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O dilema entre inovação e sustentabilidade na era digital

Enquanto o descarte de eletrônicos cresce, infraestruturas tecnológicas consomem energia em níveis alarmantes


Uma planta pequena nascendo entre as teclas de um teclado de laptop.
Alto consumo de energia em data centers e descarte de eletrônicos são parte do custo da inovação tecnológica. Foto: Adobe Stock

A revolução digital, impulsionada por centros de dados e dispositivos eletrônicos, gera uma montanha de lixo que ameaça o planeta. Em 2022, o mundo produziu 53,6 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos, o suficiente para dar a volta na Linha do Equador com caminhões de 40 toneladas, segundo o Monitor Global de E-lixo de 2024 do Instituto das Nações Unidas para Formação e Pesquisa (Unitar). 


O setor de tecnologia, enquanto avança em inovação, enfrenta o desafio urgente de conciliar progresso com sustentabilidade ambiental. A explosão do uso de tecnologias digitais — de redes sociais a inteligência artificial (IA) — exige uma infraestrutura tecnológica cada vez maior, com efeitos ambientais expressivos. A pesquisa do Unitar revela um aumento alarmante de 82% na geração de lixo eletrônico entre 2010 e 2022.


O relatório mostra que a geração de e-lixo está aumentando em 2,6 milhões de toneladas por ano. A projeção para 2030 não é menos preocupante, com uma estimativa de alcançar 82 milhões de toneladas. Apesar desses números, apenas uma fração dos resíduos é reciclada de maneira adequada: aproximadamente 20%, deixando um vasto potencial de recuperação de materiais valiosos, como metais raros e preciosos, inexplorado.


De acordo com o Monitor Global, o Brasil é o maior gerador de lixo eletrônico na América do Sul e o quinto no mundo, descartando 2,4 bilhões de quilos de material eletroeletrônico por ano, um aumento de 15% desde a pesquisa anterior, de 2020. Apenas 770 milhões de quilos são devidamente reciclados, o que corresponde a 3,6% do total. O impacto do descarte inadequado de eletrônicos se estende além do acúmulo de lixo. Substâncias perigosas, como mercúrio e chumbo, encontradas em muitos dispositivos, podem contaminar o solo e as águas subterrâneas, apresentando riscos à saúde humana e ao meio ambiente. 


A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) do Brasil e iniciativas semelhantes globalmente visam mitigar esses efeitos por meio da regulamentação do descarte e promoção da reciclagem, mas a implementação efetiva ainda enfrenta obstáculos significativos, incluindo falta de infraestrutura e conscientização pública insuficiente.


O consumo de recursos nos centros de processamento de dados, os data centers — instalações que abrigam servidores e equipamentos de rede, essenciais para armazenar, processar e distribuir dados que alimentam a internet e diversos serviços digitais —, é outro ponto crítico. Em 2023, o consumo de energia dessas instalações foi comparável ao de pequenas nações, com uma tendência de aumento constante, além da necessidade de uma grande quantidade de água para resfriamento. O Relatório Ambiental de 2023 do Google mostra que a empresa utilizou 21 bilhões de litros de água em 2022, uma ampliação de 20% em relação ao ano anterior ligado aos investimentos crescentes no campo da inteligência artificial.


Descarte responsável de eletrônicos: um imperativo ambiental


Lixo eletrônico, como celulares, placas digitais, aparelhos de som antigos e telefones inutilizados largados em uma pilha de lixo.
Lixo eletrônico aumenta em 2,6 milhões de toneladas anualmente no mundo. Foto: Freepik

Ana Cristina Moreira, engenheira química, professora adjunta no Departamento de Materiais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e especialista em engenharia de materiais e sustentabilidade, destaca os desafios enfrentados pela indústria eletroeletrônica, desde a produção até o descarte. “O desenvolvimento sustentável precisa atender às necessidades do presente sem comprometer as futuras gerações”, explica Moreira, citando o relatório “Nosso Futuro Comum” de 1987, um documento da Comissão Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD) da Organização das Nações Unidas (ONU) que define a ideia de desenvolvimento sustentável. Segundo ela, a sustentabilidade deve abranger um equilíbrio entre ambiente, economia e sociedade. 


Moreira aponta que, de forma geral, os equipamentos eletroeletrônicos utilizam materiais obtidos de fontes não renováveis, como polímeros, metais e cerâmicos (semicondutores), todos extraídos da natureza por meio da extração de petróleo e mineração, sem uma tendência de mudança nesse cenário. “Ao final da vida útil do aparelho, quando se torna um resíduo de equipamento eletroeletrônico (REEE), ele costuma ser mantido nas residências por longos prazos", diz a especialista.


Apesar da existência de leis como a PNRS, que incentiva a reciclagem de resíduos eletrônicos através de acordos setoriais, a realidade ainda é preocupante, segundo a pesquisadora: “A cada ano, o volume global de resíduo eletrônico aumenta cerca de 4%, mas menos de 20% deste total é reciclado”. Ela cita dados da pesquisa realizada em 2023 pela Green Eletron, entidade ambiental especializada em operacionalizar a logística reversa de eletrônicos, que avalia a percepção dos brasileiros sobre o e-lixo. O estudo também mostra que quase nove entre 10 pessoas costumam guardar algum tipo de lixo eletrônico em casa, com 40% mantendo o item por mais de um ano. Moreira sugere que a solução passa não apenas pela melhoria das tecnologias de reciclagem, mas também pelo design de produtos pensados para um ciclo de vida mais sustentável.


Homem carrega televisão antiga em um lixão de eletrônicos, em meio a dezenas de outras televisões antigas amontoadas no chão.
Lixo eletrônico de 2022 preencheria 1,5 milhão de caminhões de 40 toneladas. Foto: Maruf Rahman/Pixabay

Frederico Salmi, pesquisador e sociólogo membro do grupo de pesquisa Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade (TEMAS), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), traz uma perspectiva crítica sobre a abordagem tradicional da indústria tecnológica, que se concentra na produção e consumo sem considerar adequadamente o pós-consumo. Ele explica que, desde os primórdios, a tecnologia tem sido uma extensão do ser humano. 


No entanto, no contexto da tecnologia digital, especialmente em relação ao descarte, ele observa que o processo é uma forma de externalizar aquilo que o capitalismo não deseja lidar: “A gestão de resíduos começa a ser mais demandada porque no passado o capitalismo tecnológico colocava a tecnologia à disposição, mas somente na lógica de consumo. Todos os efeitos de pós-consumo imediato da compra daquela televisão, da compra daquele smartphone, você descarta. Isso não é mais problema de quem produz a tecnologia e vende. Ou seja, você tem uma externalidade dos efeitos negativos ao capitalismo”.


Ana Cristina Moreira ressalta que a questão do descarte tecnológico exige uma abordagem mais rigorosa por parte das políticas públicas, sugerindo que é necessário ampliar o conhecimento da população sobre a legislação referente a resíduos sólidos. Ela acredita que a criação de sistemas de gerenciamento desses resíduos é fundamental para gerar e analisar dados de forma eficaz. O lixo, seja comum ou eletrônico, é gerado de forma descentralizada e sem rastreabilidade adequada, segundo a especialista, o que impede a elaboração de políticas públicas eficazes. 


De acordo com a legislação federal, o lixo eletrônico deve ser coletado pelo sistema de logística reversa, conforme definido no artigo 33 da PNRS. Moreira enfatiza que o gerador desse tipo de resíduo precisa buscar o local adequado para sua destinação, enquanto a logística de transporte e tratamento final fica sob a responsabilidade do fabricante ou do agente nacional definido em acordos coletivos, como é o caso da Green Eletron para resíduos de equipamentos eletroeletrônicos.


A Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos (Abree), entidade sem fins lucrativos, disponibiliza um serviço em seu site que permite localizar o ponto de coleta de lixo eletrônico mais próximo. É possível realizar a busca com o CEP e o tipo de produto a ser descartado.


Desafios de consumo e sustentabilidade em centros de dados


Um corredor bem iluminado e de cores claras cercado por super computadores que compõem o data center.
O consumo de eletricidade em data centers, que representou 2% do total global em 2022 (460 TWh), pode dobrar até 2026, chegando a 1.050 TWh no pior cenário, de acordo com a IEA. Foto: Canva

Os centros de processamento de dados são pilares fundamentais do mundo digital, sustentando desde pequenas startups até grandes conglomerados tecnológicos. No entanto, essas infraestruturas são também grandes consumidoras de energia, o que representa um desafio em termos de sustentabilidade ambiental. Moreira observa uma inclinação a adotar soluções tecnológicas que promovam maior eficiência energética: “É possível verificar uma tendência na busca por soluções tecnológicas de maior eficiência energética, através de desenvolvimento de materiais, em conjunto com a ampliação de matrizes elétricas de fontes renováveis”. 


Ela cita dados recentes do Anuário Estatístico de Energia Elétrica 2024, do Ministério de Minas e Energia (MME), que mostram um aumento na capacidade de geração de eletricidade inserida no Brasil — o destaque é a energia solar, que teve um crescimento de 54,8% em potência instalada de 2022 para 2023.


Segundo o relatório anual da Agência Internacional de Energia (IEA), o consumo de eletricidade em data centers, que já representou 2% do total global em 2022, pode dobrar até 2026. O aumento da demanda por IAs e mineração de criptomoedas, atividades que exigem alto poder computacional, é apontado como principal causa. A IEA alerta para a necessidade de regulamentações e avanços tecnológicos para conter esse aumento, que pode chegar a consumir o equivalente ao total de energia de um país como a Alemanha.


Frederico Salmi oferece uma visão crítica sobre como a tecnologia e o consumo de energia nos data centers são frequentemente “invisibilizados” em discussões sobre sustentabilidade. Ele explica que o consumo energético desses centros é muitas vezes omitido, criando uma espécie de greenwashing — o ato de divulgar práticas sustentáveis enganosas para parecer mais ecológico — de uma tecnologia que parece ser limpa. Salmi argumenta que, ao invisibilizar o consumo energético desses centros e a rede de infraestrutura necessária, incluindo cabos submarinos e outras movimentações, a quantidade brutal de energia consumida se torna imperceptível aos olhos dos cidadãos e consumidores. 


O pesquisador afirma que “diferente do resíduo, que é uma externalização, a questão do consumo energético alto dessas infraestruturas são invisíveis aos olhos dos cidadãos e dos consumidores. É um outro efeito desse capitalismo tecnológico”. Salmi menciona o termo “tecnoceno”, cunhado pela socióloga argentina Flávia Costa, para descrever a atual ordem técnica do mundo e como os efeitos negativos associados ao aquecimento global são ocultados.


Ele também aborda os desafios éticos e sociais que emergem da relação entre a tecnologia e a questão climática. Frederico destaca que os atores-chave nessa dinâmica são as grandes empresas de tecnologia, conhecidas como big techs, que operam além das fronteiras geopolíticas e fora do alcance legislativo dos estados-nação. Salmi observa que “esse avanço tecnológico também avança o aquecimento global”, indicando que o desafio ético é tornar visível a relação entre a tecnologia e o meio ambiente. 


O especialista argumenta que a separação entre o homem, a tecnologia e a natureza cria uma perspectiva onde a natureza é objetificada e tratada como recurso, o que facilita a extração de minerais e combustíveis fósseis para a produção de aparatos tecnológicos como smartphones. Salmi afirma que “a crise climática, na verdade, é uma crise ética”, explicando que a ética deve ser central na abordagem de qualquer questão ambiental.


Responsabilidade e ética na era da inteligência artificial


Um tablet com a página inicial do Google aberta.
A Alphabet, empresa controladora do Google, registrou lucro líquido de US$ 23,6 bilhões no primeiro trimestre de 2024, um aumento de 56,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. Foto: Pexels

Frederico Salmi analisa a complexidade das implicações éticas das tecnologias emergentes, especialmente as IAs, em relação ao futuro da sustentabilidade. Ele destaca a necessidade de entender as tecnologias como pluralidades que afetam diretamente a realidade. “Toda a tecnologia tem uma ação no mundo, seja uma grande barragem hidrelétrica ou uma plataforma que roda com inteligência artificial como o ChatGPT”, defende o pesquisador. Ele questiona a responsabilidade de quem desenvolve essas tecnologias, lembrando que os programadores são encarregados pela arquitetura dessas IAs, mas a culpa maior recai sobre os grandes atores tecnológicos como Amazon, Alphabet, Meta e Microsoft. As big techs, segundo ele, são responsáveis pelo desenvolvimento dessas tecnologias e pelos efeitos que elas geram na sociedade e no meio ambiente.


O pesquisador critica a falta de regulamentação adequada, especialmente no Brasil, em comparação com avanços regulatórios na Europa. “Hoje nós estamos vendo no Congresso Nacional uma discussão ainda incipiente sobre regulação, numa maneira ainda superficial, das redes sociais no Brasil”, ele observa. Isso contrasta com a União Europeia, que já implementou regulamentações específicas para inteligência artificial e a relação com o cidadão. Salmi defende a necessidade urgente de um debate público mais amplo e profundo sobre essas questões, para garantir que os desenvolvimentos tecnológicos não perpetuem desigualdades ou causem danos irreversíveis ao meio ambiente ou à sociedade.


Expandindo a discussão para os estudos de colonialidade, o especialista introduz o conceito de “colonialismo de dados”, que descreve como as plataformas digitais modernas perpetuam estruturas de poder desiguais através do controle e da exploração de dados. “As plataformas criam bolhas de informação e extraem dados de todos de maneira inconsequente. A maioria da população está num contexto vulnerável porque está alienado desse tipo de discussão”, diz Salmi. Ele esclarece que a tecnologia, enquanto considerada neutra, na verdade reproduz e amplifica dinâmicas de poder e exclusão.


Perspectivas futuras: educação, inovação e convivialismo


Ana Cristina Moreira ressalta a importância da educação ambiental integrada aos currículos tecnológicos. Ela aponta que “as questões ambientais e de sustentabilidade são conhecimentos essenciais para todos os cursos de graduação, sejam eles da área tecnológica e engenharia ou não”. Moreira destaca o programa de extensão Educação com Sustentabilidade (ECOS) — coordenado por ela —, que inclui projetos como Ecoeduca e Ecoponto Uerj, focados respectivamente em educação ambiental e coleta de resíduos. “Ambos têm como objetivo proporcionar vivências humanas mais sustentáveis no dia a dia”, afirma Moreira.


Além da educação, Moreira discute o impacto do ecossistema de inovação InovaFri, em Nova Friburgo, uma iniciativa que ela ajudou a criar e que fomenta o desenvolvimento de soluções tecnológicas sustentáveis: “O InovaFri atua na forma de rede entre instituições, o poder público e a sociedade civil. A diversidade de conhecimento permeado pelo direcionamento do ecossistema para temas inovadores e tecnológicos auxilia no desenvolvimento local”. Ela vê isso como uma oportunidade para integrar novas ideias sustentáveis no tecido industrial e social da região.


Frederico Salmi desafia a perspectiva convencional sobre inovações tecnológicas, propondo uma abordagem mais crítica e reflexiva. Ele sugere que as discussões mais valiosas não se concentram em quais novas tecnologias devem ser desenvolvidas, mas em como essas tecnologias são discutidas e implementadas na sociedade. “Esse é o ponto que vai precisar passar por uma questão ética, ou seja, de um deslocamento entre essa separação de sociedade e natureza, ou sociedade e tecnologia. Esse trio é indissociável. O que é necessário agora é um deslocamento civilizatório para ordenar social e ecologicamente o mundo”, diz Salmi. Ele enfatiza que esta mudança de paradigma é essencial para criar efeitos positivos duradouros no planeta.


O pesquisador relata que o convivialismo — uma filosofia recente baseada na busca por uma sociedade mais justa e sustentável, priorizando o bem-estar humano e a harmonia com a natureza — pode ser um guia para desenvolver tecnologias verdadeiramente sustentáveis que considerem os impactos sobre todos os seres vivos: “É um conceito que tem uma força sócio-normativa no intuito de pensar formas de coexistência entre os diferentes sem o massacre do outro”. A abordagem questiona se as tecnologias atuais, como parques eólicos e fazendas solares, são realmente sustentáveis se causarem danos ao meio ambiente ou à vida selvagem.


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