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“Abrem-se as cortinas”: a luta para reabrir o Cine Vaz Lobo

há 19 horas
5 min de leitura

Militância de moradores do subúrbio carioca em torno da preservação e restauro do antigo cine-teatro impediu sua demolição e garantiu a desapropriação do edifício; desafio passa a ser a criação de um centro cultural


por Leandro Climaco Mendonça


No dia 6 de agosto deste ano, a prefeitura do Rio de Janeiro publicou, no Diário Oficial do Município, decreto (nº 58.490) há muito aguardado por um grupo de moradores dos bairros de Vaz Lobo e Irajá, na Zona Norte da cidade: o que desapropria, para fins de utilidade pública, um imóvel instalado na Av. Vicente de Carvalho, nº 4, em Vaz Lobo. Trata-se de um edifício histórico em estilo art déco que abrigou, entre 1941 e 1986, o Cine Vaz Lobo. Tal decisão, mais do que a expressão de um interesse repentino da prefeitura, é o resultado de militância de moradores da região, que há mais de dez anos lutam para garantir a preservação e o restauro do prédio, com a futura criação de um centro cultural no edifício do antigo cinema.


Fachada degradada do Cine Vaz Lobo. Foto: Leandro Clímaco/Rampas.
Fachada degradada do Cine Vaz Lobo. Foto: Leandro Clímaco/Rampas.

A historiadora Maria Celeste Ferreira, de 64 anos, moradora de Irajá envolvida na defesa pela preservação do cinema, conta que o ponto de partida para a criação do movimento ocorreu quando dois antigos moradores da região, Gilson Gusmão, advogado de 82 anos, e Ronaldo Luiz-Martins, aposentado, se uniram em torno da criação do IHGBI, o Instituto Histórico Geográfico da Baixada de Irajá. O coletivo, composto por pesquisadores voluntários interessados na investigação sobre diferentes dimensões da vasta Baixada de Irajá, correspondente a 38 bairros da Zona Norte do Rio, atuou articulando diferentes frentes de ação para a preservação do edifício. E o primeiro desafio ocorreu quando a prefeitura apresentou, em 2009, projeto de construção de corredor do BRT Transcarioca, cujo traçado rasga diferentes bairros das Zonas Sudoeste e Norte da capital, conectando a Barra da Tijuca ao Fundão e o aeroporto do Galeão. Em Vaz Lobo, o projeto original resultaria na demolição do edifício do Cine Vaz Lobo.


Foi quando a arquiteta Fernanda Costa, então moradora de Irajá, procurou Ronaldo Luiz-Martins para alertar sobre os riscos que o prédio histórico corria, relembra Celeste Ferreira: “Ela vai procurar o Sr. Ronaldo e avisa: olha, o cinema está ameaçado de demolição, o BRT vai passar por cima, porque é preciso abrir".  A partir desse momento, o IHGBI mergulha na história do cinema e passa a articular uma ação coletiva voltada para a conscientização dos habitantes locais. E uma das primeiras iniciativas foi a busca por sensibilizar a prefeitura, então sob o comando de Eduardo Paes, em seu primeiro mandato (2009-2012), para  mudar o traçado do BRT no bairro. Celeste conta que a arquiteta apresentou projeto alternativo à administração municipal, focado na proteção e em estudos de possibilidades de uso do imóvel. A prefeitura acatou as sugestões e, com isso, imóveis do outro lado da rua do Largo de Vaz Lobo, entre residenciais e um templo evangélico, entraram na rota das demolições. O antigo Cine Vaz Lobo se mantinha, assim, de pé.


Com a preservação do edifício garantida, o movimento passou a articular outras frentes de ação. Na revista digital do IHGBI, criada no início da década de 2010, a seção de agenda trazia informes sobre as ações fomentadas pelo grupo; colunas abordavam a importância do Cine Vaz Lobo na formação de plateias; e cobranças eram feitas às autoridades. Até um folder  foi produzido pelo instituto e distribuído à população, sob o título “Abrem-se as cortinas”, contando a história do conjunto arquitetônico do cine-teatro e defendendo a criação do Centro Cultural Cine Vaz Lobo de Artes Cênicas, Áudio e Vídeo. 


Folder produzido pelo IHGBI no contexto das comemorações dos 75 anos do Cine Vaz Lobo, em 2016. Foto: Leandro Clímaco/Rampas.
Folder produzido pelo IHGBI no contexto das comemorações dos 75 anos do Cine Vaz Lobo, em 2016. Foto: Leandro Clímaco/Rampas.

Suburbano, o geógrafo e cineasta  Luiz Cláudio, de 54 anos, criador do cineclube ‘Subúrbio em Transe’, se incorporou ao movimento logo no início, em 2010, entusiasmado com a ideia de o cinema frequentado pelo seu pai voltar a funcionar. Passou a gravar atos públicos promovidos pelo grupo e a coletar depoimentos de antigos frequentadores, especialistas e militantes. O trabalho rendeu curta e um média metragem contando a história dessa mobilização e a importância do cinema para o subúrbio carioca. O curta, financiado com verba de edital do Ministério da Cultura, ficou pronto em 2015 e traz longa entrevista conduzida por Celeste Ferreira com um dos fundadores do IHGBI, Ronaldo Luiz-Martins, que compartilha suas memórias enquanto morador do bairro e frequentador do cinema. O média metragem, de 2019, além de trazer inúmeras entrevistas e depoimentos com entusiastas do projeto, traz imagens das diversas ações promovidas pelo grupo, como o ato em frente ao cinema e a coleta de assinaturas pela preservação do imóvel no Mercadão de Madureira, tornando-se um documento fundamental para a preservação da memória dessa militância. 

Luiz Cláudio destaca que “sem esse movimento o cinema não estaria de pé”, lembrando que há políticos com base eleitoral na região que tentam surfar na onda da preservação sem fazer nenhuma menção ao grupo local que vem militando pelo retorno do Cine Vaz Lobo.


Uma das ações do coletivo foi a organização de ato em frente ao prédio do Cine Vaz Lobo. No detalhe, faixa pede pela preservação e recuperação do edifício em estilo art déco. Imagem: reprodução média-metragem “Cine Vaz Lobo”, de Luiz Cláudio.
Uma das ações do coletivo foi a organização de ato em frente ao prédio do Cine Vaz Lobo. No detalhe, faixa pede pela preservação e recuperação do edifício em estilo art déco. Imagem: reprodução média-metragem “Cine Vaz Lobo”, de Luiz Cláudio.
Coleta de assinaturas pela preservação e restauro do prédio do Cine Vaz Lobo, realizada no Mercadão de Madureira. Imagem: reprodução do média-metragem “Cine Vaz Lobo”, de Luiz Cláudio.
Coleta de assinaturas pela preservação e restauro do prédio do Cine Vaz Lobo, realizada no Mercadão de Madureira. Imagem: reprodução do média-metragem “Cine Vaz Lobo”, de Luiz Cláudio.

O advogado Gilson Gusmão, um dos fundadores do IHGBI, relembra a importância do cinema como um dos pontos de encontro do bairro. Ainda adolescente, passou a frequentar a sala do Cine Vaz Lobo, traço que considera fundamental para a sua formação. Lembra que um dos filmes mais marcantes que assistiu foi “O Cangaceiro”, de 1953, da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, baseado na história de Lampião e um dos maiores sucessos do cinema brasileiro na época. Também destaca as chanchadas, comédias musicais de enorme popularidade nos anos 1940 e 1950 produzidas pela Atlântida Cinematográfica. Gusmão lembra que o cinema foi perdendo força ainda nos anos 1970, e especialmente nos anos 1980, quando o Cine Vaz Lobo passou a exibir filmes pornográficos. Seu fechamento definitivo ocorreu em 1986. Herdeiros do empresário Antônio Mendes Monteiro, que criou o cine-teatro em 1941, continuaram morando no imóvel até recentemente, que também possui apartamentos residenciais. Não se sabe ao certo como os herdeiros receberam a notícia da desapropriação.


Apesar do alívio com a decisão da prefeitura, Celeste Ferreira, Luiz Cláudio e Gilson Gusmão seguem atentos com os próximos passos. O grupo, junto com o IHGBI, defende que o governo garanta o restauro do edifício e da sala de cinema, originalmente com capacidade para 700 pessoas, “com palco e paredes convergentes com sancas de iluminação decorativa, considerada à época o mais belo jogo de luzes dos cinemas cariocas”. Pleiteia ainda a criação de espaços para exposições e eventos, doze salas voltadas para a formação nas áreas de TI e audiovisual, estúdio de formação em dança, cafeteria, além da reurbanização do entorno do cinema. 


O Rampas entrou em contato com a prefeitura para saber se já há um esboço de projeto a ser adotado para o Cine Vaz Lobo. Em nota, a Riofilme informou que o Cine Vaz Lobo faz parte da segunda fase do projeto ‘Reviver Cinema’, voltado ao restauro de antigos cinemas de bairro da cidade. A nota detalha que o cinema de Vaz Lobo terá 250 lugares, mas não especificou se será criado um centro cultural, como deseja o movimento. Além do Cine Vaz Lobo, a nota afirma que mais dois cinemas de rua já foram chancelados pela administração nesta segunda fase: o Cine Matilde, em Bangu, com duas salas e um teatro, totalizando 470 lugares, e o Cine Costinha, no Cachambi, com duas salas totalizando 266 lugares. A nota, por fim, afirma que outros antigos cinemas de bairro estão sendo mapeados para futuro restauro pelo “Reviver Cinema”. 


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