Comunidade do Grande Méier luta contra fome nas ruas
- Livia Bronzato

- 10 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Rede de projetos sociais ajuda pessoas em situação de rua
Por Livia Bronzato
Assim que os três carros do grupo de caridade Mãos de Amor estacionam na Rua Lucídio Lago, no coração do Méier, pessoas em situação de rua formam fila. O grupo é composto por homens, mulheres, idosos e crianças. Todos aguardam pacientemente para receber quentinhas, água, roupas e, especialmente, agasalhos para enfrentar a noite fria que se iniciava.
Naquela ação de setembro, cerca de vinte crianças, em sua maioria menores de dez anos, chegam e pegam os sacos de Cosme e Damião. Estão alegres, diferentemente dos mais velhos, que mostram abatimento. Segundo dados do Censo de População em Situação de Rua do Rio de Janeiro de 2020, mais de cento e dez crianças viviam em situação de rua na cidade, muitas acompanhando mães que perderam a moradia. O crescimento da presença infantil evidencia o agravamento da vulnerabilidade social e a falta de políticas eficazes de proteção.

São diferentes os motivos que levaram essas pessoas às ruas. Em alguns minutos de conversa, elas relatam o uso de drogas, o desemprego persistente e desentendimentos familiares. Um homem de 52 anos, que disse ser formado em Ciências Contábeis, procura Patrícia Passos, uma das idealizadoras do projeto Mãos de Amor, e conta que buscava ali uma forma de alimentação, porque está desempregado, sem condições de se sustentar. Patrícia conta que percebe o aumento geral da população de rua por falta de emprego, em comparação com 2021, data do início das atividades do Mãos de Amor.
O Censo da População em Situação de Rua do Rio de 2022 identificou 7.865 pessoas em situação de rua na cidade. 80% delas vivem diretamente nas ruas e apenas 20% em instituições de acolhimento. O número é 8,2% maior (593 pessoas a mais) do que na última contagem, feita em 2020, quando foram registradas 7.272 pessoas. Os dados também traçam o perfil da maioria desses cidadãos. As características são bem definidas: 84% se autodeclaram pretos ou pardos, 84% são homens entre 18 e 59 anos, 64% não concluíram o ensino fundamental e 11% não têm alfabetização básica. Esse levantamento salienta a gravidade do problema e destaca as profundas marcas da desigualdade racial, social e econômica que a cidade enfrenta.
Esses números, que parecem distantes quando vistos em relatórios, se materializam no cotidiano do Méier, onde cresce o número de pessoas vivendo sob marquises, em praças e arredores da estação ferroviária. Diversos grupos voluntários atuam na região e oferecem auxílio à população em situação de rua.
A Casa Social de Cáritas, projeto que existe desde 2016, oferece acolhimento a essa população uma vez por mês e, na ação de setembro, atendeu cerca de vinte pessoas. Com exceção de uma mulher, todos eram homens pardos e pretos na faixa de 30 a 45 anos. O local permite que os assistidos passem uma manhã e parte da tarde realizando atividades básicas, que não são possíveis para a maioria das pessoas que vivem sem uma residência.
Na Cáritas, os desabrigados cadastrados têm a possibilidade de tomar banho, cortar o cabelo, pegar novas roupas, tomar um café da manhã e almoço, além de participar de atividades envolvendo musicoterapia, reunião da organização de Narcóticos Anônimos e conversas com psicólogos. O cenário dessas atividades é de muita entrega, caridade, suporte e valorização por parte da equipe que os acolhe. Os participantes interagem, brincam, cantam e desabafam sobre a realidade que vivem nas ruas.

A casa não atende somente pessoas em situação de rua, mas também oferece aulas de balé, música e leituras na “BiblioteCáritas” para pessoas em vulnerabilidade social. Há uma horta para crianças e um centro de apoio gestacional para mães. O prédio do projeto fica na Rua 24 de maio, 911, no Engenho Novo, um dos bairros do Grande Méier.

Do lado do poder público, a Prefeitura mantém os Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centros POP) e os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS).
Os Centros POP têm suas atividades exclusivamente voltadas para pessoas que vivem nas ruas, mas existem somente duas unidades, uma no Centro e outra em Bonsucesso. Ambos os bairros ficam a cerca de 50 minutos de distância do Méier via ônibus, agravante que dificulta o deslocamento até essas unidades de apoio. Além do mais, quem está em situação de rua muitas vezes não tem dinheiro para o transporte público. Também sofre com o preconceito vindo dos demais passageiros.
Há duas unidades do CREAS na região do Grande Méier: o Creas Janete Clair, na rua Piranga, e a Coordenadoria de Assistência Social, na rua 24 de Maio, no Engenho Novo. Entretanto, o apoio assistencial da Prefeitura não dá conta da demanda: ainda há gente nas ruas, e muitos nem conhecem o centro. O CREAS tem serviços disponíveis para diversos grupos vulneráveis, assim, a região não abriga nenhum apoio governamental voltado somente para assistência da população de rua.
A Zona Norte, região em que o Grande Méier está, é a segunda maior em quantidade de pessoas em situação de rua, ficando atrás apenas da região Central da cidade. Dentre os diversos motivos que levam pessoas à necessidade de ficar nas ruas, o aumento das taxas de desemprego durante e após a pandemia intensificou esse panorama de desigualdade social. Em 2020, a Zona Norte tinha 1.504 indivíduos nessa situação e, em 2022, esse número aumentou em 26,5%, chegando a 1.904.]
Pelos dados do último censo da Prefeitura, 40% dos entrevistados afirmaram já ter ficado um dia inteiro sem comer nada e 47% dizem que já passaram um dia completo com apenas o que receberam de doações. A insegurança alimentar é um desafio diário para essas pessoas e, em razão disso, muitos projetos, em sua maioria ligados à grupos religiosos, criam esses trabalhos para ajudar ao próximo. O Méier é palco de muitas igrejas e centros de diferentes religiões e, por isso, o movimento de apoio aos desabrigados é forte.
O crescimento da população em situação de rua é relatado por diversos organizadores de projetos sociais. Isabelle Giuliasse é coordenadora da Caravana da Sopa, trabalho realizado no Centro Espírita Nair Montez de Castro, e contou que ingressou no grupo após assistir a um comercial alertando sobre a necessidade da realização de trabalhos sociais no contexto pandêmico. Com 28 anos de existência, a ‘Sopa’, como é comumente chamada, entrega cerca de 270 refeições nas ruas uma vez ao mês, além de doação de roupas, acolhimento às mães e atividades de evangelização para seus filhos.


Outros projetos voluntários do Méier têm atuado para amenizar a fome e o desamparo nas ruas. A Paróquia Sagrado Coração de Jesus promove a Ação Social Padre Deon, com doações semanais de alimentos a famílias carentes. O Terreno Espírita Caminheiros de Oxalá mantém o Irmãos na Obra, que há cerca de um ano distribui alimentos e remédios a famílias indicadas. Já a Igreja Missionária Evangélica Maranata do Méier realiza capelanias e entrega cerca de 130 quentinhas por semana, além de manter centros de recuperação. A Paróquia Nossa Senhora de Fátima, com o grupo Servos do Amor, oferece 110 quentinhas quinzenalmente e, segundo a coordenadora Ana Luiza de Assis, o número de pessoas nas ruas “parece ter dobrado desde a pandemia”.

O aumento da população em situação de rua no Grande Méier escancara a insuficiência das políticas públicas voltadas à assistência social. Apesar dos esforços de projetos voluntários, a resposta do poder público segue fragmentada, pela falta de unidades de atendimento próximas, de políticas de reinserção efetivas e de programas que assegurem moradia e alimentação digna, um cenário distante da realidade de quem vive nas ruas. Enquanto isso, a rua continua sendo o último refúgio para quem perdeu o direito básico de ter onde viver.
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Excelente reportagem! Informativa e sensível ao mesmo tempo!