Do dengo ao samba, exposição mostra raízes da herança bantu no cotidiano brasileiro
Mostra Nossa Vida Bantu, em cartaz no MAR, retrata as muitas influências da rica cultura desse povo africano trazido ao país como escravizado
Por Gabriela Martin e Mariana Castro

Corcunda, leque, samba, marimbondo, moleque, carimbo, fubá, caçula, cochilar, quitanda, muvuca, bunda, cafuné, gingado — todas essas expressões integrantes do vocabulário brasileiro têm raízes nas línguas faladas pelos povos bantu. A herança bantu também aparece em comidas, corpos, músicas, no jeito de falar e criar vínculos. Esse legado é o tema da exposição Nossa Vida Bantu, Em cartaz no Museu de Arte do Rio (MAR). Com 50 obras de 28 artistas, a mostra sintetiza a presença desse povo no cotidiano brasileiro.
Originários da África Central e Austral, os povos bantu compartilham línguas de uma mesma família, além de práticas religiosas, arte, culinária, música e outras atividades culturais. Estima-se que, ao todo, 4 milhões de pessoas africanas escravizadas foram trazidas ao Brasil. Cerca de 75% delas eram de origem bantu, de territórios hoje situados na Angola e na República Democrática do Congo. Mesmo após a escravização desses povos, marcada pela violência e pelo apagamento, a cultura bantu resistiu.
A mostra evoca a ancestralidade bantu e convida os visitantes a mergulhar em um cenário imersivo.As paredes e o chão das salas são revestidos por uma mesma textura: fibras de coco, elemento tradicionalmente associado à cultura africana e amplamente incorporado nas expressões afro-brasileiras. Em cada parte da mostra, o visitante se vê envolto na narrativa de Nossa Vida Bantu, com trilhas sonoras que remetem a um espaço de valorização dos saberes religiosos e ancestrais, com cantos da umbanda, candomblé e ritmos como o maracatu. Sol Kelm, turismóloga argentina e visitante da mostra, disse ter pouco conhecimento sobre a cultura afro-brasileira e as obras — principalmente os documentários — lhe trouxeram muitas informações novas acerca do tema.

O desconhecimento da herança bantu acaba impedindo a a valorização e o reconhecimento da contribuição cultural desses povos. “A exposição cumpre esse papel: faz a gente refletir sobre aspectos do nosso cotidiano que têm origem bantu, que fazem parte de quem somos. Mas acredito que só conseguimos valorizar aquilo que conhecemos. É preciso estar disposto a enxergar outras perspectivas, outras culturas e reconhecer isso dentro de nós”, explica Gabriela Dias, monitora museal do MAR.
Entre os destaques da mostra está a obra da artista Aline Motta, que investiga a origem da cantiga infantil “Escravos de Jó”. A instalação conta com imagens projetadas no chão em formato circular. Ao fundo, ouve-se a cantiga de roda. A proposta da artista foi mergulhar na história da brincadeira e contar como ela carrega símbolos das estratégias de resistência utilizadas por pessoas escravizadas.Na última sala da mostra, outro destaque chama atenção dos visitantes: as telas Jogo Interno e Jogo 2, da artista Márcia Falcão. Cobrindo a parede do chão ao teto, as telas integram a série Capoeira em Paleta Alta, na qual a artista toma a capoeira como fundamento estético e político. Durante o processo criativo, Márcia se inspirou em golpes de capoeira —como a Armada, a Bênção e a Meia-lua de frente. “Os golpes de capoeira têm nomes muito imagéticos, e a partir desses nomes eu construí a composição, o movimento e o potencial do gesto nas pinturas”, contou a artista.
Márcia afirma que, como artista, reconhece a necessidade de cuidado ao abordar a cultura bantu. “Eu tento ir para essas terras de maneira respeitosa, porque, embora eu seja carioca e toda a questão da cultura bantu esteja no nosso dia a dia, muitas questões aprofundadas sobre a própria capoeira não me incluem”, reconhece.
A herança bantu está nas narrativas históricas, nos rituais preservados com reverência, e sobretudo, nas pequenas cenas do dia a dia. Márcia compartilha um exemplo íntimo que revela essa presença enraizada: “Toda noite minha filha vem e me fala: ‘mamãe, quero denguinho’”, contou. A palavra “dengo”, tão comum nas relações de afeto, tem origem bantu, assim como tantas outras que usamos sem perceber suas raízes ancestrais.
IMPORTÂNCIA E REFLEXÃO SOCIAL

Segundo o monitor museal Marcos Vinícius Firmino, Nossa Vida Bantu também une elementos culturais dos povos originários brasileiros e africanos. A mostra convida o público a acessar um campo simbólico, em que mito e existência se entrelaçam. “É um campo simbólico que trabalha as míticas das concepções de vida, morte, começo, meio e fim”, explica.
A exposição também tensiona as fronteiras entre o que se considera arte erudita e o que se rotula como cultura popular, distinções construídas historicamente por uma lógica dominante, que hierarquiza expressões culturais a partir de uma concepção europeia. “Eles separam a cultura e denominam a definição do que é arte e do que não é. Arte seria uma definição de algo que pertence à herança europeia, enquanto a cultura popular seria associada aos povos cujas concepções e dinâmicas culturais são vistas como diferentes do modelo cultural imposto. É dado um valor a cada uma das culturas, e o simbólico é menosprezado”, completa Marcos.
Para a artista Márcia, essa disputa simbólica não está apenas na curadoria ou no museu, mas atravessa toda a história da arte. Ela afirma compreender que a arte, especialmente a pintura, foi fortemente eurocentrificada em razão da forma como vem sendo divulgada. E defende, ainda, que a produção artística pode exercer um papel educativo e de restituição cultural, ao revelar saberes e histórias silenciadas por interesses políticos e econômicos.
Apresentada pelo Instituto Cultural Vale, com curadoria de Marcelo Campos e Amanda Bonan junto ao curador convidado Tiganá Santana, Nossa Vida Bantu segue em cartaz até o dia 31 de maio de 2026 como principal mostra do MAR, na Praça Mauá, no Centro do Rio de Janeiro. A compra do ingresso possibilita a visita em todas as exposições e custa R$20 a inteira e R$10 a meia, com exceção das terças-feiras, quando a entrada é gratuita.
Aqui, a exposição em vídeo:
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