ConheƧa o Carnaval virtual
- Bernardo Cunha
- 4 de dez. de 2024
- 9 min de leitura
Plataformas que exibem desfiles de escolas de samba digitais são celeiro de talentos para a maior festa popular do Brasil

Pouca gente sabe, mas a magia dos desfiles das escolas de samba nĆ£o se restringe Ć sĀ avenidas como a MarquĆŖs de SapucaĆ. HĆ” mais de 20 anos, o carnaval tambĆ©m acontece de modo virtual, com escolas de samba, carnavalescos, ilustradores, intĆ©rpretes, compositores e diversos profissionais do setor. A diferenƧa Ć© que o campeonato só pode ser visto na tela do computador e costuma acontecer no segundo semestre do ano.
As escolas virtuais tambĆ©m tĆŖm samba-enredo, alegorias, comissĆ£o de frente e muitas fantasias. A diferenƧa Ć© que tanto as pessoas de carne e osso como os tecidos e a estrutura sĆ£o substituĆdos por imagens, que podem ser estĆ”ticas ou animadas, exibidas ao som do samba escolhido pela escola e cantado pelo intĆ©rprete. Essa modalidade, apesar de ter comeƧado como algo incerto, ao longo dos anos se revelou um ambiente de treinamento artĆstico e um berƧo de profissionais. Hoje grandes nomes do carnaval real, inclusive campeƵes de agremiaƧƵes tradicionais, trazem o carnaval virtual no currĆculo.
Como tudo comeƧou
Miguel Paul, carioca apaixonado por carnaval desde que assistiu seu primeiro desfile na SapucaĆ aos 3 anos de idade, Ć© um dos grandes nomes por trĆ”s da criação dessa manifestação cultural virtual. JĆ” na adolescĆŖncia, MiguelĀ participava de fóruns online sobreĀ desfilesĀ de escolas de samba. Foi tambĆ©m neste perĆodo que passou a se interessar por computação e jogos de videogame como o Football Manager, no qual Ć© possĆvel simular a criação de times de futebol. A uniĆ£o dessas duas paixƵes deu samba. āEu juntei o meu perfil nerd, a minha paixĆ£o por carnaval e meu conhecimento em computação para criar um Futebol Manager do carnaval. AĆ criei o carnaval virtual.ā, declarou ele ao Rampas.

Miguel fundou, em 2003, a Liga Independente das Escolas de Samba Virtuais (LIESV), primeira iniciativa do gĆŖnero. Em outubro do mesmo ano, aconteceu o primeiro desfile totalmente digital. De acordo com ele, desde a criação, jĆ” houve uma grande aderĆŖncia de pessoas interessadas que ficaram sabendo pelo boca a boca iniciado. Ao longo dos anos seguintes, o evento cresceu, foi ganhando mais adeptos e foi se desenvolvendo, tendo sido feito um site da liga, um regulamento oficial com as regras das escolas virtuais e dos desfiles e um aprimoramento no uso de lives para a transmissĆ£o.Ā
Miguel Paul ficou Ć frente da LIESV atĆ© 2006, quando decidiu trocar o carnaval virtual pelo real. Desde entĆ£o, ele Ć© diretor da GRES EstĆ”cio de SĆ”,Ā e a liga cibernĆ©tica seguiu com outros dirigentes.Ā

Com esse pontapĆ© inicial, novas ligas surgiram, algumas formadas por membros dissidentes da LIESV. Esse Ć© o caso da Carnaval Virtual, fundada em 2015 por um grupo de escolas que saĆram da liga original. Hoje, conta ao todo com 49 escolas de samba virtuais, o que faz dela atualmente a maior liga de carnaval virtual do Brasil. Essas escolas virtuais existem em diversas cidades brasileiras, mas a maior parte delas estĆ” no Rio de Janeiro, com 11 escolas ligadas Ć liga.Ā

O processo do carnaval virtual - da criação da escola à apuração do desfile
O presidente da liga Carnaval Virtual, Diego AraĆŗjo, explicou ao Rampas como funcionam todas as etapas de uma escola de samba virtual, desde sua criação, passando pela preparação, chegando ao desfile e todo o processo posterior para se definir as notas e a classificação das escolas na competição.Ā
Para participar do desfile, Ć© precisoĀ criar uma escola, com nome, um pavilhĆ£o, ou seja, um sĆmbolo para representar a escola, como uma bandeira, e um presidente. Com apenas isso jĆ” Ć© possĆvel ter sua escola inscrita na Carnaval Virtual. Assim como nas ligas de escolas de samba tradicionais,Ā a folia digital tem uma estrutura dividida em grupos: Especial, Acesso 1 e Acesso 2. Uma vez inscrita a escola, ela farĆ” parte do Grupo de Acesso 2, onde irĆ” competir por uma vaga no Grupo de Acesso 1 e entĆ£o competir para subir para o Grupo Especial.Ā
AlĆ©m do presidente, o carnavalescoĀ e oĀ intĆ©rprete sĆ£o funƧƵes essenciais para a candidatura da agremiação na competição. O carnavalesco desenvolve o enredo, o tema que a escola irĆ” apresentar na avenida. AlĆ©m disso, desenha todas as fantasias dos componentes das alas, da comissĆ£o de frente, do mestre-sala e porta-bandeira e irĆ” desenhar as alegorias (carros). JĆ” o intĆ©rprete irĆ” cantar o samba-enredo escolhido pela escola. Algumas agremiaƧƵes, como a GRESV ImpĆ©rio IguaƧuano, escola virtual de Nova IguaƧu, trazem tambĆ©m em suas equipes enredistas, rainha de carnaval, musa, mestre de bateria e diretora de baianas.Ā
Assim como no carnaval real, as escolas podem encomendar o samba ou podem fazer competição entre compositores. Algumas escolas virtuais chegam a ter dez canƧƵes competindo pelo posto de samba-enredo , o que supera em nĆŗmero algumas escolas reais. Após a definição desta parte musical, é gravadoĀ em estĆŗdio um Ć”lbumĀ com os intĆ©rpretes de cada escola. Essas gravaƧƵes, feitas com verba própria de cada escola, vĆ£o para as plataformas digitais e podem ser ouvidas por todas as pessoas.Ā
Os desfiles oficiais ocorrem em lives no youtube. O Grupo de Acesso 2 é o primeiro a entrar na avenida virtual , seguido do Acesso 1 e do Especial. Cada grupo tem o seu dia para desfilar. O Regulamento Oficial da Liga determina o tempo que cada escola dispõe para se apresentar. No Grupo Especial, por exemplo, é entre 25 e 30 minutos, sofrendo penalidade caso encerre antes ou depois do determinado. Isso faz com que as transmissões cheguem a ter mais de 8 horas, pela quantidade de escolas. O evento conta com narradores e comentaristas que participam da transmissão voluntariamente falando com o público sobre os desfiles ao vivo.
Apesar de o desfile em si se tratar de um vĆdeo em que vĆ£o passando as alas e as alegorias desenhadas ao som do samba, hoje em dia Ć© comum que as escolas tragam animaƧƵes dos componentes se movendo, da comissĆ£o de frente danƧando e do mestre-sala e porta-bandeira girando.
Após todos os desfiles, hĆ” a apuração feita pelos jurados que irĆ£o dar as notas em cada quesito. No carnaval virtual, existem cinco quesitos que serĆ£o avaliados: enredo, fantasias, alegorias, conjunto e samba. Ao todo, sĆ£o 70 voluntĆ”rios , entre aderecistas, compositores e outros profissionais ligados ao carnaval que se disponibilizam para esse trabalho a cada ano. Definidas as notas e a classificação das escolas, as quatro Ćŗltimas colocadasĀ sĆ£o rebaixadas para os grupos imediatamente inferiores.Ā JĆ” as quatro campeĆ£sĀ sobem para o grupo acima. Dessa forma, de acordo com o presidente Diego, hĆ” uma rotatividade maior entre as escolas, o que impede qualquer tipo de acomodação e promove a competição para se manter ou subir de grupo.Ā
Todos os cargos e funƧƵes dentro da liga, como presidente e diretor administrativo, sĆ£o voluntĆ”rios. Gastos eventuais, como hospedagem e o domĆnio do site, sĆ£o cobertos pela própria equipe ou adquiridos atravĆ©s de doaƧƵes. Algumas parcerias com portais sobre carnaval e outras ligas virtuais ocorrem por meio de permuta de serviƧos de divulgação.

Nascido no Rio de Janeiro, AraĆŗjo trabalha hĆ” anos no carnaval como enredista e ressalta que a liga nĆ£o tem fins lucrativos e que a folia na web Ć© movida principalmente pelo lĆŗdico da arte do carnaval. āA gente bota na tela o sonho de muita genteā, declara. AlĆ©m disso, o carnaval virtualĀ funciona tambĆ©m como preparação e uma vitrine para novos profissionais mostrarem o seu trabalho. Esse carĆ”ter formador foi o que ao longo dos anos fez com que a prĆ”tica deixasse de ser vista como uma simples brincadeira para ser encarada com mais credibilidade, inclusive pelos profissionais do carnaval do mundo real.
Carnaval virtual: um celeiro de bambas
O Rampas conversou com quatro artistas com experiência como carnavalescos de escolas digitais para compreender as suas variadas experiências com o carnaval virtual e como eles enxergam esse processo com relação ao carnaval real.
Fagner Pessoa, 43 anos, nascido e criado em Niterói, Ć© atualmente carnavalesco da GRESV Sociedade da Ćguia Real. Ele conta que seu interesse pelo carnaval vem de famĆlia, sendo uma cultura que ele aprendeu a valorizar em casa. Esse interesse o levou, em 1997, a trabalhar em barracƵes de algumas escolas como aderecista e decorador de alegorias, atĆ© que em 2012, teve que abandonar esse trabalho para focar em sua carreira empresarial. Esse desligamento foi o que o levou para o carnaval virtual. āComecei no carnaval real e fui para o virtual. Pelo estresse do trabalho, eu precisava fazer alguma coisa de arte.ā Assim, em 2019, ele assinou o primeiro desfile virtual. Em 2022,Ā foi campeĆ£o no grupo especial com o enredo āOyĆ” MessĆ£ Orum - A MĆ£e do Entardecerā.Ā
  Desenhos de Fagner Pessoa para o carnaval virtual. Ilustrações: acervo pessoal
MĆ”rcio Ronald, 27 anos, criado em SĆ£o de Meriti, comeƧou a gostar de carnaval assistindo aos desfiles pela televisĆ£o. Com a escassez de vagas para novos profissionais em barracƵes, ele entrou no carnaval de maquete, uma outra modalidade e, posteriormente, entrou para o carnaval virtual.Ā āComo eu queria muito trabalhar com carnaval real, nĆ£o via isso como um hobby, embora fosse. Eu via como um objetivo de vida.ā Seu primeiro desfile virtual foi em 2019 com um enredo sobre o Mussum, mas foi a partir do segundo que MĆ”rcio comeƧou a fazer da atividadeĀ seuĀ portfólio e recebeu um convite para trabalhar como desenhista no carnaval real, onde estĆ” atĆ© hoje.Ā Para ver o desfile de MĆ”rcio Ronald na GRESV UniĆ£o da GĆ”vea de 2022, clique aqui.
Desenhos de MƔrcio Ronald para o carnaval virtual. IlustraƧƵes: acervo pessoal
Jorge Machado, de 43 anos, nascido em Caxias, se apaixonou pelo carnaval ainda crianƧa assistindo ao campeonato da GRES Imperatriz Leopoldinense na televisĆ£o, em 1989. Com o tempo foi se aproximando mais do universo. Em 2018, depois de ter feito uma pós-graduação sobre carnaval, conheceu atravĆ©s de uma amiga a existĆŖncia do carnaval virtual. Demonstrando interesse e recebendo o convite de uma escola que precisava de carnavalesco, Jorge iniciou a jornada comoĀ carnavalesco daĀ GRESV Pau no Burro. āMergulhei no carnaval virtual para ver se eu sou visto, se me enxergam. Eu tenho o carnaval virtual hoje como uma vitrine do trabalho que eu quero exercer futuramente. Eu quero chegar no carnaval realā, disse o carnavalesco, que revelou que a modalidade o levou a fazer figurinos para teatro e atĆ© a trabalhar em um desfile de escolas de samba em Florianópolis. Seu Ćŗltimo enredo na GRESV Pau no Burro se chamou āConvenção das Bruxasā e pode ser visto completo clicando aqui.
 Desenhos do carnavalesco Jorge Machado para o desfile da GRESV Pau no Burro de 2022. Ilustrações: Reprodução/ Site Carnaval Virtual
Por fim,Ā Marcus Ferreira, de 40 anos, atual carnavalesco da UniĆ£o da Ilha, jĆ” era adepto do carnaval virtual desde a criação da modalidade. Participou como carnavalesco do primeiro desfile de todos, em 2003, a convite do fundador da LIESV, Miguel Paul e conquistouĀ o primeiro tĆtuloĀ da história do carnaval virtual. Esse interesse no universo carnavalesco vem de berƧo. āSempre fui incentivado a olhar para a cultura popular e o Carnaval estava inserido nisso por eu ser carioca.ā Ao todo, participou de trĆŖs desfilesĀ virtuais, atĆ© que em 2009 assinou seu primeiro desfile para uma escola real, que naquele ano subiu para o grupo especial. Depois disso, foi carnavalesco de diversas escolas, como EstĆ”cio, Rocinha e ImpĆ©rio Serrano. AtĆ© que em 2020, foi convidado para assinar o desfile da GRES Unidos do Viradouro. Esse desfile, feito em parceria com o carnavalesco TarcĆsio Zanon, ganhou o campeonato na SapucaĆ daquele ano. Sendo campeĆ£o dos desfiles do Rio de Janeiro, Marcus afirmaĀ que o carnaval virtual funciona como um ambiente de treinamento e que comeƧou a desenvolver sua identidade artĆstica nesses primeiros desfiles na LIESV.Ā

O enredo que saiu das telas e foi para a avenida

Embora muitos profissionais tenhamĀ migrado do carnaval virtualĀ para o realĀ ao longo dos anos, hĆ” poucos casos de enredos que fizeram o mesmo caminho . Um dos mais lembrados, tendo sido a primeira vez que isso aconteceu, foi o desfile de 2018 da SĆ£o Clemente, em que o carnavalesco Jorge Silveira levou para a SapucaĆ o enredo āAcademicamente Popularā. Esse enredo, que faz uma homenagem Ć Escola de Belas Artes da UFRJ, jĆ” havia sido feito para a escola virtual GRESV Mocidade Imperiana pelo próprio Jorge, em 2012, quando ele ainda era carnavalesco virtual.
à esquerda, a logo do enredo de 2012 da escola virtual Mocidade Imperiana e à direita a logo do mesmo enredo, reeditado em 2018 na São Clemente. Ilustrações: Reprodução / Blog Jorge Luiz Silveira
āQuando a SĆ£o Clemente, em 2017, me convidou para ser seu carnavalesco, o presidente propĆ“s que eu fizesse aquele enredo que ele havia visto no carnaval virtual. Que eu transformasse aquele conteĆŗdo em um enredo para o desfile da SĆ£o Clemente. Meu desafio foi pegar aquele conteĆŗdo para transformĆ”-lo em um desfile potente para o grupo especial do Rio de Janeiroā, declarou o carnavalesco ao Rampas.
à esquerda, o carro abre-alas do desfile virtual de 2012 e à direita o projeto de abre-alas de 2018. Ilustrações: Reprodução / Blog Jorge Luiz Silveira.
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