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Como o El Niño afeta a saúde de quem vive no Rio de Janeiro

há 2 dias
4 min de leitura

Fenômeno climático aumenta os riscos para a pele, para o pulmão e para quem já sofre com o calor


Por: Patrick Veloso


Foto: Marcelo Dias/Pexels
Foto: Marcelo Dias/Pexels

Na Clínica da Família Kelly Cristina, em Bangu,  na Zona Oeste do Rio, muitos pacientes chegam com problemas cardiorrespiratórios - mas quase nunca imaginam que as queimadas ao redor e as mudanças do clima têm a ver com isso. É um dos efeitos silenciosos do El Niño, que chegou ao Brasil em junho e deve ficar até o início de 2027, intensificando eventos como calor extremo, tempestades e vendavais.


Estudante de medicina da UFRJ, Juliana França atua como voluntária na clínica, em um projeto voltado para saúde climática.  Ela diz que, com o aumento das temperaturas, áreas com mata seca ficam vulneráveis à queimadas e a voluntária alerta como isso afeta moradores: “Próximo àquela região têm muitas queimadas, o que eleva muito os quadros de doenças cardiorrespiratórias entre os pacientes atendidos pela clínica. Normalmente, eles não pensam que isso pode estar ligado com as mudanças climáticas e o aumento das queimadas no local.”


Segundo dados da Casa Fluminense, no estado, moradores da Zona Oeste e da Baixada Fluminense são os mais afetados por doenças respiratórias, somando 60% dos casos de internação por doenças no aparelho respiratório. Isso ocorre por conta dos níveis alarmantes de poluição, uma vez que, nessas regiões, polos siderúrgicos, petroquímicos e logísticos, expõem a população.


Mesmo diante deste panorama, França relata não existir um direcionamento acadêmico específico para saúde climática em suas disciplinas curriculares, mas explica que o tópico ganha cada vez mais atenção no meio acadêmico.


El Niño tem causado estragos no país


O El Niño ocorre em intervalos irregulares, de dois a sete anos, quando a diminuição dos ventos alísios (ar quente e úmido) esquenta as águas do Oceano Pacífico Oriental, aumentando a temperatura global e intensificando eventos climatológicos e meteorológicos, como as secas, chuvas intensas e vendavais. No Brasil, o fenômeno se estabeleceu em junho de 2026 e, de acordo com as projeções de agências meteorológicas de todo o mundo e de órgãos técnicos brasileiros, a chance de permanência até o início de 2027 é de 100%.


Com o aumento desses eventos, a população fica vulnerável diante das mudanças climáticas repentinas e intensificadas, sem preparo para reduzir seus impactos no dia a dia.


Em 29 de julho de 2026, fortes ventanias afetaram todo estado, com ventos que chegaram aos 105 km/h. Duas pessoas morreram no bairro de Santa Teresa, após o desabamento de um muro. O Corpo de Bombeiros (CBMERJ) registrou 291 ocorrências, sendo 154 cortes de árvores, 31 salvamentos de pessoas e 5 desabamentos. Além disso, de acordo com dados da Light e Enel, cerca de 500 mil imóveis ficaram sem luz.


No fim de 2025, entre 23 e 24 de dezembro, o estado do Rio de Janeiro registrou 2.289 atendimentos de pessoas passando mal por causa do calor. A cidade estava em nível 3 de calor, em uma escala que vai até o nível 5. Os sintomas mais comuns foram de tontura, fraqueza e desmaio, frequentes em pessoas expostas a altas temperaturas.


Em Petrópolis, região serrana do estado, chuvas fortes costumam provocar deslizamentos e enchentes. Em 15 de fevereiro de 2022, após três horas de chuva, 235 pessoas morreram e a cidade ficou devastada.


Como se proteger 


Existem inúmeros outras formas pelas quais a população é afetada pelo fenômeno do El Niño, mas como as pessoas podem se proteger dos efeitos diretos do clima no dia a dia? O dermatologista Márcio Freire atenta questões como efeitos do suor, da incidência solar na pele e o efeito da poluição como agravante.


“Quando calor e umidade aumentam, existe o aumento do suor, oleosidade e proliferação de fungos e bactérias. Além disso, a radiação ultravioleta mais intensa causa a queimadura solar, fotoenvelhecimento precoce e maior risco de lesões pré-cancerosas, o que acontece mesmo em dias nublados. E a junção da poluição com o calor piora a barreira cutânea, causando mais ressecamento, sensibilidade e pioras em doenças crônicas de pele como dermatite atópica, psoríase e rosácea.”


É importante ficar de olho em manchas que não existiam antes, como manchas marrons e escuras, sem simetria e que há crescimento. Qualquer quadro necessita ser avaliado por um profissional qualificado, porém a observação ajuda a perceber essas alterações e a buscar tratamento.


Segundo o dermatologista, a água do mar faz bem à pele por ser mais ‘saudável’. Já a piscina, por conter cloro e outros produtos, não é tão indicada. Ele alerta, porém, que, após se refrescar, é preciso sempre se enxaguar e reforçar a hidratação e o filtro solar.


O ideal é usar proteção solar constante, com fator 50 ou mais, e a reaplicação varia conforme a rotina de cada pessoa. Também é recomendado usar roupas com proteção UV, proteger o couro cabeludo e, claro, manter a hidratação o dia todo.


O que muita gente não percebe são os cuidados na hora do banho. O dermatologista indica que é importante sempre hidratar a pele após o banho, que deve ser rápido e de água morna a fria. Seque bem as dobras para evitar fungos e a proliferação deles e troque rapidamente as roupas suadas.


E ele orienta com mais detalhes quem já tem problemas de pele: “Nesse caso, evite banhos e comidas muito quentes, apimentadas, e até bebidas alcoólicas. Sempre observe seu corpo e, em caso de piora, procure um médico dermatologista.”

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