Calçadas da Rocinha são tomadas por lixo e puxadinhos
Dados do IBGE revelam que apenas 0,1% das calçadas da comunidade estão livres de obstáculos
Por: João Pedro Serafim Alves

São 10 horas de uma manhã de sábado, e o sol ilumina a Via Ápia, a rua mais movimentada da Rocinha. Conhecida por muitos visitantes como o "Baixo Rocinha" — em alusão aos pólos boêmios da cidade, como a Baixo Gávea e Baixo Botafogo —, a região é a expressão da efervescência cultural, econômica e social na comunidade carioca.
Ali, a vida urbana acontece em um ritmo frenético: um mosaico humano se mistura em meio a bares, barracas, feiras e milhares de outros estabelecimentos espalhados pelo local. Mas tudo isso se espreme em uma rua de pouco mais de 200 metros de extensão, desenhando um cenário caótico e complexo no coração econômico da maior favela do Brasil.
Bares espalham mesas e cadeiras, ocupando quase toda a extensão das calçadas; frequentadores dividem os poucos metros restantes, em pé ou sentados, enquanto motociclistas tentam cruzar a via, a todo instante tendo que desviar dos pedestres. Essa grande confusão escancara o desafio diário que os moradores enfrentam em suas rotinas: a ocupação desordenada do espaço das calçadas e a consequente redução de mobilidade dos pedestres.
Para além do impacto de quem anda pelas ruas todos os dias, os números do Censo 2022 do IBGE confirmam essa falta de mobilidade dos moradores. Na Rocinha, 81,9% da população vive em áreas acessíveis apenas a pé, de bicicleta ou de moto — um retrato cru do abandono e falta de estrutura viária na Rocinha. Esse percentual é o dobro da média das favelas do município do Rio de Janeiro (40,6%) e quatro vezes maior do que o registrado nas comunidades brasileiras em geral (19,2%).
Além disso, apenas 12,1% dos endereços da Rocinha contam com algum tipo de passeio público na porta (em comparação a uma média de 41,2% nas demais favelas cariocas) e somente 3,2% de suas vias permitem a circulação regular de carros ou vans. Como resultado, menos de 20% da população local vive em trechos com calçadas.
Quando a análise foca na qualidade das calçadas já existentes na comunidade carioca, a situação se torna ainda mais alarmante. O IBGE revelou que 96,2% dos moradores de favelas no Brasil (cerca de 15,5 milhões de pessoas) enfrentam algum tipo de obstáculo no trecho da calçada próximo de casa. Na comparação entre as 20 maiores favelas do país, a Rocinha ocupa o patamar mais crítico junto com a favela de Rio das Pedras: apenas 0,1% dos moradores vivem em trechos de ruas totalmente livres de obstáculos. Isso sinaliza que não só a mobilidade dos pedestres é bastante comprometida como também torna-se um desafio diário para pessoas com mobilidade reduzida.
No dia a dia da comunidade, esses dados se traduzem em tensão a cada passo. Morar ou transitar pela Rocinha exige aprender uma verdadeira dinâmica de sobrevivência urbana. A jornalista Nathalia da Silva, do portal Fala Roça,, cresceu em Nova Iguaçu e mudou-se para a Rocinha na vida adulta. Ela explica o choque ao tentar entender a lógica do deslocamento local: “Um dos meus maiores desafios enquanto moradora foi aprender a andar na Rocinha. Não no sentido de encontrar os lugares, mas de andar mesmo: no cotidiano, atravessar a rua, entender a ordem da calçada. Como o espaço que a gente tem é curto, existe uma dinâmica de caminhada: uma fila de pessoas sobe enquanto a outra desce. Não é legal você parar no meio da calçada, porque com certeza tem alguém atrás querendo passar. É preciso sempre ter atenção e dar passagem primeiro para as pessoas mais velhas e crianças", explica a jornalista.
Embora os estabelecimentos sejam fundamentais para o local — "é o motor da Rocinha mesmo, é impossível falar da favela sem falar de empreendimento" —, a segurança dos pedestres exige melhorias na gestão do trânsito. "A presença de faixas de pedestres trouxe uma segurança enorme, mas ainda precisamos de mais semáforos e de mais agentes de trânsito para sinalizar e ajudar a gente a andar com mais proteção", afirma Nathalia.
Para quem circula acompanhado de crianças, a disputa pelo chão ganha contornos de apreensão diária. Em diversos trechos, as calçadas são bloqueadas por mercadorias, entulhos de obras, sacos de lixo e “puxadinhos” de estabelecimentos. O resultado? caminhos estreitos que dificultam a passagem dos pedestres e a sua segurança.
A moradora Joyce Freitas relata como essa limitação afeta a rotina da família: “No dia a dia, andar pela Rocinha com criança exige bastante atenção. Em alguns trechos, a calçada é muito apertada ou fica ocupada por mercadorias, motos, materiais de obra e outros obstáculos. Quando você precisa sair da calçada e ir para a rua com uma criança, a sensação de insegurança aumenta muito. A gente precisa ficar olhando para todos os lados, principalmente por causa das motos que não respeitam o sentido da via, e circulam com frequência e muitas vezes passam muito próximas dos pedestres. É uma situação que gera tensão, porque você não está escolhendo andar na rua, está sendo obrigada pela falta de espaço ", critica a moradora.. Também é comum encontrar lixo, materiais de construção ou objetos ocupando o caminho. São situações que são descritas por ela como “pequenas no dia a dia”, mas quando você está com uma criança se tornam muito mais preocupantes.
Joyce destaca ainda o impacto desse cenário no desenvolvimento infantil: "A criança precisa de espaço para caminhar, brincar e desenvolver autonomia, mas quando o caminho é apertado e dividido com motos e carros, os pais ficam com medo. Isso limita a liberdade dos filhos e tira a tranquilidade da família".

A disputa pelo espaço não envolve apenas o comércio informal. O espaço dos pedestres é frequentemente invadido por materiais de construção, escadas externas de imóveis e montanhas de resíduos. A estudante Juliana Fernandes conta que evita fazer trajetos a pé em determinados trechos, como a região subindo a Fundação (área da Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, historicamente apelidada de Igreja da Fundação) e perto da Curva do S, devido ao aperto e à ausência de infraestrutura principalmente para acompanhar o grande número de turistas que frequentam a comunidade.
A caminhada diária até a Fundação expõe os gargalos de mobilidade e a falta de acessibilidade na região. O estreitamento das calçadas — agravado por obstáculos como uma árvore no meio do caminho — e o fluxo constante de moradores e turistas na Curva do S geram trechos de desentendimento no espaço público. A saturação do passeio força pedestres mais apressados a disputar espaço no leito da rua para ultrapassar quem anda mais devagar: “Sinto que preciso disputar o espaço com as pessoas [...]. Eu fico muito irritada com isso e, como estou atrasada, saio da calçada e vou para a rua para dar a volta”.
Ela também relembra um episódio marcante causado pelo acúmulo de lixo e pela proliferação de pragas: "A calçada estava completamente tomada por lixo e eu vi um rato. Me assustei, me desesperei e quase caí por cima do lixo. Sorte que um moço estava passando na hora e me segurou", relata com bom humor a designer.
Por outro lado, há quem enxergue transformações positivas ao longo das décadas. Há trinta anos morando na comunidade, Dona Neves pondera que a comunidade já enfrentou momentos de maior desamparo estrutural: "Antigamente era triste, era tábua velha, cama velha acumulada. Hoje está muito mais iluminado, tem caçambas de lixo e a via principal está mais arrumada. Mas o número de motos aumentou demais. Antigamente você andava tranquila; hoje é moto a todo momento"
Para compreender a complexidade desse fenômeno sem cair no reducionismo de culpabilizar moradores ou comerciantes, o geógrafo e morador da Rocinha Alberto Martins analisa a questão sob a perspectiva da geografia urbana. Segundo Alberto, o caminhar — que deveria ser a modalidade de deslocamento mais democrática — tornou-se um privilégio na capital fluminense:
"O espaço geográfico não é um mero cenário passivo, é um produto material de relações sociais e econômicas. Uma cidade marcada por tamanha desigualdade espacial como o Rio de Janeiro torna até o ato de caminhar algo desigual. A precariedade da infraestrutura pedonal nas periferias é uma engrenagem física que fratura o direito à cidade: restringe o ir e vir, o acesso à saúde, ao trabalho e ao lazer", relata o geógrafo.
Alberto introduz o conceito de morfologia do confinamento. Com base em levantamentos geográficos feitos pelo site https://estudoscariocas.rio/ , ele lembra que a Rocinha é a favela carioca com maior taxa de ocupação em encostas: 59% de sua área ocupada possui declividade acima de 30%. Para efeito de comparação, a norma técnica de acessibilidade (ABNT NBR 9050) estabelece que inclinações superiores a 8,33% já representam barreiras graves de acessibilidade.
A soma da altimetria acentuada, das calçadas inexistentes e da intensa verticalização gera um cenário sufocante na Rocinha. Segundo o Censo de 2022, entre 2010 e 2019 a comunidade manteve seu crescimento sem expansão horizontal, por estar cercada pela Mata Atlântica. O levantamento quantificou, pela primeira vez, o estilo de moradia no local, revelando a presença de 9.443 apartamentos — um dado que confirma o crescimento vertical por meio da construção de pequenos prédios.
"Quando as moradias crescem verticalmente para abrigar novas famílias, criam-se escadas externas para a rua, puxadinhos, tubulações expostas e pontos de descarte de lixo", detalha o geógrafo. "Isso gera pressão constante em um recurso que é finito: o solo. O resultado é um estrangulamento do espaço coletivo até o limite do intransitável. Pessoas com deficiência, idosos e cuidadores acabam confinados em suas próprias casas, impedidos até de receber visitas do agente de saúde ou de votar."
A ocupação das ruas pelo comércio informal e pelas barracas de subsistência reflete essa tensão social. Enquanto o comerciante necessita da visibilidade do fluxo de pedestres para garantir o sustento da família, o pedestre é empurrado para o asfalto, onde disputa cada segundo com veículos. Alberto reforça a necessidade de evitar diagnósticos higienistas ou punitivos:
"Essa multifuncionalidade do espaço é uma potência comunitária e uma resposta orgânica à carência histórica de praças e áreas verdes. Não se trata de criminalizar o trabalhador ou higienizar a rua, mas de reconhecer que a disputa por cada microespaço decorre de uma escassez crônica do solo público. As soluções não vêm de fórmulas prontas, mas sim de um diagnóstico local detalhado e de mediações comunitárias, com pactos de convivência e zoneamento de faixas compartilhadas".
Entre pequenas melhorias recentes — como a pintura de faixas de pedestres que trouxeram mais organização —, a moradora Nathalia resume o sentimento coletivo de que o poder público precisa ir além de paliativos:
"A gente pensa o direito à cidade garantindo saúde, economia e mobilidade com dignidade. A favela não quer qualquer solução rápida que não vá ser efetiva a longo prazo. A gente precisa de atuação organizada, integradora e que trate a favela como parte integrante do mapa da cidade".
Enquanto planejamentos de longo prazo e diagnósticos territoriais não saem do papel, os moradores da Rocinha seguem desviando de mesas, motos, entulhos e degraus, transformando o simples ato de caminhar pela rua em uma verdadeira maratona de obstáculos cotidianos
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