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  • Foto do escritorRafael Lopes

Senna: o legado de um ídolo que ainda deixa saudade

Atualizado: 17 de jun.

Morte do lendário piloto brasileiro de Fórmula 1 completou três décadas no dia 1º de maio


O piloto Ayrton Senna comemorando uma vitória com os braços levantados.
Desde o último título de Senna, em 1991, nenhum brasileiro voltou a ser campeão de uma temporada na Fórmula 1 - Foto: Divulgação/Twitter

“Eu acordava de madrugada para assistir as corridas do Senna com meu marido. Não lembro de ver um ídolo tão unânime no esporte brasileiro”. A fala de Marly de Almeida, aposentada de 60 anos, retrata uma experiência muito comum nas décadas de 80 e 90 no país: milhões de brasileiros paravam para acompanhar a carreira de um herói nacional. Ao longo de sua passagem na Fórmula 1, que durou 11 temporadas, o piloto acumulou vitórias e bateu recordes. A partir de 1º de maio de 1994, quando morreu no GP de Ímola, na Itália, Ayrton Senna da Silva se eternizou na história do automobilismo.


A morte de Senna ainda é um episódio frequentemente revisitado pelo público geral. “É um daqueles eventos em que a maioria das pessoas lembra o que estava fazendo quando ocorreu”, diz a jornalista Maria Clara Ramos, especializada em automobilismo. Um desses exemplos é o do publicitário Claudio Souza, de 52 anos, que acordou com a notícia da batida: “Trabalhei até de madrugada no dia anterior e por isso não estava acompanhando a corrida, que era um hábito que eu tinha. Minha namorada gritou quando soube do acidente. A partir daquele momento passamos o dia atônitos. Parecia que já sabíamos o que estava por vir”, relembra.


GP de Ímola 1994: o final de semana fatal da Fórmula 1


A morte de Senna encerrou o que foi, provavelmente, o final de semana mais assombroso da história da Fórmula 1. Tudo começou na sexta-feira, no dia 29 de abril, durante a primeira sessão de treinos do GP de San Marino. O ainda novato Rubens Barrichello sofreu um grave acidente: a Jordan que pilotava perdeu o controle e se chocou contra a barreira de pneus. O brasileiro ficou inconsciente e teve o nariz e o braço quebrados. Em entrevista ao portal Motorsport.com, Barrichello afirmou que ‘morreu por seis minutos e retornou à vida’.


O primeiro acidente do GP causou um grande desconforto nos bastidores do esporte. No hospital de Bolonha, as notícias eram de que Rubinho respondia bem e melhorava. Mas um baque ainda maior aconteceria na prova. Roland Ratzenberger, piloto da equipe Simtek, colidiu de forma brutal na curva Villeneuve. Dessa forma, mais uma batida assombrava o GP de Ímola e, desta vez, de forma fatal: o austríaco, que fazia sua temporada de estreia na modalidade, morreu antes de completar 34 anos de idade.


Senna vivia um constante estado de choque. Roberto Cabrini, repórter que cobria a Fórmula 1 na época, relatou em diversos depoimentos o quão preocupado o brasileiro estava. Cabrini revelou ao podcast Motorsport.com que o piloto pensou em abandonar o GP de domingo, mas estava tão focado em conquistar a vitória na Itália que não colocou a ideia em prática: “Depois da morte do Ratzenberger, era nítido que ele estava fora de órbita. Subia na torre de controle, andava em círculos… Claramente ficou assustado”.


As condições de corrida passavam longe do ideal. Apesar da tragédia, o GP de San Marino foi mantido e os carros foram para a pista de Ímola no domingo, 1º de maio. Cabrini conta que, antes de correr, Ayrton disse a ele, longe dos gravadores, que Ratzenberger tinha falecido dentro do autódromo. Este é um ponto-chave, já que, segundo a lei italiana, quando há morte em algum evento esportivo público, é necessário o cancelamento imediato. A informação dada à imprensa, entretanto, foi a de que o piloto tinha morrido no hospital, para que o Grande Prêmio não fosse anulado.


A largada foi no domingo de manhã. Àquele ponto, tudo que os espectadores queriam era que tudo terminasse bem: “Lembro que a energia estava muito pesada devido aos acidentes. Quando chegou domingo, eu só queria que a corrida fosse concluída e que o Ayrton vencesse", comenta Sérgio Sousa, aposentado de 52 anos e fã de Fórmula 1.


O que aconteceu, na verdade, foi o clímax de um verdadeiro filme de terror na história do automobilismo. No início, os carros dos pilotos Lamy e Lehto colidiram e os pneus voaram em direção à arquibancada. Pouco tempo depois, um choque com a parede de concreto paralisa a corrida: Senna, que ocupava a primeira posição, perdeu o controle e bateu cerca de 200 km/h na curva Tamburello.


O carro acidentado de Ayrton Senna saindo da pista, com pedaços do carro sendo arremessados e pessoas observando a cena ao fundo.
Estado do carro de Senna imediatamente após o acidente - Foto: Reprodução/Twitter

De acordo com Sérgio, os momentos após a colisão foram de desespero: “A partir da batida, fiquei sem reação. Minha mãe, que assistia a corrida comigo e era apaixonada pelo Senna, começou a temer pelo pior. Foi difícil. Ao mesmo tempo em que eu tentava acalmar ela, ainda não acreditava no que tinha acabado de acontecer”.


O anúncio oficial da morte de Ayrton Senna foi feito pelo repórter Roberto Cabrini, que era próximo do piloto.


“Ayrton Senna da Silva está morto. Morreu Ayrton Senna da Silva, segundo comunicado oficial do Hospital em Bolonha. Morreu Ayrton Senna da Silva, uma notícia que a gente nunca gostaria de dar. Morreu Ayrton Senna da Silva” - Roberto Cabrini, ao plantão da Globo. 


O legado de Ayrton Senna para o povo brasileiro


Para milhões de brasileiros, a morte de Ayrton Senna foi como a perda de um ente querido. Na mesma entrevista concedida ao Motorsport.com, Cabrini explicou sua preparação para noticiar o falecimento do ídolo brasileiro em rede nacional: “Eu me organizei como se fosse contar para a minha mãe que meu irmão tinha morrido. É lógico que era um momento de absoluta emoção, mas foi preciso manter a calma e o foco no meu objetivo jornalístico”. O sentimento de proximidade e comoção foi confirmado quatro dias depois, com o cortejo e sepultamento de Senna no Cemitério do Morumbi, em São Paulo. 


A jornalista Maria Clara Ramos define o momento com precisão: “O velório do Ayrton foi digno de um chefe de estado. São Paulo simplesmente parou. As avenidas ficaram pequenas com tantas pessoas acompanhando o caminho do caixão”. Beco, como era chamado por familiares próximos, foi velado na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), por 20 horas. Mais de 250 mil fãs passaram pelo local para se despedir do herói nacional.


Para Sérgio, a morte trágica nem precisava ter ocorrido para que Senna fosse eternizado como exemplo e símbolo para milhões de brasileiros: “Na minha visão, não são só títulos que formam um ídolo. Senna não foi o maior vencedor da Fórmula 1, mas, com certeza, foi o piloto que mais encantou. Isso sempre fará diferença”. 


Cabrini disse ao portal do Uol que existiam dois Sennas: o atleta e o humano. O automobilista era obstinado, obcecado pela vitória e absolutamente perfeccionista, enquanto o humano era divertido e, acima de tudo, empático. Segundo ele, Senna deixava muitas vezes o ‘lado piloto’ sobressair em sua personalidade, só que ainda assim enxergava, em especial, uma consciência social latente em Ayrton. 


Parte do forte caráter observado em Senna é ilustrado pelo Instituto Ayrton Senna, criado em 1994 por Viviane Senna, irmã do ex-piloto, após o trágico acidente. Apesar de ter sido colocado em prática pela família, o projeto que busca potencializar o sonho de milhares de crianças pelo país foi idealizado pelo próprio atleta.


Na soma dos fatos, o resultado é de uma personalidade extremamente cativante e venerada: “Eu nunca tinha visto um caso como o de Ayrton: todas as declarações dele eram notícias, já que as pessoas amavam saber o que ele falava”, contou o jornalista ao Uol.


Foto fechada no rosto de Ayrton Senna, com expressão séria e olhando para longe da câmera.
Ayrton Senna se tornou patrono do esporte brasileiro em 2023 - Foto: Divulgação/Twitter

A sensação que fica é que os valores de Ayrton Senna foram eternizados após a sua morte. Maria Clara Ramos afirma que o legado deixado por ele é muito forte nos dias de hoje: “A história dele é o maior exemplo de perseverança e persistência na história do esporte brasileiro”. A jovem de 25 anos ainda compartilha um ritual pessoal, toda vez que se sente insegura com alguma tarefa, a jornalista pensa: “Se o Ayrton pôde, eu também posso”.


É difícil pensar que o impacto de uma personalidade esportiva será tão grande como o de Senna. O reconhecimento do piloto vai além da perspicácia nos autódromos e consegue ser ainda mais impressionante que dias mágicos nas pistas, como a corrida que sagrou o brasileiro como “Rei de Mônaco”, em 1993, ou a primeira vitória do piloto no Brasil utilizando apenas a sexta marcha, em 1991.


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