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  • Foto do escritorAlice Lichotti

“Só queremos torcer em grupo como todo mundo”

Atualizado: 30 de abr.

No mês do orgulho, torcidas LGBTQIAPN+ cariocas falam do preconceito nos estádios e do relacionamento com os clubes




Xingamentos, cânticos, comentários ofensivos dentro e fora de estádios, ataques nas redes sociais e muitas outras violências. Essas são algumas das situações que torcedores LGBTQIAPN+ enfrentam por apoiarem seus clubes de coração. Segundo estudo do Coletivo Canarinhos LGBTQIAP+, divulgado pela CBF, em 2022 foram registrados 74 casos de homofobia no futebol, um aumento de 76% em relação ao ano anterior. Entretanto, esses números podem não refletir a real situação vivida pela comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil. Em razão do medo ou da falta de confiança em punições por parte das autoridades, muitos torcedores não denunciam as violências sofridas.


Entre essas subnotificações, está o caso de Cristian Lins, homem trans, e um dos fundadores da Torcida LGBTQIA+ Botafogo F.R. Convidado para a festa de uma outra torcida organizada do clube, ele foi vítima de xingamentos por parte de um torcedor. “Um cara bêbado virou pra mim e berrou que não aceitava viado no Botafogo. Foi super grosseiro e desnecessário”, relembrou Cristian. Denunciar o caso, e até mesmo falar sobre, poderia trazer problemas para toda a torcida, então, ele e os outros membros da Torcida LGBTQIA+ pararam de frequentar as festas de outras agremiações do clube.


A organizada começou como um grupo de amigos que se juntava para torcer pelo Fogão, e é uma das 17 torcidas que compõem o Coletivo Canarinhos LGBTQIAP+. Em 2021, o clube, em conjunto com a Centrum, na época patrocinadora master do time, oficializou a existência deles durante o lançamento da camisa #AmorÉAmor. A esperança de Cristian era de que, a partir desse momento, o clube desse suporte e segurança para os torcedores, mas não foi o que aconteceu. Segundo ele, a torcida foi à sede do clube apenas uma vez, para receber uma faixa de presente da Centrum. Eles pretendiam fornecer materiais de conscientização sobre a LGBTfobia, como cartilhas e vídeos educativos, mas o clube não se disponibilizou para qualquer outra conversa.



Cristian Lins durante a entrega da faixa da Centrum | Reprodução: Cristian Lins

Cerca de 25 pessoas compõem a torcida, número que, segundo Cristian, poderia ser muito maior. A principal razão para isso, de acordo com ele, é a falta de suporte do clube: “Poderíamos estar bem grandes já, só que os membros não veem o Botafogo chamar pra abraçar, oferecer segurança e dizer ‘venham, vocês são nossos torcedores e vamos garantir que todos sejam respeitados’”. Nas redes sociais, o clube faz postagens em datas comemorativas da comunidade LGBQTQIAPN+. A mais recente foi em maio, no Dia Internacional contra a LGBTfobia. O post no Instagram foi alvo de comentários odiosos por parte da torcida alvinegra, que pediram ao clube para “parar de lacração e focar no futebol”.


Se o clube não apoia, outros segmentos entram na jogada. No Nilton Santos, a Blindados, equipe de segurança do estádio, é uma das principais aliadas dos torcedores LGBTQIAP+. De acordo com Cristian Lins, a equipe convocou uma reunião com a Torcida para entender e aprender a como tratar os membros da comunidade LGBTQIAP+ nos estádios e estabelecer processos de abordagem. “Foi super produtivo e além de aprenderem, deixaram claro que nossa segurança está garantida dentro do Engenhão”, afirma o torcedor. Apesar disso, os membros da torcida preferem ir "à paisana", sem vestimentas coloridas ou artefatos que possam identificá-los, e ficam espalhados pelo estádio, desconfigurando a formação tradicional de aglomeração dos torcedores.


A camisa #AmorÉAmor foi usada na partida contra o Vitória, pela 8º rodada da Série B do Brasileirão de 2021.| Reprodução: Botafogo F.R.

A esperança não está perdida, já que outro alvinegro carioca tem se tornado exemplo quando se trata de apoio à causa LGBTQIAPN+. Pioneiro no suporte às causas sociais e sinônimo de inclusão, o Vasco da Gama se posiciona publicamente a favor de seus torcedores LGBTQIAPN+. De acordo com Gustavo Casimiro de Abreu, do setor de marketing do Vasco, o intuito é educar o torcedor e levar a comunidade para dentro do clube: “A gente sempre ouve a nossa torcida LGBTQIAP+, sempre traz eles para o debate, para todas as campanhas que a gente faz. A ideia é reforçar cada vez mais esses vínculos.”


Beatriz Abreu, uma das administradoras das páginas da Vasco LGBT, reforça o apoio que a torcida recebe do clube: “Sempre fomos tratados com respeito e como iguais pela instituição. O Vasco, tanto associativo quanto SAF, está sempre solícito a nos ouvir e nos consultar sobre questões de inclusão”. A página existe desde de 2020, e nasceu de forma despretensiosa no Twitter, onde acumula mais de 6,5 mil seguidores. A intenção dos criadores era conectar os vascaínos LGBTQIAPN+, ajudar a arrumar companhias para os jogos e fornecer um ambiente seguro para o torcedor. O contato com o clube só veio no ano seguinte, e desde então eles são incluídos nas conversas sobre diversidade.


No ano passado, as torcidas organizadas do Vasco assinaram um manifesto contra a homofobia e transfobia, proposto pelo Departamento Jurídico e de Integridade do próprio clube. Beatriz afirma que a Vasco LGBT foi convidada para a reunião de elaboração e assinatura do manifesto, que contou também com um código de conduta. “As TOs (torcidas organizadas) que estiveram no evento e assinaram o manifesto se colocaram como combatentes da homofobia dentro dos estádios, e inclusive vem trabalhando na mudança dos cânticos para que se encaixem no novo regulamento”.



Membros das organizadas do Vasco durante assinatura do manifesto | Reprodução: Daniel Ramalho\Vasco da Gama

Essa não foi a primeira ação de combate a LGBTfobia e apoio à inclusão que o Vasco protagonizou. O clube já lançou duas camisas comemorativas com a temática LGBTQIAPN+. A mais famosa delas, lançada em 2021, e usada pelos jogadores contra o Brusque, em partida válida pela Série B daquele ano, teve mais de 20 mil unidades vendidas. Na ocasião, ao comemorar seu gol, o atacante Germán Cano levantou a bandeirinha de escanteio que tinha as cores do arco-íris. O gesto viralizou nas redes e se tornou um marco para a torcida, ajudando na popularização da camisa. Beatriz teve a oportunidade de conversar com Cano naquele dia e expressou sua gratidão pelo apoio. Segundo ela, o jogador foi de extrema gentileza, e a agradeceu pela oportunidade de aprender sobre respeito. “O meio do futebol é muito machista e hostil ao diferente, e ver um jogador, que na época era o queridinho dos torcedores, nos apoiar foi um golpe certeiro em todos aqueles que tentaram tumultuar e deslegitimar a nossa existência”, acrescenta a torcedora.


Nova Lei do Esporte prevê punições mais severas para casos de discriminação



Na 27ª Parada do Orgulho LGBTI+ RIO 2022, 15 pessoas carregaram uma camisa amarela gigante com o escudo da CBF e o número 24 doada pela instituição | Reprodução: CBF e Grupo Arco-Íris

O último caso de homofobia no futebol foi registrado durante uma partida entre Corinthians e São Paulo pelo Campeonato Brasileiro, em 14 de maio. Os cânticos homofóbicos por parte da torcida corintiana começaram antes do início da partida e se repetiram em diversos momentos do jogo. Pela persistência das ofensas, o árbitro Bruno Arleu de Araújo paralisou a partida por quatro minutos aos 18 minutos do 2º tempo, quando a torcida do Corinthians entoou: "Vamos, Corinthians, dessas bichas teremos que ganhar". A Terceira Comissão Disciplinar do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) decidiu punir o clube com multa e um jogo com portões fechados (sem a presença da torcida) na Neo Química Arena. O clube recorreu da decisão e a medida foi adiada até novo julgamento.


O presidente Lula sancionou, no início deste mês (15), mudanças na Lei Geral do Esporte. Casos de discriminação, incluindo LGBTfobia, estão sujeitos a multas que podem variar de R$500 a 2 milhões de reais, dependendo da gravidade do caso. As punições podem ser aplicadas tanto aos torcedores quanto aos clubes. A lei também prevê que torcidas organizadas envolvidas em casos de discriminação podem ser banidas dos estádios por até 5 anos. No início do ano, a CBF já havia anunciado no Regulamento Geral de Competições de 2023 que casos de homofobia seriam punidos de forma severa. Entre as sanções impostas pelo novo regulamento estão: advertência, multa de até 500 mil reais a ser revertida em prol de causas sociais, vedação de registro ou de transferência de atletas e perda de pontos, sendo a última, a de maior impacto imediato para os clubes.


*Até o momento da publicação desta reportagem, a assessoria do Botafogo não respondeu ao contato do Rampas.




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