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  • Foto do escritorLeonardo Siqueira

Torcida única no futebol brasileiro: solução ou novo problema?

Atualizado: 6 de jun.

Pesquisadores apontam falta de eficácia da medida, implantada desde 2016 para combater violência nos estádios


Em São Paulo, é proibida a entrada de torcedores visitantes nos clássicos estaduais desde 2016 - Foto: Divulgação/Paulistão

Tarde de domingo no Maracanã, clássico carioca e festa das duas torcidas nas arquibancadas. Uma programação com a cara do Rio de Janeiro, mas que se torna menos frequente no futebol brasileiro devido ao aumento da implementação da torcida única nos estádios. Bahia, Goiás, Minas Gerais, Rio Grande do Norte e São Paulo são os cinco estados brasileiros que proíbem a presença de torcedores visitantes nos clássicos regionais. 


A torcida única foi adotada como uma tentativa de combate à violência no futebol.  Porém, os números não mostram a eficácia dessa medida. Segundo um levantamento do jornalista Rodrigo Vessoni, publicado em suas redes sociais, 384 mortes ligadas à violência no futebol foram registradas no Brasil até o mês de junho de 2023. A pesquisa aponta que, dessas mortes, 373 foram do lado de fora do estádio e 163 foram provocadas por casos de violência em dias sem jogos. O jornalista faz um acompanhamento, há mais de duas décadas, dos principais veículos de imprensa de todos os estados do país. Os dados são desde junho de 1988, quando foi noticiada pela primeira vez uma morte ligada ao futebol no Brasil.


A medida foi aplicada no país no ano de 2016, no estado de São Paulo, após a morte de um torcedor em confronto entre corintianos e palmeirenses. A decisão foi um pedido do Ministério Público para a Federação Paulista de Futebol (FPF). Em jogos entre Corinthians, Guarani, Palmeiras, Ponte Preta, Santos e São Paulo, disputados no estado, é permitida a entrada apenas dos torcedores da equipe mandante da partida. 


Para Raquel Sousa, pesquisadora do Laboratório de Análise de Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a torcida única não apresenta evidência científica de diminuição da violência, nem ajuda a combater casos fora dos estádios, seja nos arredores, nas prévias das partidas ou no deslocamento dos torcedores: “São vários fatores que a torcida única não resolve. Eu acredito que, por conta da observação dos dados, a adoção é muito mais uma tentativa de resposta para a sociedade do que algo com evidência para que se resolva o problema da violência no ambiente esportivo”, diz a pesquisadora.


Em janeiro deste ano, Cruzeiro e Atlético-MG entraram em um acordo para que o principal clássico de Minas Gerais seja disputado com torcida única até 2025. Uma decisão tomada apenas entre os clubes, sem interferência do Ministério Público, federação ou órgão de segurança. A medida vale para jogos dos torneios da Federação Mineira de Futebol (FMF) e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).


Em nota conjunta, os clubes anunciaram que o acordo temporário “visa estabelecer um diálogo entre clubes e torcidas, no sentido de buscar soluções definitivas na realização de clássicos nos estádios de Minas Gerais”. No último clássico de 2023, disputado na Arena MRV, casa do Atlético-MG, torcedores cruzeirenses relataram problemas no setor visitante do estádio. Houve depredação com quebras de cadeiras e outros estragos, além de um prejuízo de quase R$ 400 mil na Arena. Sem conseguirem resolver suas questões, os clubes adotaram a torcida única nos clássicos.


Dois meses depois do anúncio da medida, um homem foi morto em uma briga entre torcedores rivais na cidade de BH. Os times disputaram suas partidas no mesmo horário, às 16h30 do dia 2 de março, pelo Campeonato Mineiro. Por volta de duas horas antes dos jogos começarem, as torcidas se encontraram no caminho para os estádios, onde ocorreu o confronto.


Torcida única do Cruzeiro na disputa da final do Campeonato Mineiro contra o Atlético-MG - Foto: Staff Images/Divulgação/Cruzeiro

Aumento da violência entre integrantes da mesma torcida


Nicolas Cabrera, argentino e doutor em Antropologia pela Universidad Nacional de Córdoba (UNC), também enfatiza que a torcida única não diminuiu os casos de violência no Brasil. Assim como Raquel, ele chama atenção para o deslocamento dos confrontos entre torcedores para longe dos estádios, nos bairros e nos subúrbios das cidades. 


Além disso, Nicolas Cabrera acredita que essa medida gera ainda outro efeito colateral: “Com a proibição de outras torcidas, vemos que, em alguns casos, aumentou a violência entre torcedores do mesmo time. O futebol tem uma lógica da violência, onde parece que você precisa do inimigo. Quando esse inimigo deixou de ser a torcida  rival, começou a ser entre torcedores do mesmo time”, explica. No dia 7 de abril, um homem foi morto durante um confronto na saída do jogo entre Remo e Paysandu, em Belém. Segundo informações da Polícia Militar, a morte ocorreu em uma briga entre torcedores do próprio clube do Remo.

 

O Rio de Janeiro é um dos estados do país onde torcidas rivais podem frequentar as arquibancadas nos clássicos estaduais. No Campeonato Carioca, cada torcida detém 50% da carga de ingressos do estádio, e, em jogos no Maracanã, há setores reservados para a torcida mista, onde os torcedores dos dois times podem ficar juntos. Para Raquel Sousa, o convívio com o outro é uma importante experiência social no futebol, que se perde com a torcida única: “As relações presentes no futebol também são um espelho das que temos na sociedade. A institucionalização da torcida única deixa essas relações sociais mais pobres. Elas não têm o diverso, e isso se torna prejudicial a longo prazo”, comenta.


Em nota ao Rampas, a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj), afirma que a torcida única não é uma opção para os jogos no estado neste momento:


“No Rio de Janeiro, há uma união de Forças de Segurança, Federação de Futebol e clubes no sentido de preservar o espetáculo e o pensamento de que a torcida única não representa a paz. Nos estados com torcida única, a violência continua a imperar. Os confrontos não diminuíram, são previamente marcados. E alguns estados, inclusive, já estão buscando o fim da torcida única.  Mas é importante ressaltar que não são torcedores que batalham pelas ruas. Trata-se de uma guerra de facções, a qual nós abominamos. Somos favoráveis a medidas que permitam excluir esse mal”.


Torcedores rivais podem frequentar o mesmo setor do Maracanã em jogos do Campeonato Carioca - Foto: Rafael Arantes/Divulgação/Maracanã

Em busca de estratégias


Se os números mostram que a torcida única não é efetiva para o combate à violência no futebol, pesquisadores apontam diferentes estratégias que poderiam ser mais eficientes. Como ressalta Nicolas Cabrera, não há solução mágica para acabar com a violência, mas é possível melhorar a situação. 


Para ele, uma questão importante é o papel das forças de segurança: “As polícias criadas para trabalhar em espetáculos massivos ou estádios de futebol trouxeram bons resultados. Mesmo com muitas críticas ao Batalhão Especializado em Policiamento em Estádios (Bepe), do Rio de Janeiro, é uma polícia muito melhor do que, por exemplo, a Polícia Militar para pensar intervenções nos estádios”. Dessa forma, Nicolas acredita que a criação de polícias de proximidade treinadas para o futebol pode ser uma medida interessante.


Além disso, ele destaca a necessidade de punição individual dos responsáveis pelos casos de violência. De acordo com o levantamento de Rodrigo Vessoni das 384 mortes ligadas ao futebol no país, 263 casos estavam com seus assassinos impunes. Por fim, Nicolas afirma ser importante o diálogo com as torcidas, inclusive com as organizadas, para, juntos, definirem e planejarem as operações de segurança. 


Já Raquel, por sua vez, chama a atenção para as ações preventivas: "Prevenir é melhor do que tentar controlar alguma confusão posterior”. Para ela, uma medida importante seria a criação de espaços dentro dos próprios estádios, para a convivência entre os torcedores: “Um lugar para palestras sobre assuntos relacionados ao futebol e à sociedade, em que os torcedores possam estar em contato entre si. Espaços físicos onde haja uma integração com valorização cultural. Movimentos preventivos que auxiliam e colaboram para a convivência entre torcedores de diversos clubes seriam fundamentais”, conclui a pesquisadora.


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