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  • Foto do escritorDouglas Vinicius

Política se aprende na escola

Atualizado: 30 de abr.

Quatro jovens contam por que entraram de cabeça no ativismo político; participação de eleitores de primeira viagem foi recorde no ano passado depois de incentivo da Justiça Eleitoral


Jovem com seu título de eleitor | Reprodução: TSE

Na eleição de 2022, o número de jovens de 16 e 17 anos aptos a votar bateu recorde: foram 2,1 milhões de novos títulos de eleitores nesta faixa etária, um aumento de 52% em relação a 2018. Mas isso só aconteceu graças a uma ação conjunta – e quase desesperada – do poder público e da Justiça Eleitoral. Até abril de 2022, o número de jovens que se cadastraram junto ao TSE para o voto facultativo estava muito abaixo da expectativa, numa queda que chegava a 82% em uma década. O TSE lançou campanhas em busca dos novos eleitores, numa ação que contou com artistas, influenciadores digitais, fandoms e diversas personalidades. O resultado foi positivo.


Para entender melhor os motivos do interesse da juventude pela política, o Rampas entrevistou quatro jovens do Rio de Janeiro, todos com ativa militância, partidária ou não. Na década passada, enquanto muitos jovens se afastavam da política e nem se interessavam em tirar o título, eles remaram na contramão e entraram de cabeça na vida política. Suas histórias têm em comum, além da intensa militância, o fato de terem entrado para a vida política ainda no colégio. Mais precisamente, no ensino médio, entre as preocupações com o Enem, amigos e família. Todos eles dizem que acreditam na política como um caminho para reduzir desigualdades e melhorar o mundo em que vivem.


Victor Hugo e o secretariado da Juventude


Foto: Acervo pessoal

Victor Hugo Tito tem 20 anos, é estudante de Relações Internacionais e presidente municipal da Juventude do Solidariedade, partido ao qual é filiado. Ele conta que a motivação para querer agir politicamente surgiu no ensino médio, em um momento de instabilidade política pós-impeachment da presidente Dilma Rousseff. Segundo o militante do Solidariedade, a política sempre fez parte da vida dele e de sua família, que o apoiava incondicionalmente e acreditava nele. "Eu sou ouvido, respeitado, levado a sério. Me sinto valorizado e com apoio para continuar agindo nesse meio. Na escola, eu não era levado muito a sério, minhas opiniões e falas não eram vistas com seriedade. Já no ambiente universitário e profissional, com muita luta, estudo e insistência, algumas barreiras começaram a desaparecer. Hoje tenho mais abertura para defender determinadas narrativas", contou.


Tito enfatizou a importância da educação como alternativa para transformar a sociedade. "Usar a juventude para modernizar o debate público, reeducar a sociedade. Os jovens hoje detém com maior facilidade o conhecimento e a informação na palma da mão, então somos nós os responsáveis por sanar diversas controvérsias que a ignorância proporciona e são compartilhadas em nossa sociedade". Victor acredita que qualquer um deve lutar pelo que acredita. O jovem agente político precisa ter perseverança, controle, dedicação, amor e empatia.


Maria Fernanda e a luta contra a injustiça


Foto: Acervo pessoal

Maria Fernanda Machado tem 25 anos, natural do interior de São Paulo, residente do Rio há 5 anos, jornalista e filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT). Afirma que a consciência da desigualdade social e econômica no país foi fundamental para a escolha dela de se dedicar à militância política. Também foi na escola, por volta dos 16 anos, que ela começou a ter consciência de que existia uma barreira financeira para as pessoas terem acesso a condições básicas de saúde e prosperidade no futuro. Seus professores e as amigas próximas foram fundamentais para essa consciência de classe ainda na escola.


Em 2017, já cursando seu primeiro ano de faculdade aqui no Rio de Janeiro, Maria decidiu entrar no Partido dos Trabalhadores (PT). Aos 20 anos e recém-chegada à cidade, seus amigos mais próximos eram do seu grupo político no PT. A maioria das atividades na cidade, diz ela, eram voltadas para a politica. "Antes eu me dedicava à militância 24h e acabei deixando para segundo plano minha vida acadêmica e pessoal. Hoje consigo delimitar melhor os limites".


Com sua atuação política, ela diz que espera usar seu conhecimento acadêmico, de jornalismo, na sua militância. E a partir disso, colaborar para a construção de um país mais justo.


Yago Moura e a mobilização das ruas


Foto: Acervo pessoal

Yago Moura tem 23 anos, é mestre em História, Política e Bens Culturais e também filiado ao PT. Diz que suas primeiras ideias políticas surgiram na escola. Ele queria – e ainda quer – transformar a sociedade, pois compreende que somente a luta política e a mobilização tornam possível uma mudança real e positiva na sociedade. Sua filiação ao Partido dos Trabalhadores foi uma resposta à condenação em 2ª instância que Lula sofreu em 2018. "Naquele momento Lula perdia os direitos políticos e estava fora das eleições. Ali eu notei que essa condenação era a condenação de um projeto inclusão social, de construção social de um país mais justo", afirmou.


Ele diz que gostaria de contribuir com os projetos de transformação da realidade, pois entende que a sociedade pode ser mudada quando se parte do pressuposto de que ela é injusta, mas que não deve ser naturalizada assim.


Yago discorda da interpretação de que a participação dos jovens na política é baixa e afirma que é preciso relativizar. Em termos constitucionais e eleitorais, a participação pode realmente ser pouco expressiva, mas ele acredita que a política é muito mais que institucionalidade e o que se passa nos salões e casas legislativas. "Eu acho que a politica é construída na rua, e que a juventude está na rua", conclui.


Charlie e a participação universitária


Foto: Acervo pessoal

Carlos Henrique Souza, conhecido como Charlie, tem 25 anos, é estudante de Jornalismo, integrante do DCE UERJ na pasta de Combate ao Racismo, e sem organização partidária. Ele conta que aos 15 anos colaborou para a criação do primeiro Grêmio estudantil do Colégio Rui Barbosa, no município de Duque de Caxias. “Logo depois a gente ajudou a construir a UEDC, a União dos Estudantes de Duque de Caxias, da qual eu fiz parte também. Depois a gente começou a construir a AERJ, que é a Associação dos Estudantes Secundaristas do Rio de Janeiro ", afirmou o estudante.


Para Charlie, seus objetivos políticos brotam da demanda de sua realidade. Quando ele começou, o objetivo era ter um grêmio para reclamar dos absurdos vividos pelos estudantes. Hoje seu objetivo de melhorar os espaços e a acessibilidade da Universidade. “A gente luta pela permanência dos auxílios, pelo combate às fraudes nas cotas e para melhorar o espaço estudantil”, contou Charlie. Sua luta atual é para que daqui a alguns anos os estudantes, principalmente os periféricos, consigam se sentir pertencentes ao espaço acadêmico.


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