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  • Foto do escritorJuliana Nascimento

Túnel da Rua Alice, uma rota histórica atropelada pela insegurança

Atualizado: 3 de jul.

Moradores enfrentam violência e medo constante ao atravessar o primeiro túnel construído para conectar as zonas Sul e Norte do Rio


Entrada do Túnel da Rua Alice, no bairro de Laranjeiras
Túnel da Rua Alice, acesso Laranjeiras [Foto: Juliana Nascimento]

Em menos de cinco minutos a diarista Angélica Costa, de 45 anos, atravessa os 229 metros do Túnel da Rua Alice com destino à casa dos patrões no Cosme Velho. Apesar da rapidez, a tensão e o medo durante o trajeto fazem a viagem parecer bem mais longa. Importante via de comunicação entre as zonas Sul e Norte do Rio de Janeiro, o túnel está localizado em uma área considerada de risco, devido à frequência de crimes e tiroteios.


De um lado, está a Rua Professor Alcias Athayde, em Laranjeiras, bairro que ocupa o segundo lugar em qualidade de vida no ranking IPS (Índice de Progresso Social) de 2022. Do outro, está a Rua Barão de Petrópolis, no Rio Comprido, que corta as favelas do Escondidinho, Prazeres, Fallet e Fogueteiro, território de disputa entre facções criminosas, posicionado no número 102 do mesmo ranking, criado pela Prefeitura do Rio e desenvolvido pelo Instituto Pereira Passos.


Na prática, isso significa que, em 5 minutos, a pessoa sai de um bairro como Laranjeiras, onde a expectativa de vida é de 78 anos, para outro onde se vive, em média, 8 anos a menos.  E, a considerar as condições de vida nas favelas do entorno, a situação é ainda mais preocupante. Em 2019, uma única operação policial no Fallet resultou em 15 mortes. 


Moradora da Chácara, na Barão de Petrópolis, Angélica diz que a volta do trabalho é o momento mais difícil. “Quando está escuro eu passo rezando, tenho medo de alguém me assaltar ou fazer coisa pior. Tem morador de rua do lado de lá [entrada do Rio Comprido] e gente usando drogas. E também tinha muito roubo de carro antes da UPP ficar aqui na entrada [Laranjeiras]”, conta a diarista.


Foto de uma mulher negra, de 45 anos, em frente ao túnel da Rua Alice
Angélica Costa passa pelo Túnel da Rua Aline diariamente para ir e voltar do trabalho [Foto: Juliana Nascimento]

Túnel centenário, problemas atuais


O Túnel da Rua Alice, inaugurado em 1887 – quase 80 anos antes do Santa Bárbara e do Rebouças – foi a primeira ligação entre as zonas Norte e Sul do Rio de Janeiro sem passar pelo Centro da Cidade. Atualmente, o ônibus 133 (Largo do Machado x Terminal Gentileza) é a única linha de transporte público que atravessa o túnel, que também é conhecido como Rio Comprido-Laranjeiras.


Para quem não tem veículo próprio, sobram vans, táxis ou carros de aplicativo como opções. Mas conseguir uma corrida nem sempre é uma tarefa simples. “Fico revoltada, dependendo da hora os motoristas cancelam a corrida”, relata a auxiliar de salão de beleza Alice Silva, de 19 anos. “Pior quando mandam mensagem perguntando se o endereço é comunidade. Eu moro na Barão mesmo, nem precisa subir, mas o GPS deles dá como área de risco”, explica a jovem.


Geralmente, o que influencia a decisão do cancelamento é o medo da violência. O motorista de aplicativo Alex Sandro de Almeida, de 37 anos, relembra do desespero ao escutar o alerta de área de risco quando adentrou o Túnel da Rua Alice sem conhecer o trajeto indicado pelo GPS. “A passageira disse que estava tudo bem, segui em frente porque esse túnel não tem retorno. Eu cheguei a ver uns elementos de fuzil, mas graças a Deus não aconteceu nada”, conta aliviado.


A classificação de risco é um índice dinâmico estabelecido pelas Secretarias de Segurança Pública. Com base nestes dados, plataformas como a Uber utilizam algoritmos que automatizam o bloqueio das viagens consideradas potencialmente mais perigosas. 


O Projeto de Lei 6446/19, em tramitação na Câmara dos Deputados, estabelece a obrigatoriedade dos aplicativos de navegação por GPS alertarem os usuários sobre áreas com alto índice de criminalidade. Apesar da Uber já fazer a identificação desses locais, outras empresas, como a 99, não adotam o sistema. 


Placa informando acesso a Laranjeiras e ao Ginásio Olímpico
Ginásio Educacional Olímpico Juan Antonio Samaranch (GEO) fica à esquerda do acesso Rio Comprido [Foto: Juliana Nascimento]

“Por motivo de operação policial no entorno do GEO e para garantir a segurança dos alunos, as aulas ocorrerão de forma remota. As atividades serão enviadas até o meio dia”. Assim que a mensagem padrão do Ginásio Educacional Olímpico Juan Antonio Samaranch (GEO) chega ao celular de Anna Lucas Santana, a moradora da Favela do Escondidinho se vê obrigada a mudar sua rotina na tentativa de manter a filha segura. “Não tem jeito, se não tem aula na escola, minha filha vai comigo para o trabalho. Ela tem 12 anos, já sabe ficar quietinha fazendo a tarefa que o GEO manda”, explica a vendedora de 35 anos, que nasceu e cresceu na favela.


Desde 2011 a região conta com uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), na intenção de coibir ações de grupos criminosos, mas não são raras as operações com vítimas inocentes, como aconteceu em fevereiro de 2023 com Emanuel Vitor Alves, de 26 anos, morto com um tiro na cabeça ao passar de bicicleta pela Rua Barão de Petrópolis durante uma operação policial. 


A coordenadora do Programa de Direito à Vida e Segurança Pública do Observatório de Favelas, Aline Maia Nascimento, afirma que o policial é um servidor público e alerta para a necessidade de que suas atividades sejam avaliadas. “A polícia brasileira é uma das mais letais do mundo e quem sofre com isso é especialmente a população que vive nas favelas e áreas periféricas”, disse Nascimento em entrevista ao Justiça Global, organização não governamental de direitos humanos.


Blitz da polícia no acesso ao túnel da Rua Alice
UPP Prazeres no acesso ao Túnel da Rua Alice, o mais antigo da cidade do Rio de Janeiro [Foto: Reprodução/Redes Sociais]

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