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  • Foto do escritorRafaela Antico

Nas ondas da controvérsia

Atualizado: 6 de jun.

Torre de alumínio construída para abrigar juízes de surfe nas Olimpíadas de 2024 pode contaminar a água e prejudicar a pesca


Torre de alumínio localizada em Teahupoo, na Polinésia Francesa
Esquema da torre de alumínio para o surfe nas Olimpíadas de Paris 2024. Foto: Reprodução / Créditos Paris 2024

A construção de uma torre de alumínio em Teahupoo, na Polinésia Francesa, planejada pelo Comitê Organizador das Olimpíadas de Paris, gerou polêmica entre atletas, dirigentes e ambientalistas. A estrutura, que será utilizada para as competições de surfe em julho de 2024, pode prejudicar o ecossistema marinho e a comunidade do local. 


Teahupoo, conhecido por receber campeonatos da Liga Mundial de Surf (WSL), tradicionalmente utiliza uma torre de julgamento de madeira, montada pouco antes dos eventos e desmontada após a competição. Por causa da distância das ondas, a torre é construída no meio do oceano para que os jurados acompanhem os surfistas de perto.  


No entanto, para os jogos de Paris, o Comitê Olímpico Internacional exigiu uma estrutura maior e mais complexa, com especificações mais rigorosas, incluindo acomodações para mais pessoas, padrões de segurança aprimorados, salas climatizadas para os jurados, fornecimento de água encanada e eletricidade, além de cabos de internet de alta velocidade.


Ao contrário da torre desmontável utilizada nos eventos da WSL, a proposta para as Olimpíadas é uma estrutura de alumínio permanente, que será deixada como "legado" para competições futuras. 


O Rampas conversou com a bióloga Camila Castilho, professora do departamento de Biologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), que destacou a ameaça representada pela corrosão da estrutura de alumínio tanto para o meio ambiente quanto para a comunidade local: “Os detritos de alumínio resultam na contaminação da água, afetando diretamente os organismos marinhos que ali habitam e comprometendo a integridade da cadeia alimentar. A população que depende da pesca como fonte de alimentação corre o risco de ter intoxicação alimentar”, explicou. A professora afirmou que ainda é cedo para avaliar completamente como o palanque pode afetar o ecossistema e a comunidade local que dele depende. 


Construção foi contestada, mas em vão


Uma petição com mais de 233 mil assinaturas pedindo a suspensão das obras foi divulgada pelos surfistas brasileiros Filipe Toledo e João Chianca, já classificados para as Olimpíadas de 2024. O fotógrafo de surf australiano Tim McKenna, conhecido por seu extenso trabalho documentando a região de Teahupoo ao longo dos anos, divulgou uma filmagem aérea da torre recém-construída. McKenna compartilhou suas observações sobre a nova estrutura em suas redes sociais.


Na legenda da publicação, ele afirma: “A nova torre está erguida. A onda está tão perfeita como sempre esteve. O coral sofreu danos mínimos depois que um canal foi marcado na lagoa para que os barcos de construção pudessem acessar facilmente. Levará algum tempo para ver se a Ciguatera [intoxicação alimentar que ocorre após o consumo de peixes contaminados por toxinas produzidas por certas espécies de algas marinhas] aumentou drasticamente em certos peixes que vivem nessa área específica da lagoa. Enquanto isso, a construção de alumínio parece muito elegante e foi montada mais rápido do que o esperado”. 


“O Taiti agora possui uma torre de julgamento de última geração para os próximos 20 anos de eventos de surf na #endoftheroad. Ainda será desmontada e reconstruída todos os anos, como a anterior. A vila de Teahupoo e toda a população estão prontas para torcer pelos surfistas locais Vahine Fierro e Kauli Vaast para conquistar o ouro neste julho em @paris2024.”


Publicação no Instagram do fotógrafo Tim Mckenna com foto de Teahupoo
Fonte: Instagram

Nos comentários do post, porém, a discussão continua acalorada. Internautas questionam se o impacto ambiental foi realmente mínimo, como afirma McKenna. Alguns moradores locais relatam destruição de corais durante a obra.“Mínimo?! Fui perseguido pela guarda francesa quando os caras estavam destruindo corais com uma britadeira… Eu realmente espero que não haja nenhuma consequência!”, contestou um seguidor.


O próprio Tim McKenna tentou defender seu ponto de vista nos comentários. “Comparei isso ao que acontece repentinamente com os corais com o retorno das taramea [uma espécie de ouriço-do-mar] ou o branqueamento devido ao aquecimento global?”, disse McKenna sugerindo que, em comparação com esses eventos naturais prejudiciais, os danos causados pela construção da torre podem ser percebidos como mínimos.


A Associação Internacional de Surfe (ISA, em inglês) enviou ao comitê organizador das Olimpíadas de Paris 2024 e ao governo polinésio uma proposta alternativa à construção da torre. Diante das críticas ao projeto, a entidade defendeu que a competição fosse julgada com base em imagens ao vivo captadas da terra, do mar e do ar, utilizando drones. Mesmo diante da proposta, o comitê olímpico manteve a ideia inicial de construir a torre de alumínio


O que a população local diz


O surfista taitiano Matahi Drollet pressionou a organização dos Jogos Olímpicos de 2024 por meio de vídeos nas redes sociais. Matahi acusou a organização de ter falsificado uma avaliação ambiental para construir a torre para os juízes, orçada em 4.6 milhões de euros (cerca de R$ 25 milhões de reais).


O atleta taitiano liderou um movimento contra a perfuração da bancada de corais e uso de oleodutos submarinos. O grupo polinésio pediu que a organização usasse a tradicional torre de madeira construída pela WSL há mais de 20 anos, mas não obteve sucesso.




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