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  • Foto do escritorHiago Soares

Na feijoada de São Jorge, histórias de fé, tradição e sincretismo religioso

Atualizado: 25 de mai.

Devoção ao santo guerreiro gera união entre as pessoas e conexão com a espiritualidade


Tarde de 23 de abril de 2023, feriado de São Jorge na cidade do Rio de Janeiro. Rosângela Lima, de 45 anos, devota do santo guerreiro, havia se sentado para almoçar a feijoada preparada em homenagem ao santo quando recebeu a notícia que daria novo sentido à sua vida. Seu neto Rony, filho da sua caçula, havia nascido naquele momento. 


Para Rosângela, cuidadora de crianças, a chegada do recém-nascido significou algo além de se tornar avó, foi uma confirmação de fé. Ela conta que, após descobrir a gravidez da filha, fez dois pedidos a São Jorge: que o bebê fosse um menino e que nascesse no mesmo dia da santidade. “Eu queria muito ter um filho, mas acabei sendo mãe de duas meninas. Então, prometi ao Santo que, caso atendesse meu pedido, iria preparar uma feijoada especial a partir daquela data, enquanto estivesse viva”, explica. 


Este ano, Rosângela cumpriu a promessa. Os preparativos iniciaram-se no começo de abril: “Deixei tudo comprado, cortado e congelado no freezer. Eu estava com insônia, sem dormir, e ansiosa”. Ela também celebraria o aniversário do neto. “Fiz uma mesa de bolo para o Rony. Eu havia convencido minha filha a realizar a festa dele na semana seguinte devido à feijoada”, ela informa. 


Os fiéis costumam considerar São Jorge como uma figura de admiração e proteção, a quem recorrem em momentos importantes de suas vidas. O compromisso da feijoada é um dos muitos exemplos pelos quais os brasileiros expressam a gratidão ao santo. Além disso, a comida tem relação com a cultura nacional, por estar associada à união de pessoas e à celebração. 


Não existe idade para fazer a feijoada


Na mais recente comemoração de São Jorge, o estudante Vinicios Ribeiro, de 18 anos, realizou sua quinta feijoada com a presença de amigos, vizinhos e familiares. De acordo com ele, a vontade de preparar a comida surgiu após ter sido inspirado pelo ato de outras pessoas. “Eu costumava ver as pessoas fazendo seus eventos e decidi organizar o meu próprio. Tudo começou de maneira pequena em 2020, a minha avó ainda fazia a feijoada”, comenta. 


A tradição do jovem tornou-se mais conhecida a cada ano, entre os moradores do seu condomínio. Em 2024, Vinicios contou que haveria a presença de 20 pessoas a mais no dia 23 de abril do que em comparação ao ano passado. Segundo ele, o segredo da popularidade da feijoada está na intenção de quem cozinha o alimento: “Uma feijoada saborosa precisa mais do que tempero. É necessário o amor, a fé e a dedicação”. 


Umbandista, Vinicios afirma ter uma conexão especial com o santo católico: “Minha relação com ele é baseada em afeto, eu costumo falar que é o amor da minha vida. Me considero muito devoto e todo mundo que me conhece sabe. Tenho capa de celular, anel, cordão, pulseira, blusa. Tudo o que imaginar de São Jorge, eu tenho”. O carinho do jovem pela santidade revela o cruzamento entre as tradições afro-brasileiras e do catolicismo, pois Jorge é associado a Ogum, orixá das religiões umbanda e candomblé. 


Diferentes manifestações de fé em São Jorge 


Além da feijoada, existem outras maneiras de celebração no dia de São Jorge. Uma delas é a visita em igrejas e capelas que cultuam o santo pelo Rio de Janeiro. Após o fim da pandemia da Covid-19, que impossibilitou as festividades em 2020, 2021 e 2022, os fiéis retomaram a tradição de se reunir para a alvorada de fogos às cinco da manhã. O espetáculo de cores e sons sempre marca o início das programações. Logo após, os devotos comparecem às missas e às procissões, que se estendem ao longo do dia. 


É localizada em Quintino Bocaiúva, bairro na Zona Norte da cidade carioca, a paróquia de São Jorge que mais atrai os devotos de São Jorge. Normalmente, o local recebe mais de 1 milhão de pessoas e neste ano não foi diferente. Há uma ampla diversidade entre os devotos da santidade. Um exemplo é que desde agentes de segurança do Rio até criminosos da região, recorrem à sua proteção contra os perigos que enfrentam em seus respectivos serviços.


A estudante de jornalismo Lorrane Mendonça, de 21 anos, se diz encantada pelo santo guerreiro e participa das atividades relacionadas a ele: “Tenho um segmento católico desde a minha infância. Eu morava na Penha e lá tem um segmento muito forte de devoção entre o público. Hoje em dia eu não vou mais à igreja, exceto no dia 23 de abril, pois participo da missa em Queimados e da queima de fogos”. 


“São Jorge é um dos santos mais queridos do Rio de Janeiro, ele tem essa ambiguidade de públicos, diversos grupos sociais comemoram o seu dia. Quando você vai às missas, sempre tem padês (cerimônia candomblecista que honra Exu). Essa é a forma das pessoas celebrarem o santo em suas vivências”, completa Lorrane. 


Em 2019, após uma sanção do então governador Wilson Witzel, São Jorge se tornou padroeiro oficial do Estado do Rio de Janeiro, assim como São Sebastião. O projeto de lei foi elaborado pelos ex-deputados André Ceciliano e Gustavo Schmidt. No ano passado, o Plenário do Supremo Tribunal Federal tornou constitucional a lei que institui o dia 23 de abril como feriado estadual.  


São Jorge na telinha dos cinemas 


Estreou no dia 18 de abril nos cinemas brasileiros o filme nacional “Jorge da Capadócia”. A obra cinematográfica, dirigida, produzida e estrelada por Alexandre Machafer, retrata os desafios vividos por São Jorge no equilíbrio das batalhas e sua fé.  


Cinéfilo e jornalista, Bruno Rocha acredita que o lançamento do filme é importante para as pessoas conhecerem mais sobre o santo: “Quanto mais a gente não está por dentro de alguma coisa, mais difícil é o respeito e a compreensão. Acho essencial, pois é uma tentativa de aumentar a tolerância sobre a fé alheia”.


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