Lixo invade calçadas de Manguinhos
- Alice Moraes

- há 9 horas
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Moradores reclamam da falta de limpeza urbana e cobram medidas urgentes da Prefeitura
Por Alice Moraes

É manhã de quarta-feira, e quem caminha pela Avenida dos Democráticos, em Manguinhos, precisa atravessar montanhas de lixo que se acumulam pela calçada. As pessoas precisam caminhar até a beirada da pista para conseguirem transitar pela via. A calçada, repleta de lixo e chorume, obriga os pedestres a escolherem entre duas opções desagradáveis: afundar os sapatos na sujeira e no mau cheiro ou correr o risco de andar na pista enquanto os automóveis vêm, vão e buzinam.
Mais de uma vez, a Comlurb precisou utilizar um trator para retirar o excesso de lixo no local, que é um ponto de ônibus. O mau odor invade os ônibus que passam por ali, incomodando os passageiros com o cheiro de podre.
Quem vive em Manguinhos já se habituou com esse cenário desolador da Av. dos Democráticos. O morador Peterson Santos, técnico de informática de 30 anos, espera cotidianamente o ônibus 622 no ponto repleto de lixo. “Infelizmente, isso é uma coisa que eu tive de normalizar. Admiro o serviço dos agentes de limpeza, mas acho que o trabalho não atende a demanda. A população nas favelas aumentou e o acúmulo de lixo também”, comenta.


Pelo menos desde julho deste ano, algumas medidas foram tomadas para conter o excesso de lixo na calçada. Metade dela foi aterrada, mas, ainda assim a sujeira continua a acumular por cima da terra. O que parecia ser uma solução acabou gerando outro problema: a mureta diminuiu o tamanho da calçada e comprometeu ainda mais o espaço que trabalhadores e moradores necessitam para transitar e esperar diariamente pelo ônibus.
“Esse lixo é uma falta de respeito com os moradores”, reclama a moradora Fátima Cavalcante, de 63 anos. “Uma falta de respeito com o outro. Como deixam acumular tanto lixo desse jeito? Onde tem favela, tem sujeira. Lixo assim dá muito rato, muita barata e mosca.” Para ela, as autoridades deveriam limpar o bairro de Manguinhos diariamente.
Fátima observa que o acúmulo de lixo também ocorre por causa do povo. “Estão jogando a sujeira em cima do entulho. O povo sai lá de dentro da favela para jogar lixo na rua”, descreve sobre o cenário.
“Essa situação é muito ruim porque é o nosso ambiente”, afirma Julia Saldanha, babá de 26 anos. “O lixo e o mau cheiro atrapalham a gente de caminhar por ali”. Ela, que morou em Manguinhos por 7 anos, mas ainda transita na calçada da Avenida dos Democráticos, conta que é desagradável passar com os pés por cima do lixo e que, mesmo depois da limpeza urbana, o mau cheiro e o chorume continuam a incomodar. “Em um dia fazem a limpeza, mas no outro já está podre”, reclama.
Julia afirma que dentro da comunidade o serviço de limpeza também é precário. Ela nota que a sujeira não se limita apenas à calçada, mas também se expande pelo bairro. De acordo com sua observação, as caçambas de lixo distribuídas em Manguinhos são poucas e não abrangem a comunidade inteira.
Outra situação provocada pelo acúmulo de lixo são os constantes “banhos” de água suja que os moradores de Manguinhos acabam levando ao passar pela região. Na Avenida dos Democráticos, onde o lixo se acumula, formam-se poças de chorume e de água da chuva. Julia relata que, como os carros passam em alta velocidade pelo local, acabam espirrando água suja sobre quem caminha pela calçada. Para ela, todas as vezes que precisa passar por ali, é inevitável pensar: “Caramba, vamos ter que pisar nessa poça de lixo”.
Fortes chuvas e o caos
Moradores também relatam sofrer com as enchentes agravadas pelo acúmulo de lixo. Não foram poucas as vezes em que Peterson presenciou cenas de prejuízo e desespero causadas pelas fortes chuvas. Segundo ele, alguns moradores precisaram descartar móveis, como televisores, sofás e camas, depois que suas casas foram atingidas pela água. Ele também conta que, em uma ocasião, passou quase a noite inteira na garagem alagada, sem conseguir acessar a própria casa. “Já foram diversas vezes que a tampa da minha caixa-d’água voou e acertou a janela dos vizinhos. Alguns moradores acabam perdendo até seus animais de estimação por conta da correnteza”, relata.
Em Manguinhos, a chuva sempre é motivo de preocupação para os moradores. Com um esgoto a céu aberto no coração do bairro, existe a garantia desesperadora de que em dias de chuvas fortes o rio vai transbordar e causar alagamentos em toda a região. Peterson compartilha que os vizinhos ficam receosos nesses momentos, temendo queda de luz, grandes enchentes e enfrentando o medo de perder os pertences da casa.

Desigualdade que incomoda
Essa situação evidencia o abandono e o descaso enfrentados por moradores da Zona Norte do Rio. Enquanto bairros mais ricos e valorizados, como os da Zona Sul, recebem maior atenção em relação à limpeza urbana e à conservação dos espaços públicos, regiões menos valorizadas, como Manguinhos, acabam ficando à margem das ações do poder público. Para Julia, que trabalha na Zona Sul, a diferença é perceptível na rotina: enquanto por lá a limpeza urbana acontece diariamente, em Manguinhos o serviço é realizado apenas em dias específicos e programados.
Já Peterson afirma que não é necessário ir muito longe para identificar essa desigualdade: “Não só na Zona Sul, mas até no Cachambi, por exemplo, observamos que o cuidado das autoridades é diferente do tratamento que Manguinhos recebe”, diz ele.
“Poderiam ser realizadas mais coletas por aqui. Estão fazendo, mas ainda é pouco”, opina Julia. Para ela, a situação poderia ser amenizada se o lixo não fosse constantemente revirado por pessoas em situação de rua, o que acaba espalhando os resíduos e ocupando ainda mais espaço na calçada. “O mesmo compromisso de manter a Zona Sul limpa deveria existir com relação à Zona Norte.”
Cenas difíceis também fazem parte da rotina de quem passa pelo local: pessoas revirando o lixo em busca de alimentos e outras dormindo em cabanas improvisadas, situações que, segundo moradores, têm se tornado cada vez mais frequentes nas proximidades da Avenida dos Democráticos. O cenário chama atenção por ocorrer justamente ao lado do paredão da Cidade da Polícia (CIDPOL), cujo portão principal fica na Avenida Dom Hélder Câmara, 2066, no Jacarezinho.
A equipe do Rampas entrou em contato com a Comlurb para obter esclarecimentos sobre a situação no bairro. Em resposta, a companhia afirmou que o bairro conta com serviços de limpeza urbana diariamente: “Manguinhos conta com coleta domiciliar e varrição diariamente. A comunidade tem à disposição um ecoponto para a entrega voluntária de resíduos na localidade do Conjunto da Embratel, com uma caixa metálica para entulho e duas para lixo domiciliar, com horário de funcionamento das 7h às 18h. Manguinhos também conta com contêineres de alta capacidade instalados em diferentes pontos da comunidade.” A resposta da Comlurb contrasta com os relatos dos moradores ouvidos pela reportagem, que apontam a permanência de lixo e chorume nas calçadas.
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