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  • Foto do escritorMiguel de Paula

A culpa não é só do El Niño

Atualizado: 6 de jun.

Especialistas explicam um dos fenômenos responsáveis pelas enchentes no Rio Grande do Sul teve efeitos agravados pelas mudanças climáticas


O El Niño é um dos responsáveis pelas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul no último mês. O fenômeno climático intensifica a força das chuvas, que se tornam mais destrutivas. Porém, apesar de contribuir para a tragédia no sul do país, o El Niño é um evento natural do planeta, como explicam os especialistas entrevistados pelo Rampas. Todos os seus efeitos estão sendo agravados pela mudança climática e pelo aquecimento global.


Cidade gaúcha inundada pelas enchentes
As enchentes no Rio Grande do Sul completaram, na última segunda-feira (13), 15 dias./ Divulgação: Agência Brasil - EBC

Jhonny Chavão, professor de Geografia graduado pela Faculdade de Formação de Professores (FFP) da Uerj, explica como acontece o El Niño: “Ele é definido pelo aquecimento anormal e persistente da superfície do Oceano Pacífico na linha do Equador e ocorre em intervalos irregulares de cinco a sete anos. Tem normalmente duração de um ano a um ano e meio, se iniciando por volta dos últimos meses do ano. Causa transformações na circulação atmosférica e interfere no regime de chuvas e na temperatura.”, esclareceu o professor. 


Em relação ao fenômeno La Niña, Chavão explicou que acontece o contrário: “A La Niña é o resfriamento das águas do Pacífico na porção Equatorial e ocorre em intervalos de dois a sete anos, e, normalmente, o evento dura de nove meses a um ano”.


Ambos os eventos climáticos estão relacionados à alteração da temperatura e ao volume de chuvas nas regiões do Sul do país. Porém, o professor de geografia física da Uerj Antonio Carlos Oscar Júnior alerta que estes fenômenos naturais estão sendo intensificados por outras mudanças climáticas globais. “Em situações de El Niño, há um enfraquecimento dos ventos de leste para oeste, diminuindo o empilhamento de águas na costa australiana/ilha de Darwin. Com isso, as águas próximas da costa peruana ficam mais aquecidas que o normal, deslocando as áreas de instabilidade para o litoral leste da América do Sul e promovendo repercussões no clima de todo o mundo. Entretanto, as mudanças climáticas globais atuam na intensificação dessas repercussões dos impactos do El Niño (assim como a La Niña também)”, pontuou Antônio Carlos.


O El Niño tem previsão para encerrar entre abril e junho de 2024, de acordo com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). / Divulgação: Metereored – Weather Forecast.

Como um dos grandes vilões dos desastres ecológicos que estão ocorrendo no sul, o El Niño também foi responsável pelo período de temperaturas mais altas no país. Em 2023 e 2024, com o aquecimento anormal da superfície dos oceanos, as ondas de calor são mais recorrentes devido à geração de mais vapor. Para Chavão, este foi o fator principal para que o Brasil sofresse com altas temperaturas em boa parte do ano de 2023.


“A gente entende que só no ano passado foram 65 dias de calor extremo, o que representa quase 20% do ano. Isso ocorreu por causa da elevação da temperatura dos oceanos, que, junto com o aumento dos gases do efeito estufa, esquenta mais ainda a atmosfera, gerando esse calor excessivo, trazendo eventos climáticos adversos aos padrões históricos que estamos acostumados”, afirmou o professor.


Ainda que o evento climático seja o protagonista da catástrofe, a falta de investimento em infraestrutura de contenção e escoamento nas cidades gaúchas é um dos pontos que agrava a situação. Oscar Júnior, da Uerj, afirma que o enfrentamento dessas questões envolve questões de pautas ambientais, governamentais e geográficas.


“Todos esses mecanismos naturais, potencializados por uma atmosfera mais energética, dadas as mudanças climáticas, nos ajudam a entender o papel do El Niño e das mudanças climáticas nas tragédias do Rio Grande do Sul. Mas certamente o grau de impacto também é explicado pela ausência de investimento em infraestrutura e planos de adaptação e mitigação, investimento na infraestrutura de contenção existente e o grande negacionismo por parte de alguns setores da sociedade brasileira”, afirmou o professor.


Como ajudar as vítimas


Até o fechamento desta reportagem, os números divulgados pela Defesa Civil indicam que 2.131.968 pessoas foram afetadas pelas enchentes, sendo que 538.245 estão desalojadas e 76.580 em abrigos. São 155 mortos e 89 desaparecidos até o momento. Ao todo, 449 municípios foram atingidos. Para ajudar as famílias acometidas pela enchente, acesse o site oficial do “ParaQuemDoar” e colabore com a quantia que desejar.



Imagem de satélite mostra áreas de Porto Alegre atingidas pelas cheias
Mapa das áreas atingidas pelas enchentes no Rio Grande do Sul. Divulgação: IPH/UFRGS

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro também coletou doações, como alimentos não perecíveis e produtos de limpeza. Para mais detalhes, acesse a reportagem do Rampas sobre a arrecadação.








 

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