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A banca não é mais só de jornal

há 6 horas
4 min de leitura

Impactados pela drástica diminuição no consumo de jornais e revistas impressos, donos de bancas têm diversificado seus negócios para sobreviver nas ruas do Rio


Por Alice Novaes


Banca de jornal na rua Delfim Carlos, em Olaria. Foto: Alice Novaes
Banca de jornal na rua Delfim Carlos, em Olaria. Foto: Alice Novaes

Dono de uma banca de jornal em Olaria, na zona norte do Rio, Auanaua Mendes, de 45 anos, testemunhou na última década a queda nas vendas de jornais verificada em todo o mundo - e no Rio não foi diferente. “Tivemos que dar um jeito de vender outras coisas”, afirma. Com isso, a principal renda da banca que ele comanda desde 2015 deixou de ser oriunda da venda de jornais. “Com o avanço da internet, acho que as pessoas foram perdendo o interesse em ler”, diz ele. Carla Amorim, de 44 anos, dona de uma banca também em Olaria há pouco mais de um ano, compartilha do mesmo cenário. “Antigamente as bancas vendiam muitos jornais e revistas, mas hoje em dia a gente precisa adicionar outras coisas”, ela diz.


As estratégias de sobrevivência têm sido variadas. Na banca de Auanaua, ele adicionou biscoitos, doces, refrigerantes e aparelhos eletrônicos para vender. “Se em um dia de semana eu recebo dez exemplares do Extra, vendo cinco. Em 2015 chegava a vender uns vinte, vinte e cinco”, ele relata. 


Eletrônicos e videogames para venda na banca de Auanaua. Foto: Auanaua Mendes.
Eletrônicos e videogames para venda na banca de Auanaua. Foto: Auanaua Mendes.

Na banca de Carla, além dos impressos Extra, Meia Hora, O Dia e O Globo, ela vende outros itens como doces, biscoitos, panos de prato, bolsas, isqueiros, estojos, chaveiros e meias. A vendedora afirma perceber como as bancas de jornais têm se reinventado para sobreviver e conta que cada item novo adicionado é uma forma de ajudar os vendedores a se manterem. “Se aqui vendesse só jornal, honestamente, eu estaria passando fome. Temos colocado [na banca] tudo o que podemos imaginar para trazer um dinheiro a mais. Todo dia é uma batalha para manter o ponto”, desabafa.


Biscoitos, doces e panos de prato à venda na banca de Carla Amorim. Foto: Carla Amorim
Biscoitos, doces e panos de prato à venda na banca de Carla Amorim. Foto: Carla Amorim
Revistas e gibis disponíveis para venda na banca de Carla Amorim. Foto: Carla Amorim
Revistas e gibis disponíveis para venda na banca de Carla Amorim. Foto: Carla Amorim

Por causa da licença, as bancas ainda precisam oferecer jornais e revistas, embora seja autorizado pela Lei nº 3.425, de 22 de julho de 2002 a comercialização de outros itens de conveniência – de artigos de tabacaria e papelaria a acessórios, lanches industrializados e bebidas. Carla relata que vende no máximo cinco jornais por dia, quase sempre comprados por homens idosos. “Não vejo jovem nenhum comprar. A pessoa mais nova que comprou devia ter uns 40 anos”, detalha.


Localizada na rua Uranos, no bairro de Olaria, com movimento de comércios e escolas por perto, a vendedora observa que o seu ponto poderia ser melhor. “Se uma pessoa pega uma banca e desanima quando as vendas não crescem, ela pode entrar até em depressão. Existem dias que as vendas são baixas, mas tento me lembrar de que vou ficar bem. Se não der certo, faço outros planos, adiciono outras coisas para vender”, diz Carla.


Dados do Instituto Verificador de Comunicação (IVC) apontam queda acentuada na circulação de jornais impressos no Brasil. De 2024 para 2025, a venda de exemplares físicos caiu 32,6%. O Globo, por exemplo, que há uma década contabilizava 183.403 exemplares em circulação, fechou 2025 com 43.888. Outros impressos, como Extra, em 2015 vendeu 115.930 cópias físicas. Esse número caiu para 13.035 no último ano. Já o Meia Hora, que há onze anos contabilizou  85.116 exemplares vendidos, caiu para 16.247 no ano passado.


A queda na venda dos impressos, acelerada na última década, deixou marcas de nostalgia na vendedora Carla. Ela se recorda com carinho de quando contemplava as bancas repletas de jornais, e do movimento que existia de leitores, comprando e lendo os jornais pendurados na banca. Outra lembrança que guarda com carinho é a das edições que colecionava para trocar por brindes que destinava aos filhos. “Era muito bom. Gostaria de ver a minha banquinha lotada com todo mundo querendo jornal”, comenta. 


O Rampas visitou outro bairro próximo para verificar como as bancas se mantêm por lá. Os resultados encontrados são parecidos com os das bancas em Olaria. Na rua Santa Basilissa, no bairro da Penha, a chamada Banca du Zé não consegue sobreviver só de jornal, de acordo com a vendedora Renata Santana, de 45 anos, há seis sócia da banca. A maior fonte de renda do negócio é oriunda do serviço de impressão, além, claro, da venda de outros produtos, como aparelhos eletrônicos, materiais escolares, brinquedos e guloseimas.


Placa da Banca du Zé, na Penha. Foto: Alice Novaes
Placa da Banca du Zé, na Penha. Foto: Alice Novaes

“A gente se reinventa a cada dia”, afirma Renata. O movimento das escolas, padarias e farmácias nas proximidades favorece as vendas, embora a população que ainda procura por cópias físicas seja majoritariamente a de idosos, que diariamente demandam pelo serviço. A clientela fiel ainda tem garantido a venda de uma média de 35 exemplares de jornais por dia, número razoável perto das demais bancas incluídas nesta reportagem. Renata lembra que a banca está instalada na Penha há aproximadamente cinquenta anos e que, há quinze, ainda se sustentava somente com jornais e revistas.


“Hoje em dia as pessoas não querem ler jornal físico. Depois do crescimento da internet, tudo se tornou digital. Aqui no bairro tem muitos idosos, alguns deles compram três ou quatro jornais por dia. Só que o percentual do jornal é muito baixo. Então, hoje em dia não dá pra viver só disso”, explica Renata, “As bancas de jornais se reinventam, se você for em algum outro lugar vai ver até banca que é tipo supermercado.”


Banca du Zé vista do lado de fora. Foto: Alice Novaes
Banca du Zé vista do lado de fora. Foto: Alice Novaes

Enquanto a circulação dos impressos diminui, a assinatura digital de O Globo, por exemplo, cresceu significativamente no último ano. De acordo com o IVC, houve um aumento de 4,5% nas assinaturas do veículo digital. O mesmo, porém, não aconteceu com o Extra, que teve queda de 23,7% nas assinaturas de 2024 até o último ano.





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