulheres de jogarem futebol | Reprodução: Peleja

A proibição só caiu em 1979 - 38 anos depois. Mas a prática só foi regulamentada em 1983, com a criação de clubes, utilização de estádios, criação de calendários de jogos oficiais e o surgimento dos primeiros times de futebol feminino profissional. O professor da Uerj Filipe Mostaro, especialista em comunicação com ênfase em jornalismo esportivo, esclarece que as mulheres sempre praticaram a modalidade, mas a tentativa incessante de invisibilizar tudo que elas faziam nos gramados foi determinante para trilhar os rumos do desenvolvimento do futebol feminino.


“É fundamental para a gente analisar um conceito da antropologia chamado frame, que diz que em determinada situação social as pessoas terão papéis previamente estipulados e, com isso, vai se esperar o cumprimento dessa função social. E para reforçar esse frame, qual seria o papel da mulher dentro do futebol? Socialmente, a mulher que jogasse futebol seria vista com péssimos olhos e, legalmente, seria proibida de praticar tal ato. Assim,esse silenciamento; essa proibição, impacta diretamente no desenvolvimento da modalidade, pois a mulher que gostaria de praticar o esporte vai ser inibida tanto socialmente quanto pela lei. Historicamente, irá demorar muito para recuperar o progresso em relação aos homens”, avalia.


A proibição, a tardia regulamentação e a desaprovação da sociedade em relação ao futebol feminino fizeram com que a modalidade demorasse a ter visibilidade e apoio de grandes times. O Campeonato Brasileiro feminino só teve sua primeira edição em 2013, 42 anos após a primeira edição masculina. E só em 2019, após determinação da CBF, os clubes nacionais começaram a se movimentar para montar seus times femininos. E só 58 anos depois do primeiro torneio de seleções masculinas da Fifa surgiu o feminino, disputado na China e chamado de Women's Invitational Tournament - mas os uniformes das mulheres eram sobras das roupas dos homens.


Até hoje o preconceito está presente nas histórias de garotas que querem jogar futebol. Maria Luísa Suruagy, estudante de direito da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), desde sempre foi apaixonada pelo futebol, principalmente pelo Botafogo de Futebol e Regatas. Seu sonho era jogar futebol profissionalmente. Sem estímulo nem apoio, recorreu a um primo para aprender os fundamentos do esporte.


“Meu primo sempre foi federado no futebol, então eu o acompanhava nos jogos e treinos. Como eu já era louca pelo Botafogo, o futebol entrou na minha vida muito rápido. Implorei pro meu pai me matricular em alguma escolinha de futsal, mas não encontrei nenhuma. Tive de pedir para o meu primo me ensinar o básico, como: passe, condução e finalização e só depois disso consegui praticar futebol, mas não o feminino. Eu jogava em uma escolinha só de garotos a minha infância inteira. Foi muito difícil”, contou a estudante.

Manuela Rocha, vestibulanda de 17 anos, já jogou pelo Clube de Regatas do Flamengo e pela escolinha do Paris Saint-Germain no Brasil. Disputou partidas dentro do estádio Parc des Princes, na França, e ainda sonha em ser jogadora profissional. Mas conta que sofreu para começar. “É muito legal, pois sei que nem todas as garotas têm essa sorte. No começo foi muito difícil. Só podia jogar com os garotos e sempre era excluída ou a última a ser escolhida. Muitas pessoas falaram para eu desistir, porque era muito difícil pela falta de incentivo para jogar, pois havia poucas escolinhas e campeonatos. Mas sei que está mudando.”


Em março deste ano, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, ao lado da ministra dos Esportes, Ana Moser, assinou o decreto que criou a Estratégia Nacional para o Futebol Feminino. O projeto consiste em apresentar as diretrizes para o pleno exercício do direito constitucional ao esporte para as mulheres, prevendo a promoção do desenvolvimento do futebol feminino amador e profissional, com mais investimentos e foco em proporcionar a descoberta de novos talentos. Entre as medidas anunciadas estão a instalação de centros de treinamento específicos, com metodologia de aprendizado e diretrizes pedagógicas específicas adaptadas às necessidades de meninas e mulheres para a prática do futebol.


Para o professor Mostaro, medidas como essa mostram que a modalidade já está se desvencilhando das cicatrizes de décadas atrás. E a Copa do Mundo Feminina, que acontece em julho, é uma ótima oportunidade para divulgar ainda mais o esporte. “A ministra solicitou ao Lula que declarasse ponto facultativo em dias de jogos da seleção brasileira na Copa do Mundo. Isso é um elemento-chave, pois foi assim que a seleção masculina começou a ser incorporada como uma representante da nação, pois a Copa do Mundo para o país inteiro. É um passo fundamental para as pessoas entenderem que vamos parar para ver as meninas assim como nós paramos para ver os meninos”, completou o professor.


Seleção feminina perfilada para o jogo da última Copa do Mundo, em 2019, disputada na França | Reprodução: Getty Images

Os números mostram que o Mundial feminino não possui a mesma estrutura e preparação que a competição masculina. Um levantamento do Insper revelou que o Qatar investiu US$10 bilhões com infraestrutura de estádios, para o Mundial de seleções em 2022. No entanto, os países da Copa do Mundo Feminina deste ano estimam um gasto de pouco mais de US$27 milhões nas instalações.


A atacante brasileira Marta, maior artilheira em Copas do Mundo entre homens e mulheres, com 17 gols, tem usado chuteiras pretas para defender a igualdade de gênero no esporte. E, para atletas de novas gerações, como Maria Luiza, ela é a camisa dez que vira inspiração: “Sempre me perguntam meu jogador favorito e eu sempre respondo que é a Marta. Meu sonho é ser igual a ela, ou a Andressa Alves, ou ser a nova Formiga. Não preciso me inspirar no Neymar, se cada vez mais tenho exemplos de mulheres fortes vestindo a camisa da seleção brasileira.”

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