Dia de São Cosme e Damião: a arte e a fé vestidas de brincadeira
Entenda as raízes da tradição religiosa e cultural que todo setembro toma as ruas do Rio de Janeiro
Por João Otávio Alves

Há alguns dias em que as crianças acordam com um ânimo diferente. Elas se levantam cedo, se arrumam apressadamente e não contêm o entusiasmo ao sair de casa. Nas ruas de vários estados brasileiros, o dia 27 de setembro, é um desses dias, e o motivo é um só: pegar doces de São Cosme e Damião, santos celebrados nesta data. É o dia em que a rua se torna uma caça ao tesouro, e as crianças correm juntas para se aventurar na maior brincadeira do ano e percorrer casas e praças em busca dos saquinhos de papel característicos. Mais do que doces, eles guardam memória, arte e fé em formato de brincadeira.
No Rio de Janeiro, cidade marcada pelas encruzilhadas da fé, o 27 de setembro marca nominalmente a homenagem a Cosme e Damião, mas na cultura de terreiro é dia de celebrar os Ibeji e os Erês. A mãe de santo Paula Cristina, sacerdotisa da Casa de Cura Maria Conga e Cipriano das Almas em Sepetiba, explica que os médicos gêmeos, canonizados no catolicismo por terem dedicado a vida a cuidar de enfermos gratuitamente, têm sua contraparte sincrética na cultura de terreiro com os Ibeji e os Erês. Na matriz africana, os Ibeji são divindades gêmeas infantis, enquanto os Erês são, no candomblé, representações infantis do orixá de cada médium. Na tradição popular, uma terceira figura foi adicionada à essa egrégora; a de Doum. Doum seria, diferente de seus dois irmãos, uma criança que nasceu após Cosme e Damião. Na umbanda, ele representa as crianças de até sete anos, sendo protetor delas. As crianças na umbanda também são espíritos que já viveram em terra e morreram jovens, apresentando-se hoje nos terreiros pelo corpo dos médiuns. E também são celebradas também no dia 27.
O dia de Cosme, Damião e Doum traz celebrações nas ruas e nos terreiros. Pessoas vão às portas de suas casas para distribuir doces a crianças organizadas em filas por vezes tão grandes, que ocupam uma rua inteira. Nos terreiros, os festejos reverenciam a sabedoria e o axé das crianças. Algumas casas fazem campanhas de doação para a entrega de doces, e também celebram suas entidades.
Essa cultura é representada e reforçada por meio da arte. O samba “Falange de Erê”, sucesso na voz de Zeca Pagodinho, eternizou a fé. No álbum “Patota de Cosme”, o artista voltou ao tema da fé nos santos. O álbum inspirou uma exposição homônima produzida pela ArtCore Galeria, espaço localizado em Bangu, que reuniu em 2025 as obras visuais temáticas de doze artistas sobre o sincretismo de Cosme, Damião, Ibeji e Erês.

A artista visual Agata Julia, moradora de Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, pôde colocar um pedaço de sua história e sentimentos na exposição. O quadro “Padrin dos Menó”, que trata de infância e ancestralidade, reflete o imaginário da artista sobre o dia 27 de setembro. “É um dia em que volto o meu olhar para a importância das crianças. Faço minhas orações, pedindo proteção e saúde, mas principalmente para que a energia das crianças seja preservada, que elas possam viver sua infância com liberdade, cuidado e felicidade”.
Agata também é uma das articuladoras do evento cultural “Colorindo a Rua”, voltado para crianças de comunidades da Zona Oeste. A festa, que vai para a sua segunda edição no ano de 2026, proporciona atividades artísticas e educativas, como batalha de rima, contação de histórias, oficinas de instrumentos musicais, pintura de mural e a clássica entrega de doces. Agata conta que a reunião de voluntários e colaboradores que deu vida ao evento, cujo principal objetivo era ofertar às crianças algo diferente dos problemas de suas comunidades, frequentemente retratados no noticiário.
Ao produzir obras e eventos que concentram a energia cultural e religiosa do 27 de setembro, Agata exprime a afetividade de sua infância, reavivando uma memória coletiva e cultural. “Também estou pensando nessa criança que existe em mim e na importância de garantir que outras crianças tenham a oportunidade de sentir a mesma alegria”.
Outros colaboradores do “Colorindo a Rua” relatam os valores da tradição em suas memórias. Rodrigo de Abreu, universitário morador de Padre Miguel, Zona Oeste do Rio de Janeiro, relembra o dia de São Cosme e Damião na infância como uma representação da coletividade. “Na véspera eu já dormia na casa dos meus primos porque sabia que, no dia seguinte, iríamos acordar cedo e correr o bairro para pegar doce”. No fim do dia, ele e os primos separavam os doces que tinham pegado e dividiam entre eles. A educadora Açucena Silva conta que saía pelas ruas de Realengo com sua avó, buscando pelos saquinhos. Ao fim do dia, visitavam as festas de umbanda e candomblé. “Eu ficava até o final e brincava com os Erês”.
Entretanto, o dia 27 nunca foi marcado apenas pela diversão. Apesar de ser uma data sincrética entre religiões de matriz africana e o catolicismo, nem todas as doutrinas cristãs a enxergam como brincadeira. Açucena fala sobre como levava doces “escondidos” para suas amizades de escola que, por serem evangélicas, não podiam pegá-los. “Eu achava errado os pais proibirem. Na minha cabeça não fazia sentido. Eu fazia catequese e frequentava o candomblé. Falava ‘Ué, as tias da catequese falam que não tem problema, come sim’”.
Bruna Falcão, estudante de Educação Física, diz que nunca pegou doces, por influência da tia, que era evangélica. Além de não permitir que a sobrinha consumisse, afirmava que os doces eram alimentos “ruins”. “Ela falava para eu não comer os doces de nenhum dos meus amigos. A patroa da minha vó sempre me mandava e eu ficava com medo de comer”.
Sobre o preconceito em torno da tradição do dia 27, Mãe Paula Cristina afirma ser sobre a limitação que determinadas crenças cristãs têm em torno dos santos. “Dependendo da religião, para os cristãos não importa se é o dia 27, dia de São Jorge, para eles o preconceito já é enraizado, por não acreditarem em nenhum tipo de santo”. Ela ainda ressalta a associação feita da data ao satanismo e à feitiçaria, que para os cristãos são práticas negativas. Apesar da influência das crenças divergentes, Mãe Paula também vê a existência de pessoas essencialmente preconceituosas, independente da religião.
Agata Julia explica que as pessoas que demonizam as religiões afro-brasileiras e suas tradições, não compreendem que essas também são um movimento político. Tanto as casas de axé quanto os movimentos culturais como o Colorindo a Rua mobilizam pessoas para doar e participar, reafirmando a importância das crianças e fortalecendo os vínculos entre aqueles que constroem a festa. “Aí é que mora o axé. Nesse espaço de cura, acolhimento e continuidade, que reconhece a criança como símbolo de alegria, sabedoria e renovação”.
Muitas pessoas que não puderam participar dessa tradição na infância por motivos religiosos veem hoje a oportunidade de participar. A pedagoga Rosilaine Curcino conta que foi martirizante ser uma criança forçada a ser evangélica, sem poder pegar doces como seus amigos. Hoje, ela leva seus sobrinhos e sua filha para viverem as experiências que para ela foram proibidas. “Mesmo sabendo que é algo bom, quando os vejo vindo felizes com os saquinhos, penso: ‘Caramba, nunca vou saber o que é essa sensação'”. Por esse motivo, sempre se envolve em qualquer atividade que mantenha viva a tradição do dia.
Mesmo contrariada e alvo de preconceito, a tradição de São Cosme e Damião segue viva nos subúrbios e comunidades cariocas, influenciando a cultura e fortalecendo crenças. Iniciativas artísticas, religiosas e sociais voltam os holofotes para a fé e coletividade, fortificando essa tradição que é tão única e tão presente no cotidiano dos brasileiros.
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