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  • Foto do escritorJuliana Nascimento

Com a mão na jaca para combater a fome

Exótica e chamada de invasora, árvore que produz o maior fruto do mundo pode ajudar no combate à insegurança alimentar


Jaca pequena presa à uma jaqueira
O fruto da jaqueira é colhido entre os meses de outubro e dezembro. Foto: Acervo Instituto Mão na Jaca

“Salve a Velha Guarda, os frutos da jaqueira, Oswaldo Cruz e Madureira”. Esse verso ajudou a Portela a ser campeã do carnaval em 2017, após um jejum de 33 anos. Apesar de ganhar destaque no samba enredo de uma das mais tradicionais escolas de samba carioca, a jaqueira não é bem-vinda nas Unidades de Conservação (UC), como o Parque Nacional da Tijuca (PNT). Considerada uma espécie exótica invasora, há quem pretenda eliminá-las das florestas do Rio de Janeiro. Enquanto isso, iniciativas não governamentais arregaçam as mangas, botam a mão na jaca e pensam em soluções de uso integral do fruto para combater a fome e reduzir a insegurança alimentar.

  

A jaqueira é considerada uma espécie invasora graças à grande quantidade de sementes e por germinar mesmo em solos degradados. Segundo relatório do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) de 2015, só no Parque da Tijuca existem pontos com quase 200 jaqueiras por hectare, o que, segundo esse documento, impacta negativamente as espécies nativas. 


Para Richieri Sartori, professor do Departamento de Biologia, Bioestatística e Restauração Ambiental da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), as jaqueiras reduzem a diversidade dos locais onde elas são majoritárias. “O problema é que com o tempo essas jaqueiras passam a ter uma densidade cada vez maior e excluem as espécies nativas”, explica o especialista que trabalha com restauração ecológica, produção de muda e inserção de espécies nativas em áreas degradadas ou com invasão de espécies exóticas.


O Sistema Nacional de Unidades de Conservação, instituído pela Lei 9.985/00, proíbe a introdução de espécies não autóctones, ou seja,  que ocorrem fora de suas áreas naturais (passadas ou atuais) e de dispersão potencial. Mas a jaqueira chegou no Brasil por volta de 1683, muito antes da promulgação desta lei. Originária do sul da Ásia, foi trazida pelos colonizadores portugueses por ser uma fruta grande – pode pesar mais de 30kg – que seria ideal para alimentar pessoas escravizadas e o gado.


A jaqueira está associada à dinâmica humana de uso e ocupação da paisagem brasileira. “Ela está, em parte, conectada com a história das pessoas que moraram na floresta, trabalharam na floresta, produziram carvão, plantaram roça onde hoje, aqui no Rio de Janeiro, é a Floresta da Tijuca”, explica Alexandro Solórzano, coordenador do Laboratório de Biogeografia e Ecologia Histórica (LaBEH), do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC-Rio.


Aula de campo na trilha da Cachoeira dos Primatas - prof. Alexandro Solórzano explica a relação entre  jaqueiras, carvoarias do séc.XIX e a Floresta da Tijuca [Vídeo: Juliana Nascimento]


Segundo o especialista, as jaqueiras ajudam a contar a história de grupos  invisibilizados. Por já estarem presentes na floresta, é possível que seus frutos fizessem parte da alimentação dos carvoeiros, trabalhadores que, após a abolição da escravatura, coletavam lenha para a produção de carvão vegetal, uma das fontes de energia da época.


Solórzano considera um erro chamar de invasora uma espécie exótica como a jaqueira e deixar de considerar outras perspectivas de aproveitamento: “É uma hipocrisia, porque se você perguntar pra qualquer ecólogo conservador radical sobre sua dieta, ele vai responder, arroz, feijão, banana, açaí, maçã, caqui – todos exóticos. Existe um discurso ambientalista que é bem diferente da realidade socioambiental, a realidade das pessoas vivendo e interagindo com as florestas”.


Controle das jaqueiras


Entenda como funciona a técnica de anelamento. Vídeo: Juliana Nascimento


Em 2017, durante a atividade de manejo do Programa de Voluntariado e Ações da Brigada Contra Incêndio do Parque Nacional da Tijuca, cerca de mil jaqueiras adultas passaram pelo processo de anelamento ou Anel de Malpighi - que leva à morte das plantas. “O anelamento corta a ligação entre a folha e a raiz. Tem água subindo, açúcar descendo e você corta essa ligação. Não é nem biologia, isso é física, quando se faz esse corte, cortam-se os vasos e não tem a possibilidade desses vasos se religarem, exceto quando é malfeito”, esclarece o professor Sartori. E acrescenta: “No Parque Lage, nas plantas que foram aneladas corretamente, o método se mostrou eficiente, e as jaqueiras morreram.” 


Já o professor Solórzano destaca a necessidade do plano de manejo incluir o aproveitamento dos frutos: “A filosofia principal no manejo de espécies exóticas nas unidades de conservação, como o PNT, é reduzir a população e, idealmente, erradicar”. Ele chama a atenção ainda para a lógica de abundância das jaqueiras, que produzem o maior fruto do mundo e que têm um potencial alimentar enorme, com aproveitamento da polpa, semente e até da casca. 


Mão na Jaca em busca de uma cidade mais sustentável 


Mulheres de avental e touca em um sítio com um jaca sobre uma mesa
Na oficina culinária, Marisa ensina como utilizar jaca verde no preparo de pratos salgados. Foto: Acervo Mão na Jaca

Marisa Furtado é diretora executiva e uma das fundadoras do Instituto Mão na Jaca que, desde 2014, desenvolve diversos trabalhos inspirados no potencial sustentável das jaqueiras. O instituto oferece cursos de capacitação profissional em arborismo (relacionado a coleta das jacas), produção de infográficos, mapeamento das jaqueiras e oficina culinária com jaca verde – com o uso integral do fruto em pratos salgados – tudo com o objetivo de reconectar as pessoas com as florestas urbanas. 


A fundadora do Instituto destaca que, embora o Brasil seja um grande produtor de jaca, não existe levantamento sobre sua produção, como se tem de banana, laranja e castanha. O instituto defende a jaqueira como uma aliada para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos pelas Nações Unidas: ações para acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente, o clima e garantir que as pessoas, em todos os lugares, possam desfrutar de paz e de prosperidade. Ao todo, são 17 objetivos para serem atingidos até 2030, que incluem erradicação da pobreza, fome zero, igualdade de gênero e cidades e comunidades sustentáveis.


O avanço do trabalho do Instituto Mão na Jaca, segundo Marisa, colabora com 11 das 17 ODS's da ONU. De 2021 até agora foram doados mais de 12 mil quilos de jaca para pessoas em situação de vulnerabilidade: “Propomos colocar a jaca na mesa de todos os brasileiros, para fazer o aproveitamento de tanto alimento desperdiçado na cidade, quando há tanta gente passando fome. Pretendemos levar a jaca para a merenda escolar pública”. 


Um homem e uma mulher com uma mão na jaca em um evento sobre a fruta
Instituto Mão na Jaca no 1° CONJASP (Congresso da Jaca e suas Potencialidades/2023), que aconteceu em Ipiaú - Bahia. Foto: Lally Nascimento

Além disso, o instituto capacita pessoas para trabalhar com turismo ambiental, compostagem, coleta do fruto de forma segura, utilizando os equipamentos necessários e também ensinam como usar a jaca verde – que não tem gosto e nem cheiro – para o preparo de diversos pratos salgados, como lombo de jaca, jacalhau e moqueca, que depois podem ser vendidos se tornando fonte de trabalho e renda para diversas famílias.


Para compartilhar experiências sobre uso sustentável da jaca, o instituto esteve no 1° Congresso da Jaca e suas Potencialidades, que aconteceu na Bahia em 2023. Organizado pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e pela Unidade de Pesquisa e Difusão sobre o Aproveitamento de Plantas Nativas e Naturalizadas na Região (UNIPANCS), o evento reuniu pesquisadores, ambientalistas, estudantes, empreendedores e outros interessados no tema.

1 Comment


Jucelia Nascimento
Jucelia Nascimento
Jun 15

Fui criada e muito da minha insegurança alimentar foi inibida por este fruto. Adoro esse tipo de escrita clara e com certas poesia...

A Jaqueira produz um fruto muito plural, na minha casa virava doce e também carne! Bom entender sua relevância histórica e saber ué existem iniciativas pra impedirem a extinção dessa árvore em nossas florestas!

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