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Fenômeno ‘tradwife’, a esposa troféu, influencia mulheres a deixarem o mercado de trabalho

há 2 dias
3 min de leitura

Vídeos de esposas troféu, mulheres que vivem com o dinheiro do marido, impactam na vida de mulheres que idealizam esse movimento


Por Juliana de Sá


Movimento utiliza estética dos anos 1950 para efeito nostalgia - Foto: Freepik
Movimento utiliza estética dos anos 1950 para efeito nostalgia - Foto: Freepik

A internet tornou-se palco de um movimento cultural que vai contra décadas de lutas por igualdade de gênero. O recente crescimento do conservadorismo feminino vem sendo expresso pelo fenômeno tradwife. O termo é um neologismo em inglês para traditional wife, a esposa tradicional, e é usado nas redes sociais para descrever mulheres que defendem os papéis de gênero tradicionais, abdicando de seus espaços no mercado de trabalho para se dedicar exclusivamente à criação dos filhos, cuidados com o marido e administração do lar, em contraponto à dupla jornada da mulher moderna. Influenciadoras que propagam esse estilo de vida acumulam milhões de seguidores, como a americana Hannah Neeleman, que tem mais de 20 milhões entre TikTok e Instagram.


Um mapeamento feito pela equipe do Rampas utilizando a ferramenta Google Trends mostra a força dessa tendência. Globalmente, a busca pelo termo “tradwife” atingiu seu ápice em agosto de 2025 e manteve-se em alta, oscilando entre 40 e 64 pontos nos meses de julho e agosto de 2026. O interesse no estilo de vida das Stay-at-home moms, as mães em tempo integral, outro rótulo usado por influenciadoras nas redes sociais, teve seu pico ainda no começo de 2025. Buscas por mulheres das décadas de 1940 e 1950 também aumentaram recentemente, mostrando o laço entre uma espécie de “neotradicionalismo” e o resgate de valores do meio do século 20.


Gráfico do Google Trends mostra resultado de pesquisas globais num período de 5 anos
Gráfico do Google Trends mostra resultado de pesquisas globais num período de 5 anos

A tendência também chegou ao Brasil. O termo “esposa troféu” também viu um aumento na quantidade de pesquisas, sendo reapropriado por influenciadoras que se orgulham de serem providas financeiramente por seus maridos e exaltam uma vida de dedicação ao lar. Originalmente, esse rótulo foi criado para descrever esposas de homens ricos, sendo muito usada no contexto brasileiro em relação às mulheres de jogadores de futebol. Nas redes sociais, porém, os vídeos virais mostram rotinas de donas de casa que se autointitulam esposas troféu.


Gráfico do Google Trends mostra resultados de pesquisas brasileiras num período de 5 anos
Gráfico do Google Trends mostra resultados de pesquisas brasileiras num período de 5 anos

O fenômeno conservador feminino também dita tendências na moda da década de 2020. Maquiagens mais naturais, como as clean girls, os cortes de cabelo bob estilo Marilyn Monroe e roupas modestas que apostam na valorização da silhueta feminina com pouca pele à mostra ganharam espaço. A marca de roupas femininas DOÊN, por exemplo, aposta na nostalgia da Califórnia de décadas passadas para suas coleções. Os famosos milkmaid dresses, vestidos inspirados nas roupas de camponesas europeias tradicionais, ganharam popularidade durante a pandemia da Covid-19, junto com a estética cottagecore, que romantiza a vida no campo.


Focada na autossuficiência rural, Hannah Neeleman, do perfil Ballerina Farm, apresenta uma versão do ideal conservador ligada ao movimento natalista. Ex-bailarina da Juilliard School, ela vive com o marido, Daniel, e os nove filhos do casal em Kamas, Utah, onde publica conteúdos preparando receitas em seu fogão vintage e administra sua loja digital de produtos produzidos em sua fazenda.


A influenciadora Hannah Neeleman, seu marido Daniel Neeleman, e oito de seus nove filhos  (Foto: Instagram @ballerinafarm)
A influenciadora Hannah Neeleman, seu marido Daniel Neeleman, e oito de seus nove filhos  (Foto: Instagram @ballerinafarm)

Além de polêmicas sobre venda de leite não-pasteurizado, o casal Neeleman também enfrenta críticas por esconder seus privilégios financeiros sob o disfarce da vida modesta do campo. O pai de Daniel, David Neeleman, é fundador das companhias aéreas JetBlue Airways, Morris Air, WestJet e da brasileira Azul, e, segundo a Forbes, tem uma fortuna estimada em R$7,42 bilhões. A discrepância entre a imagem pública de família rural simples e a realidade multi-milionária por trás dos vídeos é apontada como prejudicial por incentivar outras mulheres a também abandonarem suas carreiras e viver para o lar. Mas, quando essas mulheres não têm o mesmo suporte financeiro que os Neeleman, elas se tornam mais suscetíveis à dependência financeira, violência doméstica e relacionamentos abusivos.


Para parte das mulheres mais jovens, a promessa de ser integralmente servida e provida por um parceiro e focar na manutenção da família pode servir como mecanismo de defesa contra a exaustiva pressão de ter que brilhar e ascender no mundo corporativo e, simultaneamente, administrar com perfeição a vida doméstica. Os vídeos promovendo o estilo de vida das esposas tradicionais mascaram uma romantização da dependência financeira feminina. Ao incitar o retrocesso voluntário da autonomia econômica em nome da família, o movimento dialoga com narrativas anti-feministas e serve de porta de entrada para ideologias regressivas, alimentando pautas políticas de extrema direita com foco no restabelecimento da subordinação feminina.







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