Alta rotatividade, baixa especialização e pejotização desafiam jovens na busca por um bom emprego
Índices de desemprego entre jovens reduzem no Brasil, mas cargos mais ocupados pela população mais nova são de baixa especialização e alta rotatividade
Por Larissa Carvalho e Rodrigo Lima
Durante anos a faculdade pareceu ser a alternativa mais clara e segura em direção à construção de uma carreira e à conquista de estabilidade. No entanto, baixos salários, jornadas abusivas, processos seletivos longos, condições precárias de trabalho fazem com que muitos jovens estejam insatisfeitos em seus empregos.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), realizada pelo IBGE, mostram que caiu a proporção de jovens desocupados - que não trabalham, não estudam e nem se qualificam. Em 2019 o contingente de desocupados era de 11 milhões, em 2025, ainda segundo a pesquisa PNAD, esse número caiu para 8,2 milhões, com uma redução de 25,9%. Ainda assim, é importante lembrar que menores taxas de desemprego não significam, necessariamente, melhores condições de vida e trabalho.

Flávio Araújo tem 25 anos, está no sétimo período do curso de Letras e divide as despesas da casa com a namorada. O estudante, que voltou recentemente de um intercâmbio, é bolsista em um projeto de extensão. Além disso, ele também faz “bicos” pontuais, relacionados e não relacionados à sua área de formação, sempre que surge a oportunidade.
Questionado sobre sua perspectiva do mercado de trabalho, Flávio afirmou que há boas vagas disponíveis, mas que além de elas estarem longe de ser a maioria, há também uma grande disparidade entre as expectativas dos jovens e das empresas. “Isso se reflete até nas brincadeiras e memes que a gente vê hoje em dia sobre os jovens da Geração Z que querem trabalhar em condições ‘fáceis’. Muitas empresas têm esse discurso de “vestir a camisa”, mas não entendem que com mais acesso à informação e qualificação, muitos jovens não querem mais aceitar certas explorações e abusos.” diz.
O estudante destaca ainda que, com a alta procura e grande número de candidatos, sente que só a graduação já não será mais suficiente: “Muitas vezes, para conseguir boas oportunidades, só o bacharelado e a licenciatura não bastam. A verdade é que as empresas querem o melhor dos dois mundos: uma pessoa nova, super experiente e com muitas qualificações. Isso é paradoxal, porque o estudo e domínio de qualquer área exige muita dedicação. É injusto com quem não pode dedicar tanto tempo à especialização, mas é a realidade que a gente vive, infelizmente”.
Segundo dados do Diagnóstico da Juventude Brasileira, pesquisa realizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), dos 13,9 milhões de jovens que trabalham, 84% ocupam funções que exigem pouca qualificação. Essa realidade, além de favorecer a alta rotatividade e a baixa possibilidade de crescimento, mostra que a luta por melhores oportunidades e condições de trabalho ainda é necessária e há muito que pode ser feito para orientar, incentivar e impulsionar essa parte da população que está iniciando suas vivências no mercado de trabalho.
Uma geração que quer e vai além
A emblemática canção “comida” da banda de rock brasileira Titãs, apesar de ter sido escrita em 1987, ilustra muito bem a relação dos jovens da Geração Z com o mercado de trabalho. Na música, Arnaldo Antunes proclama “ A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Cada vez mais, as novas gerações buscam por reconhecimento, oportunidades, propósito e qualidade de vida e, ao contrário do que muitos pensam, isso está muito mais associado à compreensão de que uma vaga de emprego é apenas uma das muitas partes que compõem a sua vida, do que à suposição de que “os jovens não gostam de trabalhar”.
Dados da pesquisa Carreira dos sonhos, produzida pela plataforma de recrutamento Cia de Talentos, mostram que a geração Z apresenta maiores índices de preocupação, cansaço e ansiedade, comparado às gerações anteriores.

Para Maria Clara Nascimento, de 24 anos, concluinte de Marketing, esse cansaço é diário. A jovem compartilha um apartamento com o namorado e se divide entre uma vaga PJ, um empreendimento autônomo com alguns clientes e as obrigações domésticas. Tudo isso para manter as contas em dia. “Eu encaro o desafio de crescer e me estabelecer na vida como uma necessidade que não posso, de forma alguma, negligenciar. Isso acaba gerando muita autocobrança, ansiedade e um estado constante de urgência”, declara ela.
Na opinião da estudante, que ama trabalhar em sua área de formação e não pensa duas vezes antes de investir tempo e dinheiro na expansão de sua qualificação, o mercado de trabalho tem ficado cada vez mais exigente, os processos admissionais mais longos e exaustivos e as remunerações e condições de trabalho, por outro lado, não ficaram melhores. “Eu me sinto satisfeita com meu trabalho por gostar do que faço, mas não me sinto segura ou estabelecida, especialmente se tratando de remuneração e benefícios. Nesse cenário, vejo a estabilidade como um sonho possível, mas ainda distante”, relata.
Em entrevista ao IHU, publicada em 2021, a economista Lucia Garcia, do Dieese, analisou justamente o fenômeno dos jovens que chegaram à universidade durante um período de expansão educacional e depois encontraram dificuldades para transformar a formação em inserção profissional, problema resumido pela expressão “diploma, mas não emprego”.
O estudante de Letras Flávio Araújo acredita que, atualmente, na sua área de atuação, conseguir um emprego com boas condições que permitam estabilidade, é uma tarefa mais difícil, até mesmo, do que conseguir a primeira oportunidade. “ Você pode conseguir uma ótima vaga em uma escola particular, mas não é muito garantido, porque pode ser mandado embora a qualquer momento. Pode passar para concurso, mas é muito concorrido. É tudo muito incerto… Muito difícil conseguir estabilidade e segurança porque são muitas variantes. Ainda mais sendo professor, tendo que trabalhar em colégios diferentes para complementar a renda, trabalhando o dia inteiro…”
Ainda assim, o estudante afirma não ter grandes preocupações sobre o mercado de trabalho e se sente otimista em relação a futuras oportunidades. Sua maior preocupação, tendo que conciliar trabalho, estudos e obrigações domésticas é ter o tempo necessário para se dedicar e aprimorar suas habilidades no domínio de uma língua estrangeira e na prática de lecionar.
Precisamos falar sobre a pejotização
Os contratos PJ têm se tornado expressivos em uma variedade cada vez maior de setores. O que antes era uma exceção, cresce em números alarmantes e fica cada vez mais perto de virar uma regra. Esse é um modelo, teoricamente, sem vínculo empregatício. Para o empregador, oferece a vantagem de uma redução drástica nos encargos trabalhistas e tributários. Para o prestador de serviço pode oferecer uma remuneração um pouco acima do piso salarial, mas nem sempre. O custo? Os direitos trabalhistas.
Laura Matos tem 25 anos e é terapeuta ocupacional. Atualmente, ela trabalha como PJ e afirma que o modelo de contratação compensa porque, na sua área de atuação, é comum que as empresas, a fim de ter menos despesas com os funcionários, ofereçam o triplo e, até, o quíntuplo do piso salarial na contratação nesse modelo. Ainda assim, Laura frisa que não é um trabalho fácil, já que lida, principalmente, com infância e neurodivergências. Para ela, trabalhar como PJ também oferece muitas desvantagens, como a impossibilidade de adoecer, já que, quando isso acontece, ela perde completamente sua renda. Além disso, ela destaca que, apesar da modalidade que foi contratada, precisa lidar com diversas exigências que existem no contrato CLT, como cumprir horários, horas de almoço estabelecidas e participar de reuniões.
“O que ainda acho ruim é precisar ter vários vínculos PJ para não ficar tão instável. Se eu sair de um lugar, ainda tenho a renda de outro. Só agora, depois de algum tempo no mercado e com mais reconhecimento, estou conseguindo fazer alguns atendimentos particulares (...) Acho que existe uma romantização do PJ que não corresponde à realidade de muitos jovens. Se o mundo do trabalho fosse mais justo, eu aceitaria muito mais um contrato CLT com condições melhores do que um vínculo que tenho pois, na prática, acaba retirando direitos sem necessariamente tirar as obrigações.” pontua ela.
Mudança de perspectivas e a coragem para recomeçar
Quando a decisão do que fazer pelo resto da vida é definida tão cedo, ainda no final da adolescência, alguns jovens precisam lidar com um desafio a mais, seja por falta de orientação adequada ou, simplesmente, por uma mudança de perspectiva. O que fazer quando se percebe que o caminho profissional escolhido não corresponde a todos os planos, sonhos e expectativas?
Mauricelia Lopes tem 30 anos, é economista e moradora da Rocinha. Hoje, atua em uma área que ama e se sente satisfeita com seu emprego, mas o caminho até a realização profissional não foi fácil nem linear. Ainda no ensino médio, Mauricelia escolheu qual carreira iria seguir. Decidiu cursar “Química Industrial”, área pela qual tinha grande interesse, mas ainda não entendia profundamente do que se tratava. Conforme frequentava as aulas, ficava cada vez mais claro que não era aquele caminho que gostaria de seguir. “O curso na UFRJ tem aproximadamente 90% da formação semelhante à de um engenheiro químico. Além disso, o ciclo básico de uma engenharia é praticamente igual para todas as áreas. Eu não gostei de nada daquilo e percebi que não era o que eu queria para mim.”
Para Mauricelia a decisão de mudar de área era clara, mas, mesmo assim, não foi fácil de ser tomada. Antes de trancar a faculdade, a jovem passou por muitos problemas acadêmicos e pessoais e acabou enfrentando uma série de reprovações que a deixaram desanimada e insegura. “Eu não consegui dar conta, era muito puxado, por mais que fosse em uma universidade federal concorrida, entendi que aquele lugar não era pra mim”, declarou ela.
Ela conta que sua confiança foi abalada e que teve medo de, caso prestasse novamente o vestibular, passar pelos mesmos problemas em um novo curso. Por um tempo, decidiu trabalhar no comércio apenas para não ficar desocupada, mas, em 2018, reuniu a coragem que precisava para recomeçar. No mesmo ano, foi aprovada no curso de Economia, na UERJ, onde iniciou sua nova trajetória acadêmica e profissional.
Ao refletir sobre a própria caminhada, a economista aconselha jovens que estejam infelizes com a carreira escolhida a não terem medo de tentar novamente. Para ela, reconhecer que uma escolha não deu certo e buscar novos caminhos pode transformar uma pessoa: “Sua coragem de recalcular a rota pode mudar toda a história.”
Adrielly Ramos decidiu recomeçar a trajetória profissional aos 30 anos. Ela também é moradora da Rocinha e, atualmente, estuda em um pré-vestibular social na comunidade. Adrielly concluiu o ensino médio em 2015 e, além de não ter uma orientação profissional, se sentiu pressionada pelo pai a tomar uma decisão sobre qual carreira seguir. Diante disso, acabou escolhendo fotografia, área pela qual já nutria carinho, como um hobby. Com cerca de quatro anos de experiência profissional, a jovem percebeu que precisava repensar suas escolhas. Para ela, o alto custo dos equipamentos e das manutenções acabou sendo um dos principais fatores para o questionamento sobre a profissão.

Após decidir mudar de área, Adrielly voltou a ser estudante no pré-vestibular social Rede Só Cria de Educação Popular, na Rocinha. A nova escolha profissional é Educação Física e seu novo objetivo é se especializar para trabalhar diretamente com crianças atípicas.
Aos 30 anos, ela afirma que ainda se considera jovem para iniciar uma nova trajetória. Para ela, a idade não deve ser um obstáculo para quem deseja mudar de carreira e buscar novos caminhos profissionais. “Vou fazer a segunda graduação sim, e se der a louca, eu faço outra, não necessariamente preciso vingar na área, é mais para adquirir conhecimento”, afirma .

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