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  • Foto do escritorCarol Medon

Mônica, de coadjuvante briguenta a protagonista empoderada

Atualizado: 13 de abr.

Personagem foi se transformando ao longo de seus 60 anos


Reprodução: Maurício de Souza Produções

Em uma brincadeira de “Toc Toc, Quem é?”, se a dica for “gordinha, baixinha, dentuça”, a resposta será unânime: Mônica. A personagem de Maurício de Sousa pode até ser conhecida pela frase típica de Cebolinha, seu implicante amigo, mas foi a personalidade forte que a consagrou. Esse ano, Mônica celebra seus 60 anos inspirando gerações de meninas a serem fortes e não levarem desaforo para casa. Mônica não nasceu por acidente e sua história começou entrelaçada com o poder feminino. Ela foi criada porque o público começou a pressionar o cartunista Maurício de Sousa, que já fazia sucesso com seus quadrinhos, para que as histórias também tivessem meninas.


A inspiração para criação da personagem veio de sua filha, Mônica Sousa, que na época tinha dois anos, mas já era “bravinha” e não desgrudava de seu coelho de pelúcia. Então, atendendo aos pedidos, em 1963, no jornal Folha da Manhã, a Dona da Rua apareceu pela primeira vez. E, apesar de dar o nome à Turma, sua primeira participação foi como coadjuvante das aventuras de Cebolinha. Mas não demorou muito para que a menina do vestido vermelho conquistasse os leitores e se tornasse a protagonista. Mônica ganhou gibis, revistas, parques, filmes, séries e o coração de milhares de brasileiros.


Mônica é conhecida por ser gorducha, dentuça e baixinha. Tem um coelho chamado Sansão. É forte, tem muitos amigos, é uma líder nata e é a dona da turminha. Mas essa é outra Mônica, que na verdade comanda muitas turminhas por aí, ensinando matemática. Mônica FErraro, a Moniquinha, diz que sempre a acharam parecida com a personagem. Era baixinha, de dentes dentes grandes, e, com o tempo, ganhou alguns quilinhos. Seu primeiro aniversário teve a turma das revistinhas como tema. E o Sansão de pelúcia foi um presente de quando era criança.


Foto: Arquivo pessoal

Apesar de todo o estereótipo poder ser negativo e se tornar motivo de bullying, para Moniquinha, ser parecida com a personagem sempre foi uma qualidade além da aparência. “Eu sou brigona, mas me sinto igual a ela: poderosa, forte. Sou a dona do clubinho. Acho que o dente e as características físicas não me incomodaram porque primeiro vinham as qualidades. Ela (a personagem) era sempre amiga, sempre defendia a turminha, era forte, líder. Então, eu sou a Mônica.”


Para Moniquinha foi positivo, mas nem sempre é o que acontece. A professora de filosofia Júlia Casamasso, estudiosa da Teoria Feminista, aponta que depreciar mulheres principalmente por características ligadas à sua aparência e à sua personalidade é um hábito comum na sociedade patriarcal que foi refletido nos quadrinhos e tem sérias consequências psicológicas. Nesses 60 anos que separam a primeira participação da Mônica dos dias de hoje, muitos direitos foram conquistados pelas mulheres e mudanças foram acontecendo gradativamente, na vida real e na ficção. Cebolinha parou de fazer “brincadeiras”, que podem ser, na verdade, ofensas. Mônica, que era conhecida por bater nos seus amigos, principalmente usando Sansão, o coelhinho e fiel escudeiro, parou de usar a violência.


Em entrevista à Veja em Março deste ano, Maurício de Sousa falou da necessidade de adequar as histórias às vitórias conquistadas pelas mulheres. “Mônica pode até rodar o coelhinho, mas há anos não aparece batendo nos amigos”, comentou o cartunista. Júlia explica a necessidade dessa mudança: “É incrível que tenha um lugar de protagonismo feminino, mas não pode ser um protagonismo que ganha através da força (física) e da violência. Porque aí estamos reproduzindo os mesmos estereótipos.” Para a professora, é importante conquistar o lugar de destaque, mas estar atento para romper com a lógica do patriarcado. “Não adianta colocar as mulheres nesse lugar de protagonismo e continuar reproduzindo as lógicas de misoginia, a chamando de brava e fazendo bullying com ela.”


De coadjuvante que briga à protagonista que empodera, a personagem Monica lidera hoje um projeto em parceria com a ONU Mulheres. “Donas da Rua” homenageia mulheres importantes de diversas áreas do conhecimento, trazendo a história de cada uma delas para o mundo animado da turminha. Seu objetivo é mostrar que toda menina pode sonhar alto e alcançar seus objetivos. “Seja sua própria heroína” é o slogan da campanha, que se aproxima dos leitores pelas redes sociais e pelo site, mostrando mais uma vez a importância social da personagem. Essa não é a sua única participação em grandes projetos. Mônica é embaixadora do UNICEF no Brasil desde 2007. Ela e a sua turma abordam temas importantes como vacinação, intolerância religiosa e Direitos das Crianças (CDC) por meio das próprias revistas, cartilhas e desenhos animados.


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