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Guarda-roupa em trânsito

há 4 horas
5 min de leitura

Entre o que gostam de vestir e a preocupação com conforto e segurança, como as cariocas adaptam o guarda-roupa à rotina de deslocamentos 


Por Mariana Guimarães


Beatriz Martins, Clara Hanewald, Isadora Consendey e Júlia Lage. Fotos: Mariana Guimarães
Beatriz Martins, Clara Hanewald, Isadora Consendey e Júlia Lage. Fotos: Mariana Guimarães

Mais do que gosto pessoal ou previsão do tempo, mulheres que dependem do transporte público se acostumaram a escolher suas roupas considerando o itinerário e o tempo gasto entre ônibus, trem, metrô e caminhada.  Uma saia, um vestido ou uma blusa mais justa podem ficar no armário, pois o que vestir, nesse caso, não diz respeito apenas à aparência. A roupa precisa acompanhar a rotina, permitir que o corpo se movimente e, para a maioria das mulheres, oferecer uma sensação de segurança durante o caminho.


É o que acontece com Beatriz Martins, estudante de Pedagogia, que evita bermudas, shorts e peças muito justas quando sabe que vai utilizar o transporte público. A escolha, segundo ela, não está relacionada ao desconforto com o próprio corpo, mas à maneira como se sente diante de olhares que considera invasivos. “Eu me sinto desconfortável quando estou no transporte público e tenho que dividir, às vezes, vagões com homens ou pessoas mais velhas que ficam olhando meu corpo de alguma maneira maldosa”, relatou a jovem. Mesmo nos dias de calor, Beatriz conta que acaba recorrendo à calça e mantendo um casaco por perto para poder se cobrir caso sinta necessidade. 


A decisão diante do guarda-roupa, no entanto, não é determinada apenas pela sensação de insegurança. Para mulheres que passam boa parte do dia entre a faculdade, o trabalho e os deslocamentos, conforto e praticidade também pesam na escolha dos looks. A roupa precisa acompanhar diferentes momentos da rotina e, muitas vezes, resistir do início ao fim do dia.


Para Fernanda Mendes, estudante de Pedagogia, essa escolha passa tanto pela lotação do transporte quanto pela rotina que vem depois dele. “A gente preza muito pela segurança e pelo conforto. Pensando que a gente vai pegar, por exemplo, um vagão lotado, não é viável usar roupas que vão deixar a gente desconfortável”, explicou. Como muitas vezes segue diretamente para a faculdade ou para o estágio, ela também precisa pensar em peças que funcionem durante todo o dia: “A gente acaba tendo que prezar também por isso, não só pelo transporte, mas também pela praticidade do dia a dia.”


Júlia Lage, Maria Júlia Braga e Isadora Consendey, posam mostrando que o combo terceira peça, calça e tênis, funcionam muito bem no dia a dia. Fotos: Mariana Guimarães
Júlia Lage, Maria Júlia Braga e Isadora Consendey, posam mostrando que o combo terceira peça, calça e tênis, funcionam muito bem no dia a dia. Fotos: Mariana Guimarães

Para a advogada Luiza Nabuco, que utiliza o transporte público diariamente, essa praticidade começa antes mesmo de vestir a roupa. O trajeto a pé até o ponto de ônibus e até a barca, por exemplo, faz com que o salto alto quase nunca seja sua escolha para ir trabalhar. “Eu realmente quase nunca venho de salto. Prefiro sapatilhas mais arrumadas, porque eu tenho que andar até o ponto de ônibus, andar até a barca e tal”, contou. 


A experiência no transporte também influencia o que Luiza procura quando vai comprar uma peça nova. Um detalhe aparentemente simples se tornou um critério: o bolso. “O que eu sempre olho antes de comprar uma roupa, é ver se ela tem bolso”, pontuou. Com o bilhete de transporte e o celular sempre à mão, ela prefere deixar esses objetos no bolso, em vez de precisar abrir a mochila durante o trajeto.


O parâmetro da segurança 


Se conforto e praticidade ajudam a definir o que vestir, para algumas mulheres a sensação de segurança também estabelece limites. São peças que continuam fazendo parte do guarda-roupa, mas que acabam sendo deixadas de lado quando o trajeto envolve o transporte público.


Isadora Consendey, estagiária de Engenharia, conta que evita shorts, alguns tipos de vestido e peças com decote. A preocupação não aparece apenas nos deslocamentos cotidianos. Até quando o destino é a praia, o caminho interfere na roupa escolhida: ela conta que costuma optar por peças que cubram completamente o biquíni quando vai para a praia de metrô.


Para se sentir mais tranquila, Isadora procura estar sempre “minimamente coberta”. A calça aparece como uma das peças que, para ela, transmite maior sensação de segurança, ainda que reconheça que a roupa não seja uma garantia contra o assédio.


A influência do trajeto também aparece na escolha das roupas de Jade Vidal. A nutricionista conta que, apesar de poder se vestir de maneira casual no dia a dia, leva em consideração o horário e o caminho que fará, principalmente quando precisa voltar para casa mais tarde. “Eu não tenho um trabalho que pede o social sempre, então posso ir bem casual e fazer minhas escolhas. Mas, ao mesmo tempo, eu sempre penso no caminho da ida e no caminho da volta. Quando tenho que voltar mais tarde, também prefiro usar roupas mais cobertas, porque sei que vou estar tarde na rua, em um horário em que a gente tem medo de estar muito deserto.”


Essa preocupação também faz com que algumas peças que gostaria de usar acabem ficando de lado. É o caso do vestido, uma das peças que Jade gostaria de incorporar mais aos seus looks. “Uma peça que eu deixo de usar por esse motivo, mas que eu gostaria muito, é o vestido longo. Um que não seja tão solto, um vestido mais grudadinho no corpo, que eu possa usar com um casaco, uma jaqueta legal. Às vezes penso em montar um look assim, mas não acho que seja viável dentro desse contexto.”


Para mulheres que utilizam o metrô, o vagão exclusivo é uma alternativa para quem busca se sentir mais segura durante a viagem. A existência desse espaço, porém, não elimina as preocupações que acompanham o deslocamento.


Os relatos das entrevistadas também ajudam a entender um cenário apontado por dados nacionais. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva, em 2024, mostrou que 97% das mulheres entrevistadas sentem medo de sofrer violência durante seus deslocamentos. O levantamento também apontou que 71% já passaram por alguma situação de violência enquanto se deslocavam pela cidade.


Quando o assunto é especificamente o vestuário, o número também chama atenção: 87% das entrevistadas afirmaram evitar determinadas roupas ou acessórios como uma das estratégias utilizadas para aumentar sua segurança durante os deslocamentos. Realizada com 4.001 mulheres, a pesquisa mostra que escolher uma roupa para sair de casa pode envolver preocupações que vão muito além de estilo ou preferência pessoal.


A roupa “ideal” para o transporte público


Entre as entrevistadas, algumas peças aparecem com frequência quando o assunto é equilibrar conforto, estilo e segurança. As calças largas estão entre as principais escolhas, acompanhadas de terceiras peças, como casacos e camisas, que ajudam a compor o visual sem abrir mão do conforto.


Fernanda Mendes, Clara Hanewald e Beatriz Martins mostram seus looks enquanto esperam o metrô chegar. Fotos: Mariana Guimarães
Fernanda Mendes, Clara Hanewald e Beatriz Martins mostram seus looks enquanto esperam o metrô chegar. Fotos: Mariana Guimarães

Nos acessórios, mochilas e tote bags também aparecem como escolhas práticas para o deslocamento. Além de serem mais fáceis de carregar durante o trajeto, permitem levar diferentes objetos necessários ao longo do dia, como celular, carteira, carregador e materiais de estudo ou trabalho.


Nas roupas observadas, também predominam os tons neutros, principalmente preto, branco e marrom, enquanto o jeans aparece como o principal tecido. Nos pés, tênis e sapatilhas são maioria, seguindo a preferência por calçados baixos.


Apesar da frequência dessas peças, não existe uma roupa ideal para andar de transporte público. O fato de uma delas deixar de usar um vestido mais justo, por exemplo, não significa que outra mulher não possa se sentir confortável usando a mesma peça. No fim, vestir-se também é uma escolha individual, e o mais importante é que cada pessoa se sinta bem com aquilo que escolher usar. 



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