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Aluguel e juros em alta adiam saída de cariocas da casa dos pais

há 21 horas
5 min de leitura

Com aluguéis 38% mais caros e menos imóveis disponíveis, jovens do Rio dividem apartamento, vão para regiões mais afastadas ou ainda moram com a família


Por Carolina Coutinho


Anúncios de imóveis para aluguel próximos à Uerj, no Maracanã, expostos em mural na universidade - Foto por: Carolina Coutinho
Anúncios de imóveis para aluguel próximos à Uerj, no Maracanã, expostos em mural na universidade - Foto por: Carolina Coutinho

A vida não anda fácil para o jovem morador da cidade do Rio de Janeiro que, depois de arrumar emprego, quer sair da casa dos pais. Em três anos, o aluguel residencial no município subiu 38,09%, segundo o Índice FipeZAP. No mesmo período, o preço de venda dos imóveis prontos subiu 11,34%. A alta é mais intensa entre os apartamentos de um quarto — os mais procurados por quem quer morar sozinho gastando pouco —, pois o metro quadrado desse tipo de imóvel subiu 51,4% nos últimos três anos, segundo pesquisa do QuintoAndar publicada na BBC News Brasil. 


Gustavo Coppola, de 24 anos, estudante de História da Uerj, faz parte do grupo que conseguiu sair de casa. Ele dividia um quarto com dois irmãos pequenos numa casa de dois quartos e, aos 20 anos, decidiu buscar mais privacidade e independência. Como já estava empregado, o processo foi menos desgastante. As contas, porém, vieram: "Definitivamente compras no mercado e gastos com a casa, como luz, reparação de coisas que quebram, algumas bobeiras, como itens que você não faz ideia que são caros ou difíceis de achar". Para sair, precisou ir para um imóvel menor, mas permaneceu no bairro onde nasceu, Vila da Penha.


Quem fica na casa da família integra a chamada "geração canguru": jovens de 25 a 34 anos que seguem com os pais mesmo depois de entrarem no mercado de trabalho. Segundo a Kantar IBOPE Media, a proporção de filhos nessa faixa etária que vivem no domicílio aumentou em 137% no Brasil entre 2012 e 2022. A pesquisa ainda aponta que 60% dessa geração é composta por homens, enquanto 40% são mulheres. A região Sudeste é a região que mais possui jovens nessa condição.


Oferta encolhe, aluguel dispara


A busca por independência também é atravessada por dinâmicas próprias do mercado imobiliário local - Reprodução: Pexels
A busca por independência também é atravessada por dinâmicas próprias do mercado imobiliário local - Reprodução: Pexels

A oferta também encolheu: segundo levantamento do Secovi Rio, o número de imóveis residenciais disponíveis para aluguel tradicional caiu 30,4%: de 10.193 em junho de 2023 para 7.093 em junho de 2026, em mais de 30 bairros do município. A princípio, o crescimento das locações por temporada está entre os fatores que pressionam os preços. Em 2025, o Airbnb movimentou quase R$21 bilhões no estado do Rio, segundo estudo da FGV. Com os recentes megaeventos na cidade do Rio, a possibilidade de rendimentos superiores aos dos contratos tradicionais impulsionou o segmento, sobretudo perto das praias e dos pontos turísticos.


Para quem tem menos renda, a conta fecha ainda menos. Segundo o estudo da urbanista Thêmis Amorim Aragão (FAU/UFRJ), publicado em 2022 na revista Cadernos Metrópole, sobre o acesso ao mercado de aluguel na cidade, famílias com renda de até três salários mínimos — 56,33% da população do município e 68,09% do déficit habitacional — encontravam menos de 1% das ofertas formais de aluguel. As de quatro a dez salários tinham acesso a 12,66%, e 86,34% das ofertas destinavam-se a famílias com renda superior a dez salários mínimos.


Para o economista Caio Ferrari, professor do Departamento de Análise Econômica da Uerj, o principal obstáculo é o custo de vida. "Os jovens que estão ingressando no mercado de trabalho recebem salários compatíveis com a sua pouca experiência, mas o custo de um aluguel ou a necessidade de dar uma entrada e financiar um imóvel são elevados. Assim, muitas vezes as soluções possíveis são compartilhar o aluguel com outras pessoas ou esperar mais tempo na casa da família." 


Contudo, o aluguel não deve comprometer a saúde financeira. Segundo o economista, o ideal é que o aluguel não passe de 30% da renda: "Caso contrário, fica muito complicado criar uma reserva e acumular alguma poupança". Há ainda custos subestimados: a alimentação, por exemplo, pode ser uma surpresa, já que tende a ser subestimada enquanto o jovem vive com a família.


Onde cabe um jovem

Na Zona Sul, o aluguel mais caro está no Leblon (R$129,10 por metro quadrado), seguido por Ipanema (R$124,97), segundo o Data Secovi. Em Copacabana, o preço médio do metro quadrado de aluguel mais que dobrou entre 2021 e 2026, de R$35 para R$71, segundo levantamento do Grupo OLX publicado pela BBC News Brasil. "Há muita especulação imobiliária, concorrência com aluguel por temporada e estrangeiros demandando imóveis nestes bairros", diz Ferrari, que considera a região a mais desafiadora.


Zona Sul do Rio é vantajosa pela localização, mas alta na valorização e especulação imobiliária da região dificulta acesso à morada - Reprodução: Pexels
Zona Sul do Rio é vantajosa pela localização, mas alta na valorização e especulação imobiliária da região dificulta acesso à morada - Reprodução: Pexels

No Centro, o metro quadrado de aluguel subiu 34,9% em 12 meses, a maior alta entre os bairros, e 59,3% em dois anos, a maior entre as regiões da cidade, segundo o Secovi Rio. Isso porque, mesmo com a oferta ampliada por projetos da prefeitura, como o “Reviver Centro”, que visa a recuperação urbanística, cultural, social e econômica da região central da cidade, transformando prédios ociosos ou terrenos vazios em habitações – a região passou a atender a demanda reprimida da Zona Sul e da Barra. 


Já a Zona Norte, com alta de 20,3% em dois anos, é, para Caio, uma região que tem sido a melhor alternativa, com maior de infraestrutura de transporte: "Eu diria que bairros da Zona Norte, da Grande Tijuca até o Grande Méier, seriam as melhores opções em termos de custo-benefício", argumenta o economista. Enquanto isso,  a Zona Oeste, segundo ele, tem a dificuldade da distância para o Centro, mas tem preços mais acessíveis. “Nada é de graça. Se uma área é mais distante e mais barata, a diferença no preço está exatamente aí", resume.


Comprar: juros, entrada e espera


Para quem tenta realizar o sonho da casa própria, a Selic acima de 14% afastou as pessoas do financiamento de imóveis. "Os juros imobiliários são relativamente altos e, quanto maior o prazo do financiamento, mais difícil fica para quem está comprando", explica Ferrari. Há ainda os custos da transação: o Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) é de 3% no município do Rio, e, com as custas de escritura e registro, estimativas de mercado apontam um total de 4% a 5% do valor do imóvel. Assim, quem não consegue comprar continua no mercado de aluguel, o que fortalece a demanda.


Alta em juros e dificuldades de financiamento afastam o sonho da casa própria dos jovens - Reprodução: Pexels
Alta em juros e dificuldades de financiamento afastam o sonho da casa própria dos jovens - Reprodução: Pexels

Apesar disso, o desejo de comprar persiste. Pesquisa nacional da Loft, conduzida em 2025 e divulgada pelo portal Metro Quadrado, mostra que 67% dos entrevistados de 18 a 24 anos e 62% dos de 25 a 34 queriam comprar o primeiro imóvel em 2026; no Rio, 57% dos entrevistados manifestaram esse plano. 


Neste tópico, Ferrari avalia que, para os mais jovens, o ideal é adiar a compra para "acumular mais patrimônio". Para ele, ficar na casa dos pais ou dividir aluguel são soluções de curto e médio prazo, já alugar sozinho ou comprar representam decisões de longo prazo.


Mais que um endereço


Para Raphael Nigro, de 25 anos, estudante que já deixou a casa dos pais, sair de casa é um rito de passagem da juventude para a vida adulta. "Como somos dependentes do dinheiro, hoje em dia está muito mais difícil de conseguir passar por esse marco. É claro que isso afeta nossa cabeça ao nos vermos como menores", relata. O estudante também critica a comparação com quem já mora sozinho: "a grande maioria, ainda mais morando em uma cidade como o Rio, tiveram alguma ajuda para sair de casa", argumenta.


Nem toda permanência, porém, é imposta, já que a convivência entre pais e filhos pode ser vivida de forma tranquila e sem conflitos. Para Gustavo, estudante de História da Uerj, morar sozinho foi bastante positivo, pois trouxe responsabilidades e "habilidades de sobrevivência". Porém, para ele, há uma contradição entre ganhar liberdade física e diminuir a liberdade financeira, se a mudança vier no momento errado ou for forçada. "O conforto de não precisar pagar contas ou arrumar a casa depois de um dia longo no trabalho às vezes balança o coração", confessa.


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O site Rampas é um projeto criado por alunos de jornalismo da Uerj, sob supervisão da professora Fernanda da Escóssia.

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