A arte de Raphael Brunet, o @cansadodainternet, não cabe em um só lugar
Do subúrbio carioca à cena internacional, o artista diversifica sua produção em grafites, moda e ilustração; trabalho está em exposto em galeria no Centro do Rio e agora chega à revista Estar Magazine
Por: Mariana Guimarães

Foi no cenário de uma banca de jornal de rua, ao lado de um enorme Mickey inflável com a frase “Tu tá no RJ não é Disney”, que aconteceu o lançamento da segunda edição da revista Estar Magazine, em parceria com o artista Raphael Brunet, mais conhecido como Cansado da Internet (@cansadodainternet). O lançamento aconteceu na galeria A RUA, no bairro Santo Cristo, em setembro, durante a Semana de Arte do Rio.

Criada em Lisboa pelo artista e editor-chefe Igor Morozini, a Estar Magazine carrega no próprio nome a ideia de presença e circulação. Segundo Igor, “estar” representa justamente a possibilidade de ocupar diferentes lugares e reunir culturas de diversas partes do mundo em um mesmo espaço. Com textos em português e inglês, a Estar Magazine - Issue 2 reúne trabalhos de 25 artistas de diferentes países e transita por manifestações da cultura urbana, como arte de rua, skate, hip hop e moda. Entre os nomes presentes na publicação estão três brasileiros, incluindo Brunet.

A participação de Cansado na Estar Magazine acontece em meio a uma trajetória que vem se expandindo para diferentes linguagens e formatos. Criado no subúrbio do Rio de Janeiro, no bairro Penha Circular, Brunet começou a produzir de maneira espontânea, criando artes para divulgar o bar onde trabalhava, em Olaria. Em 2023, uma de suas ilustrações ganhou grande repercussão nas redes sociais: a imagem de um Mickey com chinelos, um cigarro na mão e um fuzil nas costas, acompanhada da frase “Tu tá no RJ não é Disney”. A obra passou a circular pelo Rio e por outras cidades e se tornou uma das marcas de seu trabalho.
A repercussão abriu caminho para novos projetos. Raphael criou a galeria itinerante Tu Tá no RJ, levando sua produção e referências da cultura das ruas para diferentes espaços. Depois, criou a El Fuego Studio, marca de roupas que incorporou a estética de sua arte. A trajetória inclui ainda uma instalação fixa na galeria A RUA, participações em eventos como o Rio Fashion Week e um desfile realizado em colaboração com a Kenner. A chegada à Estar Magazine se soma a esse percurso como mais um formato de circulação de sua obra.
Apesar da sucessão de projetos, Brunet não descreve sua trajetória como algo que tenha sido planejado para chegar a um destino específico. Para ele, a possibilidade de continuar avançando está ligada justamente à liberdade de fazer aquilo que acredita. “Eu só cheguei até aqui, só tô conseguindo evoluir, alcançar outros lugares porque eu faço o que realmente eu sou”, contou. E, se depender dele, ainda há muito a conquistar nesse percurso: “Eu acho que não tem limite não, acho que eu não vou parar nunca”.

Brunet diz ter encontrado um propósito no caminho: levar outras pessoas com ele. A ideia ganhou força à medida que passou a receber mensagens de pessoas que nunca haviam tido a oportunidade de participar de projetos ou eventos como aqueles em que passou a estar presente. “Meu propósito é fazer o que eu faço, arte, roupa, moda, evento, mas poder levar as pessoas que estão comigo, que precisam, que não têm a visibilidade que merecem”, afirmou.
Ele lembra de um fotógrafo que participou de um de seus eventos sem nunca ter fotografado uma ocasião daquele tipo. Depois da experiência, o profissional agradeceu ao artista por ter aberto as portas e dado a ele a oportunidade de realizar um trabalho que sempre quis fazer. “Isso me deu um propósito. Isso que me move”, contou.
É uma perspectiva que ajuda a explicar por que, mesmo diante do cansaço que demonstra em relação à própria cena artística, Brunet não fala em parar. A produção pode mudar de formato, mas a intenção permanece: continuar criando e, ao mesmo tempo, abrir espaço para que outras pessoas possam ocupar lugares que antes pareciam distantes.

A trajetória do artista também evidencia a força criativa que nasce das ruas e das periferias brasileiras. Mais do que um conjunto de referências estéticas, a cultura urbana reúne formas próprias de criar e comunicar.

Essa circulação também ajuda a explicar a aproximação cada vez maior entre arte urbana e moda. O streetwear, estilo de vestimenta historicamente associado às ruas e à cultura jovem, tornou-se também uma linguagem capaz de chegar a galerias, marcas e passarelas sem abandonar suas referências de origem. No Rio, esse movimento ganha contornos próprios ao incorporar códigos da cidade, da periferia e da cultura carioca. Em setembro, um pouco antes do lançamento da revista , Brunet levou essas referências para um desfile-performance realizado no Museu de Arte do Rio, em uma parceria entre a El Fuego Studio e a Kenner. É nesse cruzamento entre rua e outros circuitos culturais que a presença de artistas brasileiros em espaços internacionais ganha outra dimensão.
Na última semana de setembro, duas semanas após a chegada da revista, Brunet levou a El Fuego Studio para a Paris Fashion Week, ampliando seu alcance internacional. Se a Estar registra onde o artista está hoje, os próximos projetos deixam aberta a pergunta sobre até onde seu trabalho ainda pode chegar. Para o Cansado da Internet, a questão parece nunca ter sido encontrar um lugar definitivo, mas continuar ocupando novos espaços sem deixar para trás aquilo que o colocou em movimento.
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