Excesso de anabolizantes traz riscos para o coração e a saúde mental
Morte de fisiculturista amplia discussão sobre produtos para hipertrofia muscular e exposição exacerbada do corpo
Por Livia Bronzato
Nick Walker acaba de conquistar o maior título do fisiculturismo mundial. Aos 32 anos, o norte-americano venceu o Mr. Olympia 2026, no sábado (27), e levou pela primeira vez o troféu da categoria Open, a principal do esporte. O evento coloca novamente sob os holofotes um universo em que músculos, dietas extremas e rotinas de preparação são transformados em conteúdo para milhões de pessoas nas redes sociais.

Nesse ambiente, o uso de anabolizantes aparece cada vez mais integrado ao discurso sobre construção muscular. Anabolizantes são substâncias que imitam ou derivam de hormônios, como a testosterona, usadas para aumentar a massa muscular e o desempenho físico. A exposição pode fazer com que uma prática de alto risco pareça parte natural do caminho para alcançar aquele corpo. O uso dessas substâncias pode se tornar cada vez mais familiar, especialmente entre jovens que enxergam no físico de atletas uma referência de beleza e desempenho. Entre fotos de músculos e vídeos de treinos, porém, ficam menos visíveis os riscos e os custos de uma rotina construída para ultrapassar os limites do corpo.
O fisiculturista Arthur Pires, 21 anos, iniciou sua jornada há quase quatro anos e conta ao Rampas suas motivações para se tornar atleta: “Acabei me apaixonando. Sempre fui ligado a esportes e mais só, então me vi em um cenário que apenas dependia de mim mesmo.”
Com acompanhamento de um cardiologista experiente na área do fisiculturismo, Arthur usa anabolizantes há um ano e meio para competição. Ele explica que é indispensável ter controle médico e fazer exames periódicos durante a utilização de qualquer tipo de hormônios. “É fundamental que a rotina esteja o mais alinhada possível. Meus exames estão sempre em dia e monitorados por um profissional”, conta.
Para além da saúde física, Arthur destaca a necessidade de cuidar da saúde mental. “Faço terapia, é imprescindível na vida de um atleta de alto rendimento, especialmente que passa por extremos tão fortes quanto um fisiculturista”, afirma. É fundamental que os competidores profissionais estejam bem amparados tanto psicologica como fisicamente, já que em determinados momentos da preparação ficam mais suscetíveis a estresses, devido a overtraining, prática em que se treina além da capacidade considerada saudável, ou a baixa ingestão calórica.

O atleta se preocupa ao expor sua rotina nas suas redes sociais porque entende que o mais importante sobre o uso de anabolizantes é conscientizar sem promover. “Deve-se deixar nítidos todos os possíveis colaterais e problemas oriundos do uso. No mais, só apoio o uso se for com intuito de se tornar atleta profissional e fazer carreira no esporte”, diz ele.
Ele também procura mostrar uma alimentação variada nas redes sociais, com refeições livres e receitas diferentes, para mostrar que a dieta não precisa ser estática e chata. Por isso, compartilha refeições livres e diferentes receitas no seu dia a dia.
A preocupação de Arthur com a normalização do uso de anabolizantes nas redes sociais ganha ainda mais relevância diante da morte do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, de 22 anos. Para Pires, influenciadores e atletas devem conscientizar sobre os riscos e efeitos colaterais, e não apresentar o uso de hormônios como algo “legal” ou sem consequências, como parte deles fazem.
Em maio deste ano, a morte de Ganley impactou a comunidade. O caso foi associado a uma morte súbita causada por cardiomiopatia hipertrófica, doença que pode ser agravada pelo uso de anabolizantes. O jovem era um nome promissor dentro do esporte e, nos últimos meses, compartilhava nas redes sociais que havia iniciado o uso de hormônios. “Depois do caso de Ganley, diversos atletas desistiram ou se afastaram por tempo indeterminado. A alta absurda que o esporte teve nos últimos anos tirou a percepção dos atletas sobre os riscos do uso”, comenta Pires.

A ideia é a hipertrofia, mas quando a conta vem, o preço é pago todo o corpo. Diversos pesquisadores se aprofundam nas consequências relacionadas à saúde após a utilização de hormônios.
Um estudo observacional publicado em 2024 pela revista JAMA, intitulado “Mortality Among Users of Anabolic Steroids” (“Mortalidade entre usuários de esteróides anabolizantes”), apontou um risco de mortalidade 2,81 vezes maior entre aqueles que utilizavam a substância quando comparados ao grupo que não usava. Entre as causas naturais de morte apareceram principalmente doenças cardiovasculares e câncer. Vale salientar que o estudo, por ser observacional, identifica uma associação e não permite afirmar que os anabolizantes tenham causado individualmente todas as mortes observadas.
Pesquisadores ligados ao Hospital Universitário de Oslo também encontraram associação entre o uso prolongado de esteroides anabolizantes e sinais de envelhecimento cerebral mais acentuado. Em um estudo com exames de imagem, usuários de longo prazo apresentaram diferenças em medidas relacionadas à idade cerebral quando comparados a não usuários.
O coração também pode ser afetado pelo uso. Mesmo após a interrupção, danos relacionados ao colesterol e à rigidez das artérias podem ser permanentes, como diz o estudo holândes HAARLEM, publicado pelo European Journal of Endocrinology (Jornal Europeu de Endocrinologia).
Acumulando milhões de visualizações, atletas e influenciadores se tornaram referências para quem acompanha o universo fitness. A diferença entre compartilhar uma experiência pessoal e incentivar sua reprodução, porém, nem sempre é evidente. No caso do fisiculturismo, uma rotina construída para competições exige condições que não fazem parte da realidade da maioria dos praticantes de academia. Para Arthur, o conteúdo precisa deixar essa distinção clara, especialmente para os jovens que acompanham os atletas.
Apesar dos riscos, Arthur não pretende abandonar o esporte. Para ele, a decisão de competir envolve conhecer os possíveis efeitos do uso de hormônios e manter acompanhamento profissional. A experiência, no entanto, não deve ser tomada como um modelo universal. Em um ambiente digital que transforma resultados físicos em referência, a informação sobre o que existe por trás deles também precisa fazer parte da conversa.
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