Longe do estádio, longe do coração
Times pequenos, porém tradicionais, como America e Americano de Campos, sofrem diante de crise infinita e distanciamento de suas sedes originais

O futebol dos clubes pequenos do Rio de Janeiro vive uma crise de identidade no século XXI. America e Americano de Campos, por exemplo, têm trajetórias marcadas por dificuldades financeiras, mudança de estádio e projetos que não se concretizaram. Em meio ao declínio esportivo e ao deslocamento de suas sedes, os clubes também enfrentam o afastamento de torcedores.
Apesar de não ter nascido na Tijuca, o America Football Club mudou-se para lá em 1911, apenas sete anos depois de sua fundação. Foi neste ano também que o clube, ao fundir-se com o Haddock Lobo Football Club, assumiu o Estádio da Rua Campos Salles. Lá, o America conquistou três de seus sete títulos de Campeonato Carioca, além de ter feito a maior goleada de sua história: um sonoro 11 a 2 sobre o Botafogo, em 1929.
Com capacidade para até 25 mil pessoas, o estádio foi casa do ‘Mecão’ até 1961, quando foi vendido e posteriormente derrubado para ser feita a construção da sede social. Com parte da verba, o America comprou o Estádio Wolney Braune, no Andaraí, que tinha capacidade para pouco mais de 5 mil pessoas. O estádio foi vendido na década de 90, durante um período de crise esportiva no clube e rebaixamento para a Série C nacional, o que fez com que o America ficasse sem local e rodasse por alguns estádios do Rio.
Até que, nos anos 2000, foi finalmente inaugurado o Estádio Giulite Coutinho, a casa do ‘Diabo’ até hoje. Apesar de a conquista de um estádio próprio significar um avanço para os torcedores rubros, muitos ainda se sentem deslocados física e emocionalmente. O campo fica localizado fora do município do Rio, em Mesquita, na Baixada Fluminense, a cerca de 30km da sede social, na Rua Campos Sales.

Alguns torcedores apontam que essa distância foi fundamental para descaracterizar o clube de suas origens tijucanas, desatrelando a imagem da agremiação ao bairro, que era sua essência. Como se não bastasse, a crise no America se estendeu pelos anos seguintes e, após um tempo desativada, a sede social foi demolida em 2015 para ser erguido um shopping. O projeto prevê uma nova sede localizada no topo do prédio, mas as obras, que já foram adiadas três vezes, ainda não têm previsão de serem concluídas.
Torcedor do ‘Mecão’ desde criança, André Sant’Anna, 48 anos, foi criado na Tijuca, perto da antiga sede social do clube. "A minha família é America há muitas gerações. A minha avó e o meu tio-avô viam os jogos na rua Campos Sales. Eles moravam onde hoje é o hospital São Vicente e lá de cima viam os jogos do time", disse.
Até mesmo a relação de André com o próprio futebol foi deteriorada. “Entre 8 e 12 anos, é quando eu era fissurado por futebol e o meu time tinha praticamente deixado de existir. Desde então, a minha relação com o futebol é de gostar de ver jogo bom. Eu deixei de ser aquele torcedor que vai aos jogos, acompanha direto. O meu lance é só ver times bons, como o Barcelona do Guardiola”, explica.

André reforça que o principal responsável pelo afastamento dele com o clube não foi apenas a mudança de estádio, mas a derrocada esportiva do America. "Eu não ia aos jogos desde 2018, quando disputamos o acesso para a Série A do Carioca. Voltei a ir esse ano, quando o America jogou a Série D pela primeira vez depois de muito tempo", apontou.
Americano sem Campos

Em Campos dos Goytacazes, um tradicional clube do interior vive uma crise parecida. Em 2013, o Americano Futebol Clube vendeu o Estádio Godofredo Cruz, casa do time desde 1954, para uma imobiliária. Os dirigentes propagavam a falsa ideia de progresso da associação, criando um estádio e centro de treinamento modernos a cerca de 13 km do local original. Em 2014, no ano do centenário da agremiação, seus maiores patrimônios foram demolidos e, até hoje, as obras não foram concluídas.
A relação de José Alves, de 61 anos, com o time é uma história que atravessa décadas, mas que sofreu uma profunda ruptura. Torcedor desde os 12 anos, ele relembra com nostalgia a época em que o clube de Campos tinha projeção nacional, impulsionado pela força econômica da região açucareira. Em seu antigo estádio, ele testemunhou jogos memoráveis contra gigantes do futebol brasileiro. "Aqui eu vi jogar o Corinthians, vi o Palmeiras de Leão, Leivinha e Ademir da Guia, o Flamengo de Zico e o Vasco de Dinamite", recorda José, destacando a importância que o clube já teve no cenário esportivo. Essa conexão, no entanto, foi drasticamente abalada pela venda do estádio.O impacto da venda foi imediato e desolador para torcedores como José, que sentiram a paixão pelo clube esfriar. A decisão, tomada por diretorias que, segundo ele, "não amavam o time", resultou na demolição do estádio para a suposta construção de um shopping, que nunca se concretizou. O resultado é uma ferida aberta na paisagem e na memória da cidade. A ausência de uma casa própria forçou a equipe a jogar em Cardoso Moreira, a 50 quilômetros de distância, uma situação que, segundo ele, "desanima você querer se transformar em torcedor do Americano".

As promessas que acompanharam a venda do antigo estádio geraram grande expectativa, mas não se converteram em realidade. Para José, nem mesmo a conclusão do novo estádio resolverá o problema, principalmente por sua localização, a 13 quilômetros do centro e em uma área de difícil acesso. "A cidade vive aí uma situação econômica delicada e não tem nem transporte público que chegue até lá", critica. Essa distância física e emocional, na visão de José, impede a formação de uma nova geração de torcedores e sela um destino melancólico para a instituição. "Eu acho que a relação do torcedor com o Americano está esfriando a cada dia", conclui, com um tom de resignação.
No dia 20 de agosto, foi lançado o documentário “Goytacaz: O Filme”, que conta a história do rival do Americano, o Goytacaz. O longa registra a luta da torcida do Goytacaz para impedir a venda iminente do estádio do clube, situação semelhante ao que viveu o Americano. Durante o filme, José Alves foi entrevistado e relatou como foi a experiência do torcedor americano durante o processo de venda do estádio e a tristeza com a atual situação do time.

Os casos desses dois tradicionais clubes representam apenas uma parcela de agremiações que perderam sua identidade a partir da falta de contato com a associação. Se o futebol é movido pela paixão de seus torcedores, afastá-los e desampará-los é um forte indício de que o resultado final será negativo. Não é, necessariamente, uma questão apenas de distância, mas de contato, convívio, apego e identificação. A proximidade transformava os times em extensões da identidade daquelas comunidades, eles eram parte viva da história e cultura local. Quando essa conexão se torna difícil, nem mesmo o amor incondicional de um adepto é capaz de reconstruir esses laços.
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