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Flu Mulher: 20 anos como uma das pioneiras entre as torcidas femininas do Brasil

7 de set.
4 min de leitura

Torcida tricolor foi criada em 2006 com o objetivo de reunir mulheres nos estádios e combater a violência e o preconceito


Por Sofia Terra


A presença feminina nas arquibancadas do Fluminense remonta aos primeiros anos do futebol no Rio de Janeiro. É nesse contexto que Coelho Netto, escritor e torcedor tricolor, inventou o termo “torcedor” ao se referir às mulheres que acompanhavam os jogos nas Laranjeiras e, tomadas pelo nervosismo, torciam suas luvas e lenços durante as partidas. Décadas depois, em 2006, o clube voltaria a marcar a história da participação feminina no futebol com a criação da Flu Mulher, uma das primeiras torcidas organizadas do país formadas exclusivamente por mulheres. 


Fundada por Kaká Soares, a Flu Mulher completa 20 anos em 2026. A organização nasceu com a proposta de reunir as tricolores nas arquibancadas e fazer do estádio um espaço menos hostil para as mulheres. A torcida construiu uma jornada marcada pela defesa da presença feminina no futebol e pelo combate à violência e ao preconceito.


Integrantes da Flu Mulher - Foto: Reprodução/Instagram
Integrantes da Flu Mulher - Foto: Reprodução/Instagram

A posição de pioneirismo da Flu Mulher, no entanto, é acompanhada por uma controvérsia histórica. A torcida feminina do Vasco, Camisa 12, possui registros desde 1973, décadas antes da criação do grupo tricolor. Em 2025, as vascaínas voltaram a reivindicar o pioneirismo após um stand no Museu do Futebol, em São Paulo, atribuir à Flu Mulher o título de primeira torcida organizada exclusivamente feminina do Brasil.


Por isso, mais do que definir uma vencedora para a disputa pelo pioneirismo, a trajetória da Flu Mulher ajuda a contar um momento de transformação na participação das mulheres nas arquibancadas. A organização surgiu quando Kaká percebeu a falta de uma rede de apoio entre as torcedoras. 


A estreia ocorreu na segunda rodada do Campeonato Brasileiro de 2006, contra o Goiás. Kaká começou a torcida ao lado de outras cinco mulheres, que formaram a primeira diretoria.


“A torcida do Fluminense tem muitas mulheres, então, desde o começo, a intenção foi reunir na arquibancada todas essas mulheres que amam futebol. Sempre observei que a violência diminui onde tem muitas mulheres e crianças, então, a nossa campanha sempre foi de ter mais mulheres e crianças no estádio”, conta Kaká ao Rampas. 


Torcedoras da Flu Mulher com bandeirão no Maracanã - Foto: Reprodução/Instagram
Torcedoras da Flu Mulher com bandeirão no Maracanã - Foto: Reprodução/Instagram

A segurança é um dos principais argumentos que sustentam a existência da torcida. Para a fundadora, ocupar as arquibancadas também significa questionar a ideia de que o futebol seria um ambiente essencialmente masculino: “Eu quis mudar as estatísticas, porque o lugar da mulher é onde ela quiser, na verdade. Sempre tive o sonho de lotar o estádio para diminuir a violência. Essa é a minha campanha”, explica.


A própria instituição já relatou ter enfrentado preconceito de torcidas adversárias, embora suas integrantes afirmem não terem sofrido hostilidade por parte de torcedores do Fluminense. A organização afirmou que elas se sentem mais seguras quando torcem juntas e que seu principal objetivo é combater a violência e o machismo nos estádios.


A necessidade de espaços de identificação feminina também pode ser relacionada à quantidade de torcedoras entre os tricolores. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Prefab Future com 1.200 moradores do Rio de Janeiro mostrou uma diferença significativa na preferência pelo clube quando o recorte é feito por gênero. Entre os homens, o Fluminense aparece em quarto lugar, com 9,8%. Entre as mulheres, sobe para a segunda colocação, com 10,4%, atrás apenas do Flamengo e à frente de Vasco, com 10%, e Botafogo, com 8,7%.


O dado ajuda a dimensionar o público que a Flu Mulher buscava reunir quando foi criada. Não se tratava apenas de um grupo pequeno dentro da torcida tricolor: as mulheres representavam uma parcela expressiva dos torcedores do clube. Então, surgiu justamente para transformar essa presença individual em participação coletiva nas arquibancadas.


Ao longo dos anos, a torcida também cresceu. Segundo dados fornecidos pela própria Flu Mulher, cerca de 3 mil torcedoras estão cadastradas em seu site, enquanto aproximadamente 150 são associadas ativas, com participação direta. As redes sociais passaram a ser uma das principais formas de contato com novas integrantes e de manutenção do vínculo entre as torcedoras.


O percurso, no entanto, não deve ser entendido apenas pela quantidade de integrantes. A existência de uma torcida exclusivamente feminina também ajuda a entender por que mulheres continuam criando espaços próprios nas arquibancadas para se sentirem representadas e seguras.


A presença feminina sempre esteve nos estádios, mas nem sempre foi reconhecida como parte central da cultura das torcidas. A história da Flu Mulher mostra como essa participação também passou a se organizar de forma independente, criando um ambiente para as torcedoras tricolores.


É nesse contexto que os 20 anos da Flu Mulher reforçam sua importância como uma das pioneiras entre as torcidas femininas organizadas do país. A organização construiu uma caminhada única nas arquibancadas e ajudou a ampliar a visibilidade da presença feminina nas torcidas do Fluminense. A existência de registros anteriores, como os da torcida feminina do Vasco, impede uma definição consensual sobre qual teria sido a primeira, mas inaltera o papel desempenhado pela Flu Mulher desde sua criação.


Para Kaká, a trajetória construída pela torcida ao longo dessas duas décadas é motivo de orgulho: “Ver a Flu Mulher crescer nesses 20 anos me deixa muito feliz e me faz sentir privilegiada por poder contribuir com a essência da mulher no futebol, que nasceu no Fluminense desde a criação do termo ‘torcedora’, no século passado”, lembra.


Nos dias atuais, a Flu Mulher mantém a proposta que deu origem à torcida: reunir mulheres nas arquibancadas e fazer do futebol um espaço cada vez mais aberto à presença feminina. A disputa histórica sobre o pioneirismo permanece, mas a história  da organização a coloca entre os que ajudaram a consolidar a participação organizada das mulheres nas arquibancadas brasileiras.



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