Arte sustentável é resistência em Santa Teresa
Na 34ª edição do Arte de Portas Abertas, artistas mostram ao público como a reutilização de materiais e o trabalho criativo são alternativas viáveis diante da produção em massa
Por Gabriela Martin

Entre os trilhos do bondinho e o casario histórico de Santa Teresa, o tempo parece desacelerar para dar passagem à criação. Nas ladeiras de paralelepípedos, o fazer artístico se manifesta nos muros coloridos pelo grafite, no ritmo do “chorinho” das esquinas e no jeito autêntico dos moradores, que nem parecem viver a poucos minutos da agitação do centro da cidade. É nesse cenário que os artistas de Santa Teresa dão novos significados a materiais descartados.
Para Fernando Viana, artista plástico e criador de moda, Santa Teresa foi o lugar perfeito para se instalar quando voltou ao Brasil após sua temporada em Londres. “É um bairro inspirador, porque quando você está caminhando você vê beija-flor, macaco, flores”, disse o artista. Nascido no Rio Grande do Sul, Fernando mudou-se para o exterior em 1998, onde deu início à sua trajetória na moda, ao transformar tecidos descartados em suas primeiras peças. “Achei um lixo têxtil, eram camisetas inacabadas, comprei uma agulha e uma linha branca e comecei a juntar as peças”, recorda. A partir dali, passou a garimpar roupas em brechós e feiras de antiguidade e customizá-las. Fernando montou uma banca em Notting Hill, bairro descolado londrino, para vender suas criações, que logo chamaram atenção de figuras relevantes da moda inglesa, abrindo portas para a sua participação em grandes desfiles internacionais.

A iniciativa de Fernando foi de vanguarda para a época, já que a prática conhecida hoje como upcycling ainda estava longe de virar tendência. Em oposição à indústria, o estilista fez o movimento contrário do mercado, focando na qualidade artística e material, com produções únicas, feitas à mão. Ao longo de sua carreira, trabalhou com diversas técnicas de customização, como o tingimento de peças com chás, costura de retalhos e pinturas.
Em 2013, motivado pelo descontentamento com a massificação da moda e com a gentrificação de Londres, Fernando retornou ao Brasil e abriu seu ateliê em Santa Teresa, onde deu continuidade ao seu trabalho pautado pela sustentabilidade e pela resistência artística. “Trouxe meu maquinário de Londres, comecei a fazer contato com as costureiras locais e recomecei fazendo a mesma coisa que eu fazia lá”. No entanto, nem tudo continuou igual. O clima tropical do Brasil e a vida em Santa Teresa impactaram sua criação. “O meu estilo mudou quando eu vim pra cá, comecei a pintar mais botânica, pássaros, com aquarelas e tons pastéis. Também tive que me adaptar à temperatura daqui, porque eu trabalhava muito com lã e couro. Aqui, comecei a trabalhar com seda e tecidos leves”.

Fernando Viana foi um dos 300 artistas que abriram seus ateliês para visitação na 34ª edição do evento Arte de Portas Abertas, realizado nos dias 19, 20, 26 e 27 de setembro de 2026. Num bairro que respira arte, o circuito surgiu para divulgar os trabalhos da comunidade de artistas da região. “Nós somos parte da resistência, porque aqui nada é massificado. As minhas roupas não são massificadas, é uma luta que eu tenho há 30 anos. O Arte de Portas Abertas veio exatamente para isso: divulgar a resistência, porque nós continuamos aqui, continuamos produzindo arte contra um sistema massificado”, afirma o estilista, reforçando o propósito do evento. Mesmo assim, ele ainda demonstra certo receio quanto à hiper comercialização do bairro, que acabaria por esvaziar a verdadeira essência das iniciativas locais.
Se no ateliê de Fernando as roupas ganham novos significados, a poucas ruas dali, o metal que iria para o lixo ganha uma nova vida pelas mãos do artista Pedro Grapiúna. Baiano, morador de Santa Teresa desde 1987, o escultor produz suas obras com ferros coletados nas ruas e outros materiais reaproveitados, como plástico, madeira e peças eletrônicas. O ateliê do artista se transformou em um ponto de coleta da região. “As pessoas já me conhecem, sabem que eu trabalho com esses materiais e quando vão descartar trazem para o ateliê”, comenta.

Quando começou a reciclar, em 2002, temas como sustentabilidade e descarte correto ainda eram pouco discutidos. Pedro conta que, desde que começou a trabalhar com pintura, surgiu a ideia de fazer esculturas com materiais que seriam descartados: “Pegava peças na rua que achava bonitas e soldava com a máquina do vizinho. Depois de dois anos de testes, fiz a primeira obra”. Intitulada “Opostos”, a escultura fica logo na entrada de seu ateliê, dando as boas-vindas a quem passa para conhecer seu trabalho durante o evento Arte de Portas Abertas.

A estreia do escultor no circuito aconteceu na 13ª edição do Arte de Portas Abertas, em 2003, quando a artista e vizinha Marta Pires Ferreira se interessou pelo seu trabalho e o indicou aos organizadores do evento. Para Pedro, a relação com Santa Teresa vai além da inspiração, envolve uma rede de apoio entre os artistas: “Santa Teresa é um suporte para mim”.
As participações no evento possibilitaram que o artista integrasse exposições internacionais, além de realizar um intercâmbio para a Espanha. Pedro destaca que a importância do evento vai muito além do impacto em sua trajetória individual, o circuito impulsiona a economia local: “Dá vida ao bairro, fortalece o comércio e o trabalho dos artistas”.
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