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Sua mãe tinha razão: celular em excesso é prejudicial à saúde

Atualizado: 13 de out. de 2023

Brasileiros lideram ranking mundial dos que mais utilizam smartphones; crianças e adolescentes são os mais suscetíveis à dependência digital



Reprodução: Shutterstock

Há 50 anos, desde a criação do primeiro celular móvel, o DynaTAC 8000x, da Motorola, e nos quase 30 anos que conseguem se conectar à internet, os smartphones têm tomado conta da vida das pessoas, em especial, das novas gerações. Atualmente eles unem redes sociais, plataformas de músicas, filmes e séries, e jogos. No Brasil, 78% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos possuem um telefone celular, segundo o estudo TIC Kids Online Brasil 2021, lançado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e conduzido pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).


O acesso à tecnologia acontece cada vez mais cedo – e a dependência também. Para a advogada e mãe Teriane Fernanda, o vício na vida digital já está consumindo a nova geração. Ela conta que o filho de 5 anos já sabe mexer no celular dela para jogar, assistir vídeos no youtube, e que fica bravo se tiram os aparelhos tecnológicos dele. “Acho que ele aprendeu a fazer tudo isso com 3 anos”, conta Teriane. O pequeno aprendeu a fazer isso na pandemia, quando o uso da tecnologia se tornou indispensável no dia-a-dia das pessoas.


Pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com outras universidades federais do Brasil, concluiu que no período pandêmico o uso de tecnologia aumentou entre crianças e adolescentes no Brasil. A pesquisa ouviu 6 mil pais e mães, e 51% deles responderam que os filhos passam mais de quatro horas por dia usando telas. Outros 24% ficam de três a quatro horas. Outra pesquisa, da University College London, que ouviu mais de 1000 pessoas entre 18 e 30 anos, revelou que 40% não aguentavam a sensação de ficar longe de seus smartphones.


Claudio Filgueira, professor de fisiologia com ênfase em neurofisiologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, explica que há dois fatores associados ao desenvolvimento de vícios. A predisposição do indivíduo, que pode ser de natureza genética, e um padrão de uso repetitivo ou abusivo. Por isso, nem todas as pessoas que passam muito tempo conectadas às redes sociais ou jogando videogames vão desenvolver o vício.


E a questão central entre as crianças e jovens é que eles necessitam de menos exposição ou repetição para se tornarem dependentes, e uma vez que desenvolvem o vício, uma série de riscos podem surgir. “O tempo excessivo em redes sociais e videogames prejudica o desempenho escolar, é maléfico para o raciocínio de crianças e diminui as interações não-virtuais. Essas ações interferem diretamente no desenvolvimento do cérebro e podem desencadear uma série de transtornos comportamentais como agressividade e prejudicar na maturação cerebral. Além disso, o vício digital também pode levar a problemas endócrinos e cardiovasculares”, afirma o professor.


Para proteger o filho e evitar que a dependência aumente cada vez mais, a advogada Teriane conta que alterna bastante em seus métodos para reduzir o uso dele nos aparelhos tecnológicos. “Ao mesmo tempo que eu faço ele brincar com os brinquedos físicos e ainda o incentivo levando para casa da avó e da família para passar um tempo mais desconectado. Eu também tento utilizar a tecnologia de uma forma mais educacional quando ele está com o tablet ou celular, sempre boto vídeos infantis de aprendizado e fico supervisionando o tempo que ele está atrás da tela”, acrescenta a advogada.


Segundo dados do Digital 2023: Global Overview Report e do aplicativo Sleep Cycle, analisados pela Electronics Hub, o Brasil é o segundo país que passa mais tempo do dia no uso de telas, atrás apenas da África do Sul. A pesquisa revela que são cerca de 9 horas e 32 minutos, quatro dessas horas apenas nas redes sociais, o que representa 58,2% do tempo médio em que um brasileiro está acordado.


Preocupação com a saúde mental


A pandemia também afetou o uso dos jovens e adolescentes nas telas, principalmente com a implementação da educação a distância por escolas e universidades, seja para aula, entretenimento, ligações com os amigos, entre outros. Para Gabriel Rocha, estudante de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, PUC-Rio, a pandemia atrapalhou bastante seus estudos e influenciou muito na sua dependência digital, principalmente no celular. “Para mim foi muito difícil, principalmente, porque eu não podia sair de casa e tudo era feito online. Eu acordava e já entrava na aula, que eu via no computador, depois ficava o dia inteiro mexendo no celular conversando com meus amigos, tanto por ligação quanto por mensagem.


A estatística de tempo de uso do meu celular aumentou muito durante esse período”, diz o estudante. Gabriel ainda conta que foi durante a pandemia que notou o vício no aparelho telefônico, mas que isso deixou sequelas até hoje. “Então, atualmente eu reconheço que ainda tem uma espécie de 'marca' deste vício na minha rotina. Por exemplo, eu não consigo acordar sem pegar e olhar o Twitter. E às vezes, entro no WhatsApp em pequenos intervalos de tempo somente para ver se recebi alguma mensagem nova”, complementa.


O estudante afirma que hoje em dia faz um trabalho constante para evitar voltar com o vício na vida digital. “Eu uso a mesma tecnologia ao meu favor também, porque eu habilitei no meu celular uma certa quantidade de tempo que eu posso utilizar determinado aplicativo e se eu atinjo esse limite, antes de entrar novamente no app, ele me avisa e não deixa eu utilizar, a não ser que eu mesmo desabilite a função. E também, troquei hábitos da minha rotina, então ao invés de eu ficar no celular, eu leio um livro. Me ajudou muito”, afirma Gabriel.


A psicóloga Cynthia Godinho, especialista em Terapia Cognitiva Comportamental, afirma que diversas pesquisas mostram que a dependência digital pode ser maléfica para a saúde mental. Cynthia destaca que o uso de telas faz com que a pessoa libere a dopamina, substância química responsável pelo prazer e que também é a mesma que ocorre no vício de drogas e álcool. Por isso, com o passar do tempo, o indivíduo fica cada vez mais vidrado nos aparatos tecnológicos, pois necessita desses momentos para satisfazer o mesmo prazer de antes. De acordo com a especialista, outros sintomas prejudiciais à saúde mental podem aparecer, como respiração ofegante, falta de ar, depressão e irritabilidade. Eles são semelhantes a uma crise de ansiedade ou à sensação causada pelo abuso de drogas.


Maria Clara Simões, estudante do departamento de psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, levou um tempo para conseguir dissociar a vida real da virtual. “Eu sempre estou conectada; online e para mim foi muito difícil enxergar, por exemplo, que nem todo mundo tem a vida perfeita que mostram diariamente no Instagram e até no TikTok. Confesso que, para mim, isso gerou alguns problemas em relação à insegurança, ansiedade e até baixa autoestima”, afirma a estudante.


A terapeuta Cynthia recomenda que, para evitar problemas de saúde decorrentes da hiperconectividade, a pessoa procure um tratamento com objetivo de mudar seu estilo de vida. “É um processo difícil e demorado, mas o primeiro passo é que o paciente tenha consciência que precisa alterar seus hábitos e sua rotina. A Terapia Cognitivo Comportamental oferece várias técnicas para lidar com a situação, ressignificando os comportamentos compulsivos, relacionados ao uso da internet. O que eu indico sempre é escolher um momento específico do dia para mexer nas redes sociais; deletar aplicativos cuja moderação de uso foge ao controle do indivíduo e praticar atividades físicas. E lembrando sempre que a abstinência total do uso de celulares e tecnologias não é recomendada, pois dificilmente ela será mantida”, finaliza.


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