Favelas do Rio sofrem com menos sombra e mais calor
Dados do IBGE revelam que, em 141 comunidades da cidade, 100% dos domicílios ficam em ruas sem arborização
Escrito por: Rafaella Fonseca
Em muitas comunidades do Rio de Janeiro, o calor extremo entra sem pedir licença. Do lado de fora, a rua também não dá trégua, e caminhar sob o sol forte, sem uma árvore por perto, faz parte da rotina. Pedro Santos, assistente administrativo de 23 anos, sabe bem o que é isso. Ele morava numa comunidade em Quintino Bocaiúva, região identificada pelo IBGE como uma das menos arborizadas da cidade. São áreas de favelas e comunidades urbanas onde 100% dos domicílios pesquisados pelo instituto estavam em ruas sem arborização. "Dentro de casa o calor era insuportável. Você sai do banho já suado para ficar suando debaixo do ventilador. É realmente desconfortável, não tem outra palavra", desabafa.
Os dados do IBGE são de 2022 e avaliaram a arborização em 814 áreas de favelas e comunidades do município do Rio. Em 141 delas, nenhuma casa estava numa área onde houvesse árvores ao redor. Em outras 242 comunidades, os índices de falta de arborização ficam entre 99,91% e 80,04%. Com isso, das 814 favelas e comunidades pesquisadas, o Rio tem 383, ou seja, quase metade (47%), com tem pouquíssimo ou nenhum verde por perto. Os percentuais de todas as áreas podem ser consultados no gráfico interativo ao final desta reportagem.
Entre Irajá e Vista Alegre, o calor extremo e a falta de sombra mudam até a rotina de quem estuda. A estudante Tainá Boeno, de 23 anos, nascida em Curitiba e moradora de Irajá, só se matricula em disciplinas da tarde durante o verão. "Eu escolho matérias que estejam de tarde porque é uma garantia que vou conseguir sair de casa. Tanto minha família quanto eu já passamos mal por conta do calor, a pressão cai e tem a questão da insolação também", relata.

O centro de Vista Alegre, a cerca de 1 km da casa de Tainá, é conhecido nas redes pelo letreiro colorido com o nome do bairro, enfeitado com algumas palmeiras plantadas em vasos ornamentais. A coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da ESDI/Uerj, Bárbara Thomaz, explica por que a vegetação escolhida, apesar de agregar visualmente ao ambiente, não produz necessariamente benefícios ambientais para a população.
"Isso pode acontecer quando a preocupação com a presença visual é maior do que a função ambiental da vegetação. Uma árvore urbana precisa ser escolhida pelo espaço disponível, pela capacidade de gerar sombra, pela contribuição com a biodiversidade, etc. Espécies pequenas, em vasos, sem copa significativa, podem até valorizar a paisagem, mas não vão produzir benefícios ambientais", afirma.
Dentro de casa, o alívio custa caro. Ventiladores e ar-condicionado ficam ligados por muito mais tempo e pesam na conta de luz. "A gente já se sente vulnerável quando o verão começa a chegar. Agora, com o El Niño, tivemos que fazer um esforço para colocar um ar-condicionado em casa. Com o calor normal já temos quadros de desmaio, imagina agora", completa Tainá.
O receio da estudante tem respaldo nos dados. Segundo o boletim número um do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), divulgado em 29 de agosto, a probabilidade de o El Niño permanecer até pelo menos o início de 2027 é superior a 90%. O órgão também aponta alta chance de o fenômeno se manifestar de maneira muito forte em 2026, quando a temperatura da superfície do mar (TSM) no Oceano Pacífico Equatorial fica mais de 2,0°C acima da média.
Só que a proteção contra o calor não chega a todos do mesmo jeito. No Brasil, cerca de 30% das pessoas vivem em ruas sem árvores, mas, entre os moradores de favelas, esse índice sobe para 65%. No Rio de Janeiro, a desigualdade se repete. Apenas 28,4% dos moradores de favelas da cidade vivem em trechos arborizados, enquanto, na cidade como um todo, essa proporção sobe para 71,6%.
Antes mesmo da chegada de um El Niño mais forte, o calor já deixava marcas na saúde dessas famílias. Patrick Veloso, estudante de 20 anos e morador de Bangu, tem dermatite e enfrenta o sol como uma batalha. "Preciso ir de calça para o estágio e para a faculdade. Só andar até o ponto já gera um calor colossal, e quase não tem árvore no trajeto para dar uma folga. Meu nariz já chegou a sangrar por causa do calor", conta.
Na casa de Pedro, o problema atingia a avó. "Ela tinha problema de pressão e muitas vezes desmaiava no sofá. A gente botava gelo, ventilador perto do rosto dela, tudo para acordá-la", relata.

Não é coincidência que os moradores das áreas menos arborizadas do Rio sofram mais com o calor. O engenheiro florestal Ricardo Sodré, pesquisador em silvicultura urbana, explica que a presença de árvores bem escolhidas está diretamente ligada à temperatura do local. "A copa atua de forma diferente das estruturas urbanas. Enquanto as paredes passam o dia inteiro absorvendo o calor do sol e só o devolvem depois, as árvores usam essa energia solar para transpirar", afirma.
Para ele, o benefício vai muito além da sombra. "A ciência já comprovou que a arborização ajuda no controle de enchentes, melhora a qualidade do ar, reduz ruídos, produz alimentos, como os frutos, estimula a interação social, diminui o estresse e faz bem para a saúde mental", completa.
A assistente de segurança do produto Gabriela Medeiros, de 26 anos, mora em Copacabana, um dos bairros mais arborizados do Rio de Janeiro, e diz que a diferença entre a Zona Sul e outras regiões da cidade é nítida. "Por qualquer rua que eu passe perto de onde moro, encontro uma bela arborização. As árvores acabam virando casa de muitos animais, o que cria uma harmonia entre a natureza e o ambiente. Já nas regiões com poucas árvores, a paisagem é sem vida, e a temperatura é muito elevada e abafada", afirma.

Se Gabriela estranha o calor quando sai da Zona Sul, Guilherme sente o contrário. O jornalista Guilherme Nery, de 28 anos, mora em Madureira e percebe o alívio sempre que visita regiões mais arborizadas. “Lá é comum ver ruas repletas de árvores, não só nos parques. Aqui na Zona Norte, os prédios e a falta de árvores geram um calor extremo. Na beleza, nem se fala. Por aqui só vemos postes e mais postes", desabafa.

Alguns residentes contam que nem sempre foi assim. Para o estudante João Pedro Alves, de 22 anos, a Rocinha tinha mais verde do que hoje, e as construções foram ocupando o espaço da vegetação ano após ano. "Lembro que, na minha infância, alguns espaços por aqui eram completamente cobertos por vegetação. Hoje eu olho para os mesmos lugares e vejo construções no topo dessas matas. Com o crescimento da população, as pessoas precisaram ir subindo as casas pelo morro, e ninguém replantou a região", conta.

O relato de João Pedro reflete o que Bárbara identifica como uma das causas da falta de árvores nas comunidades. "A arborização tem relação direta com a forma como os territórios foram ocupados e urbanizados, e também com os investimentos públicos que cada um recebeu ao longo do tempo. A disparidade entre as áreas arborizadas e as que não têm árvores expressa a distribuição desigual dos benefícios ambientais da cidade. Por isso, é importante olhar para esses dados como um indicador de desigualdade no acesso à qualidade ambiental", afirma.
Em alguns bairros, a ausência das árvores se escuta. No Méier, Ana Paula da Silva, bancária de 55 anos, passou de reclamar do barulho dos pássaros a sentir falta deles. "Quando viemos morar aqui, tinha tanta árvore que a gente acordava com o canto dos pássaros e até reclamava. Hoje não se ouve mais, porque podaram todas as árvores até o tronco", conta.

Entre os moradores das áreas sem arborização ouvidos pela reportagem, a avaliação é unânime: um projeto de plantio de árvores no bairro melhoraria muito a qualidade de vida. A preocupação, porém, também foi a mesma em todas as conversas: quem vai cuidar das mudas depois?
A estudante Tainá Boeno explica que a falta de manutenção pode transformar a solução em um novo problema. "Sem manutenção, o plantio não vai de fato combater o racismo ambiental que a gente sofre, porque as pessoas vão começar a associar as árvores a algo ruim. Isso pode acontecer se, por exemplo, as calçadas ficarem sempre cheias de folhas ou o chão estufar por causa das raízes, o que atrapalha a mobilidade", afirma.
Se os moradores temem que as mudas sejam abandonadas, Bárbara Thomaz aponta que a solução é resolver o problema desde o planejamento. "A arborização deve ser tratada como uma política urbana permanente, com metas e prioridades territoriais claras. Ou seja, não é sobre aplicar o mesmo modelo em toda a cidade porque cada área tem características físicas e sociais diferentes. Também é fundamental garantir recursos não apenas para o plantio, mas para a manutenção das árvores depois que elas são implantadas. E os moradores precisam ser ouvidos porque são eles quem conhecem os caminhos mais utilizados, os espaços de convivência", explica.
Procurada pelo Rampas, a Prefeitura do Rio informou que tem projetos para ampliar a cobertura arbórea, principalmente na Zona Norte. O principal é o Planta + Rio, lançado em dezembro de 2025 pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima (SMAC) com a Fundação Parques e Jardins, com meta de 200 mil mudas plantadas até 2028.
O morador pode pedir uma árvore em frente ao seu imóvel, em praças ou em canteiros centrais pelo 1746 ou pelo WhatsApp +55 21 3460-1746. A Prefeitura escolhe a espécie, faz a vistoria em até 15 dias e, se o local for viável, realiza o plantio em até 30 dias depois.
O serviço, no entanto, tem restrições. Não são atendidas calçadas com menos de 1,90 metro, pontos em frente a garagens, rampas, esquinas e bueiros, áreas sobre redes subterrâneas ou coladas a postes e transformadores, nem terrenos particulares sem autorização do proprietário.
Se o Planta + Rio promete novas mudas, Ana Paula questiona o cuidado com as árvores que já existem. Para ela, a Fundação Parques e Jardins faz podas tão severas que quase nada sobra das copas, além de retirar árvores sem plantar outras no lugar. "Eles podam as árvores até tirar todas as folhas, deixando só uns galhinhos, e também não plantam as que são retiradas. Na porta do meu condomínio, uma árvore foi extraída e o lugar foi cimentado.”
Confira no gráfico abaixo o percentual de domicílios em áreas sem arborização em cada uma das localidades pesquisadas pelo IBGE. Para consultar o número de domicílios pesquisados em cada região:
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