Da gráfica ao lixo, a vida curta do santinho eleitoral
Depois de cumprir a função de propaganda, panfletos, adesivos e outros impressos se tornam lixo, aumentam a demanda pela limpeza e enfrentam desafios para chegar à reciclagem
Por: Thaísa de Souza

Às 6h, a escadaria da Estação Marechal Hermes já está tomada por materiais de campanha eleitoral. Às 7h, no caminho entre a Estação Maracanã e a Uerj, os panfleteiros se multiplicam pelas calçadas, enquanto passageiros apressados tentam seguir o trajeto desviando das abordagens. Há quem aceite os impressos, há quem responda com um rápido “não, obrigado” e há quem, poucos metros depois, amasse o material e o descarte. Outros acabam carregando os santinhos até a próxima lixeira. Nas ruas, adesivos ocupam corrimãos e colunas, enquanto panfletos molhados pela chuva se espalham pelas calçadas. A cena se repete com variações durante o período eleitoral. Mas o que acontece com todas essas peças depois da eleição?

Para quem trabalha na distribuição dos santinhos, é impossível saber. Marcelo Vilado, estudante de Educação Física de 21 anos, começou a trabalhar como panfleteiro na semana anterior à entrevista ao Rampas e passa cinco horas por dia distribuindo material próximo à Uerj. Segundo ele, a quantidade de pessoas que aceita os impressos varia conforme o horário: há momentos em que vários passam pegando os panfletos em sequência e outros em que um grupo inteiro recusa o material. Vilado afirma que raramente presencia alguém jogando o panfleto no chão. “A grande maioria que pega às vezes é para ajudar mesmo”, conta. Quando há material sobrando, a orientação recebida é guardá-lo para o dia seguinte.

Em Marechal Hermes, a panfleteira Nilce de Paula, de 61 anos, distribui entre 700 e 800 panfletos em um dia de trabalho, que pode se estender das 8h às 17h, com intervalo para almoço. Ela também relata que os papéis não são descartados pelos próprios trabalhadores. O destino dos impressos entregues, porém, é menos previsível. “Algumas pessoas pegam o panfleto, amassam e jogam fora até às vezes na sua frente”, relata. Outras, segundo ela, guardam na bolsa ou no bolso.
A experiência de Nilce também traz uma comparação com eleições anteriores. Para ela, a quantidade de materiais nas ruas neste ano parece menor. A percepção, no entanto, não é suficiente para determinar se houve de fato uma redução na produção ou no descarte desses produtos. Ainda assim, o contraste entre centenas de impressos distribuídos diariamente e a variedade de destinos relatados pelos próprios panfleteiros mostra que o caminho do material não termina na entrega.
Antes de chegar aos eleitores, cada panfleto passa pela produção da campanha e precisa obedecer às regras de identificação da Justiça Eleitoral. A legislação determina que os materiais informem o CNPJ ou CPF de quem contratou e confeccionou a peça, além da tiragem. A exigência está prevista na Resolução nº 23.610 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e permite identificar a origem do material e quantas unidades foram produzidas.

Entre os impressos reunidos pela reportagem principalmente no trajeto entre a Estação Marechal Hermes e a Uerj, em dias de aula — com algumas peças adicionais coletadas em outras regiões do Rio —, as tiragens declaradas variam de mil exemplares a 1,5 milhão em um único modelo. Também foram encontrados materiais com 100 mil, 130 mil, 300 mil e 400 mil unidades. Os números não representam necessariamente toda a produção de uma candidatura, que pode utilizar diferentes modelos e lotes, mas dão dimensão do volume colocado em circulação. Já a prestação de contas eleitoral, que reúne despesas e documentos fiscais de candidatos e partidos, permite acompanhar esses gastos, mas os dados ainda estão em atualização: o envio das prestações referentes ao primeiro turno começou em 5 de outubro e deve se estender até 3 de novembro.
Depois da entrega, o caminho depende também de quem recebe o material. Parte dos santinhos é guardada, parte vai para bolsas ou bolsos e outra acaba descartada. Quando o descarte ocorre em uma lixeira, o impresso deixa de circular sem necessariamente gerar um problema urbano. Quando é deixado na calçada, preso a um poste ou espalhado perto de um local de votação, passa a integrar o fluxo de resíduos que precisam ser retirados das ruas.

Do lado das campanhas, a orientação sobre o que acontece com a peça que chega ao chão também interfere nesse percurso. Cristhiane Malungo, assessora da campanha de Prof. Josemar, candidato a deputado estadual pelo PSOL, diz que recolhe os materiais que encontra durante a distribuição. Segundo ela, o volume de lixo eleitoral observado nesta eleição parece menor do que em pleitos anteriores. “A gente recolhe tudo. Por exemplo, se eu tô vendo que caiu no chão, eu pego para não deixar ali, porque a gente ainda trabalha. Eu acho que essa eleição, comparada a outras, teve um quantitativo menor de lixo. Eu sou uma mulher de 53 anos, já vi muitas eleições. Eu lembro de outras em que isso aqui já tava cheio de papel, adesivo colado em vários lugares. A gente teve uma restrição, mas também teve uma legislação eleitoral que deu uma segurada nisso. Mas eu acho que a gente ainda pode melhorar muito nesse sentido.”
A Justiça Eleitoral considera irregular o chamado derramamento de santinhos, caracterizado pelo espalhamento de peças em vias públicas próximas aos locais de votação. A prática pode ocorrer na véspera ou no próprio dia da eleição e está sujeita à multa prevista para propaganda eleitoral irregular. O TSE também estabelece que, no dia da votação, qualquer forma de abordagem que possa influenciar o eleitorado é proibida e pode caracterizar crime de boca de urna.
O destino desses materiais muda novamente quando eles entram na rotina da limpeza urbana. O gari Paulo Rodrigo da Costa Teixeira, de 43 anos, que trabalha há 18 anos na Comlurb e atua na região de Santa Cruz, percebe uma mudança em sua rotina durante o período eleitoral. Segundo ele, seu volume de trabalho “triplicou nessa época” e há “muito mais lixo” durante a atual eleição. O resíduo de campanha é recolhido junto aos demais, mas depois passa por uma equipe responsável pela separação dos materiais recolhidos. Para Rodrigo, parte do problema também está no comportamento de quem recebe os impressos: “Não reconhece o nosso trabalho, pegam e jogam tudo no chão.” A percepção de Rodrigo contrasta com a de Nilce e Cristhiane, que relatam uma quantidade menor de material nas ruas em comparação com eleições anteriores. As experiências são localizadas e não permitem concluir, por si só, se houve aumento ou redução do lixo eleitoral na cidade.
Outro momento de preocupação para a limpeza urbana é o domingo de votação, quando a circulação de eleitores se concentra no entorno dos locais das seções. Parte desse volume está ligada a um fenômeno conhecido como “voo da madrugada” — o derramamento de santinhos na véspera e no próprio dia da eleição. A prática é considerada propaganda irregular e está sujeita à multa que vai de R$ 2 mil a R$ 8 mil.

Em pleitos anteriores, a Comlurb mobilizou equipes para atuar durante e depois. Nas eleições municipais de 2024, a companhia informou ter removido 167 toneladas de material de propaganda das ruas do Rio. A operação alcançou as 49 Zonas Eleitorais e mobilizou 3.621 garis e 294 agentes de limpeza urbana. Em 2022, foram recolhidas 128,2 toneladas no primeiro turno e outras 28 toneladas no segundo. Em 2020, foram 90,1 toneladas e 35,4 toneladas. Já em 2018, a cidade registrou 85 toneladas na primeira etapa.
A Comlurb informou que recolheu 423 toneladas de resíduos de material de propaganda eleitoral da cidade durante a operação do primeiro turno, realizada entre o sábado (3), quando começou a distribuição dos equipamentos, à véspera do primeiro turno, e a manhã de segunda-feira (5). O volume de lixo foi 153,3% superior ao registrado no primeiro turno de 2024 e 229,9% maior que o de 2022. Para o trabalho de limpeza, a companhia mobilizou 3.621 garis, 294 agentes de limpeza urbana e 402 fiscais, que atuaram no entorno das Zonas Eleitorais do Rio. A operação também contou com 333 veículos, entre caminhões compactadores, basculantes, varredeiras, carros-pipa e motobomba, além de incluir a lavagem das vias com água de reuso.
A limpeza das ruas também não encerra necessariamente o ciclo do material. Para as sobras que permanecem com partidos e campanhas, o TRE-RJ mantém o projeto Eleições Sustentáveis, que orienta o encaminhamento de impressos, plásticos, adesivos, tecidos, hastes de bandeiras e outros materiais para cooperativas e associações de catadores. Esse fluxo, porém, é diferente do material recolhido pela Comlurb. Uma coisa é a sobra que ainda está sob responsabilidade das campanhas; outra é o resíduo já descartado e retirado das ruas. A existência de alternativas coloca em dúvida se produzir tanto material impresso é, de fato, inevitável.
É nesse ponto que algumas campanhas apresentam alternativas para reduzir a quantidade ou modificar os materiais utilizados na propaganda. A candidatura de Tainá de Paula a deputada federal pelo PT-RJ afirma em seu site oficial que adotou medidas como redução de tiragens, prioridade para materiais digitais e uso de papel reciclado ou papel-semente, além de afirmar que pretende encaminhar as sobras para cooperativas. Já a de Tereza Arapium, candidata a deputada estadual pelo REDE-RJ, apresentou, em 2026, o chamado “santinho-folha”, feito com folhas naturais. Segundo reportagem da Veja, mais de mil unidades já haviam sido distribuídas durante a campanha. As iniciativas partem das próprias e não eliminam os resíduos eleitorais, já que a propaganda também envolve adesivos, bandeiras, faixas e banners, mas mostram alternativas adotadas antes que o material chegue às ruas.
Até lá, o percurso de cada santinho continua dependendo das escolhas feitas antes e depois da distribuição — e, para quem trabalha na limpeza urbana, parte desse percurso termina no chão.
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