Campeões da Rocinha, uma escolinha de bodyboard que junta resistência e perseverança
Iniciativa sem fins lucrativos oferece aulas de bodyboard e abre novas possibilidades para jovens da comunidade da Rocinha.
Por: Rodrigo Lima

Na Praia de São Conrado, na Zona Sul do Rio de Janeiro, a escolinha de bodyboard Campeões da Rocinha há 26 anos transforma o mar em sala de aula para crianças e jovens da comunidade. Referência em inclusão social por meio do esporte, o projeto enfrenta dificuldades para continuar suas atividades devido à falta de financiamento.
Praticado nas ondas do mar, o bodyboard é um esporte em que o atleta desliza sobre a água utilizando uma prancha curta, geralmente em posição deitada, acompanhando o movimento das ondas.

Nascido e criado na Rocinha, Wanderley Silva, conhecido como Tio Ley, transformou sua trajetória no bodyboard em um projeto social voltado para crianças e adolescentes da comunidade. A ideia surgiu enquanto treinava atletas na Praia de São Conrado. Segundo ele, o interesse demonstrado por crianças que acompanhavam os treinos foi o que motivou a criação da escolinha.
A relação de Tio Ley com o esporte começou ainda na infância, incentivada pela mãe. “Ela foi minha maior motivadora. O dia em que chegou em casa com uma prancha de bodyboard e um par de pés de pato foi um dos dias mais felizes da minha vida.”
Atualmente, o projeto atende crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos. As aulas são gratuitas. Para participar, não basta estar dentro da faixa etária exigida: é necessário estar matriculado e frequentando a escola. Segundo o instrutor e atleta Lucas Figueiredo, de 17 anos, o desempenho escolar também é acompanhado pela equipe. “Tem que estar tudo em dia. Eu treino no bodyboard, faço preparação física e continuo estudando. Não pode deixar os estudos de lado.”
Sem suporte financeiro, a equipe do Campeões da Rocinha passou a depender de doações divulgadas pelas redes sociais para manter as atividades. Os professores estão há meses sem receber salários e o número de profissionais e atletas atendidos foi reduzido. Segundo Tio Ley, os recursos que antes vinham de um contrato com o Governo do Estado e deixaram de existir após uma mudança de gestão. Desde então, manter o projeto em funcionamento tornou-se um desafio diário. “É muito difícil. Tem que ter amor, profissionalismo e dar importância para cada aluno do projeto. Depois que o contrato não foi renovado, perdemos alunos e reduzimos nossa equipe. Hoje temos apenas quatro atletas de alto rendimento e um educador físico, mas seguimos firmes porque são 26 anos transformando vidas e formando campeões dentro e fora d'água.”
Embora o bodyboard seja um esporte relativamente acessível em sua prática, permanecer no nível competitivo é um desafio para os jovens de baixa renda. Participar de campeonatos exige investimentos em inscrições, transporte, hospedagem e equipamentos, custos que muitas vezes estão fora da realidade dos atletas atendidos pelo projeto.
Sem condições de disputar competições regularmente, muitos acabam perdendo oportunidades de ganhar visibilidade e conquistar patrocinadores. O instrutor Gabriel Silva afirma que a falta de recursos impede que diversos talentos da Rocinha avancem na modalidade. “Aqui existem atletas de excelência que poderiam estar competindo em alto nível, mas sem apoio e sem estrutura fica muito difícil.”
As dificuldades, no entanto, vão além da questão financeira. Segundo Gabriel, jovens negros e periféricos também enfrentam barreiras relacionadas ao preconceito e à origem social. "Muitas vezes não somos bem vistos apenas por virmos da comunidade. É difícil, mas tudo o que queremos é uma oportunidade. A oportunidade cria esperança e faz toda a diferença."
A situação também afeta os próprios instrutores da escolinha, que atuam como atletas profissionais e, atualmente, não contam com patrocínio. A ausência de apoio levanta uma discussão que ultrapassa o universo esportivo: quem tem acesso às oportunidades e quais critérios determinam quais atletas recebem investimento, visibilidade e espaço dentro da modalidade?
Para além dos desafios enfrentados no esporte, moradores de favelas convivem diariamente com o preconceito associado ao território onde vivem. Para Wanderley Jr., filho do fundador, essa visão contribui para invisibilizar iniciativas positivas desenvolvidas dentro das comunidades. “A favela não é somente tráfico e criminalidade. Temos projetos sociais, atletas, espaços esportivos e oportunidades para crianças e jovens. Eu mesmo fui salvo pelo esporte.”
Com mais de duas décadas de atuação, a escolinha acumula histórias, desafios e conquistas. Para o instrutor Daniel Silva, acompanhar a evolução do projeto ao longo dos anos é motivo de orgulho. “A imagem que vem à minha cabeça é de dever cumprido. Fazer com que crianças saiam da comunidade para praticar esporte já é uma grande vitória. Mais importante que qualquer resultado é vê-las com saúde e disciplina.”
Por trás de cada treino, existe uma realidade marcada pela escassez de recursos, pela dificuldade de acesso a campeonatos e pela ausência de patrocínio. Para atletas e profissionais envolvidos no projeto, permanecer no bodyboard significa enfrentar obstáculos que vão muito além das condições do mar.
Ainda assim, o Campeões da Rocinha segue em atividade. Mantido pelo esforço de seus integrantes e pelo apoio de pessoas que acreditam na iniciativa, o projeto continua oferecendo a crianças e adolescentes da comunidade uma oportunidade de aprendizado, convivência e desenvolvimento por meio do esporte, abrindo caminhos e transformando vidas.
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