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Mídias físicas resistem na era do streaming

Impulsionado pelo interesse dos jovens, mercado de discos cresce no Brasil e transforma sebos cariocas em pontos de encontro de gerações 


Por João Pedro Alves


Coleção de discos de vinil - Foto por: Luís Carlos Peçanha
Coleção de discos de vinil - Foto por: Luís Carlos Peçanha

Na saída do metrô da Carioca, centro da agitação urbana no Rio, escondida do fluxo incessante da via principal, uma pequena loja de CDs e vinis parece resistir ao teste do tempo e celebrar a importância das mídias físicas numa sociedade cada vez mais digital. Entre as avenidas  movimentadas do centro do Rio de Janeiro e a arquitetura que convida a uma viagem no tempo pelos velhos trilhos de bonde, se esconde o Pequeno Mundo dos CDs.


Quem entra no estabelecimento é recebido com uma cena que ilustra bem a atmosfera local: uma mulher organizando os CDs nas prateleiras enquanto dança e canta alegremente. Ao fundo, o som de Come Together, clássico do álbum Abbey Road, dos Beatles, que resgata a nostalgia dos anos 70. O espaço funciona como um ponto de encontro entre gerações. À esquerda, um casal de jovens olha atentamente a prateleira dos CDs de rock. À direita, um homem de 50 anos analisa as capas dos discos de vinil. Uma cena que traduz a essência desses espaços: em uma era totalmente dominada pelas plataformas digitais, esses sebos são locais de resistência da cultura da mídia física, onde se mantém vivo o ritual de “garimpar” álbuns, escutar o som “imperfeito” do vinil, analisar a capa do CD e trocar experiências em comunidade. 


Em 2025, o mercado musical brasileiro faturou mais de R$4 bilhões, segundo a Pró-Música Brasil, um crescimento de 14% em relação ao ano anterior. Embora a maior fatia desse faturamento seja do streaming (Spotify, Deezer e iTunes), o resultado das vendas físicas é impressionante: os formatos físicos, impulsionados pelos vinis, registraram alta de 25,6% em comparação ao ano de 2024. 


Essa alta não é apenas um dado: ganha vida no cotidiano dos pontos de venda de vinis e CDs. Genildo da Silva, 59, DJ e vendedor há mais de uma década, sente esse reflexo diariamente. Ele mantém uma banca de vinis ao lado da Praça Tiradentes, além de também participar da Feira da Praça XV e da Feira da Glória. “Comecei porque sou DJ, trocava discos em resenha. O pessoal queria comprar os meus, então fui buscar mais. Hoje a demanda só aumenta”, conta.


A poucos metros dali, no número 27 da Praça Tiradentes, está o Palácio do Vinil, outro ponto de encontro obrigatório para os amantes de música. Com seu famoso slogan “Discos por 1 real”, o estabelecimento é um dos mais conhecidos do centro do Rio. Sob o comando de Carlos Magno, conhecido como DJ Carlinhos Swing, uma figura marcante das casas noturnas cariocas dos anos 80  que acompanhou o esvaziamento desses lugares na virada da década de 90. Sem emprego, viu nos contatos com a indústria musical uma oportunidade para um novo negócio: a venda de discos.


“Quem me deu o primeiro emprego como vendedor de disco foi um rapaz chamado Laureano, divulgador da RCA Victor (gravadora). Ele me conhecia, pois eu pegava suplementos na gravadora, que eram singles de divulgação que os discotecários tocavam para divulgar música nas boates. Então, quando a noite parou, comecei a vender discos”, relembra.


Foi nesse período que Carlinhos se juntou com outros DJs cariocas, como DJ Grandmaster Raphael e o DJ Marlboro, pioneiros do funk carioca, para fundarem o Melódromo, um dos primeiros pontos para troca e venda de vinis importados. O local logo virou um importante ponto de encontro de DJs, colecionadores e equipes de som. Hoje, esses “espaços informais” se transformaram em grandes sebos, preservando e reinventando as suas funções iniciais: promovem socialização, preservação e o resgate da memória.


DJ Carlinhos Swing com o vinil de Jão - Foto: Foto: João Pedro Alves/Rampas Uerj 
DJ Carlinhos Swing com o vinil de Jão - Foto: Foto: João Pedro Alves/Rampas Uerj 

“Aqui é comunidade. Não é só comprar, é trocar informação”, explica Carlinhos. O proprietário do Palácio do Vinil descreve essa troca com os jovens como um ponto fundamental para que, ainda em 2026, a loja se mantenha em funcionamento: “Eles são curiosos demais. Querem saber o que tocava antes”, diz o DJ, relembrando uma experiência com um jovem que foi conhecer sua loja. “Era um jovem chamado Victor. Tinha 15 anos e chegou à loja com os seus pais, olhou todas as prateleiras e se encantou. Nunca tinha visto um vinil na vida dele. Então começou a comprá-los para colecionar.” Ele ainda brinca falando que aconselhou o jovem a se tornar um discotecário, assim como ele era nessa idade. Experiência que destaca a importância do sebo como um espaço de socialização e de troca cultural entre pessoas de diferentes gerações que, apesar das visíveis diferenças, compartilham, em comum,  seu grande amor pela música.


Crescimento das mídias físicas


O crescimento das mídias físicas no mercado musical é impulsionado principalmente pelo fator nostalgia, conforme apontam dados do artigo científico "Nostalgia do que" (2023), produzido por pesquisadores da UTFPR e da UnB; ao entrevistar jovens da Geração Z em comunidades de música pelo Brasil, o estudo revelou que 73,1% compram vinil por nostalgia, 68,4% pela estética vintage e 57,9% pelo valor das capas e encartes. Esse movimento transformou o vinil em um símbolo de status, autenticidade e conexão com os anos 1990 e 2000, oferecendo uma experiência única que se difere do streaming tanto por seus aspectos técnicos, já que é um som mais “imperfeito”, quanto pelo ritual de se sentar, escutar a obra do início ao fim. O CD também oferece uma experiência similar, mas se consolida como uma alternativa de colecionismo mais acessível por seus valores. Atenta a esse comportamento dos consumidores, a indústria fonográfica aproveita oportunidades e capitaliza sobre o fanatismo dos fãs por meio de estratégias de marketing lideradas por estrelas do pop como Taylor Swift, que lançam edições exclusivas e especiais em formatos físicos, incentivando o consumo e justificando preços elevados pela promessa de maior proximidade com o ídolo.


“Vejo que muita gente está voltando a comprar vinil, que é muito nessa cultura de nostalgia. Hoje em dia, por exemplo, na área da tecnologia, em que as pessoas estão cada vez mais alienadas, muitas param para olhar tipo: ‘Ah, quando era no meu tempo...’, e você tem isso, essa nostalgia. Vi recentemente que a Sony estava lançando um Walkman digital, que nada mais é do que quase um iPod, mas chamam de Walkman, tem um design meio Walkman e você acha que tá voltando para aquela época”, exemplifica o estudante de cinema André Macedo.


Mas o recente crescimento das vendas físicas revela mais do que apenas nostalgia. Em um modelo de streaming em que o ouvinte apenas aluga o acesso, no qual catálogos podem ser alterados, músicas e álbuns desaparecerem por questões de direitos autorais, contratos de licenciamento ou até discordância entre artista e o streaming – como o recente “sumiço” do álbum Walk Among Us, do The Misfits, do Spotify pela expiração dos direitos autorais e contratos de distribuição. Sem prazo para voltar ao catálogo, os fãs ficam reféns de meios ilegais para acessá-los ou obviamente à compra da mídia física. No final das contas, o valor de possuir o disco físico para um fã, está atrelado, acima de tudo, a ser proprietário da obra, não correndo o risco de perder o acesso a ela e podendo ouvi-lá sempre que quiser, sem depender de estar ou não disponível no catálogo do streaming. “Colecionar, hoje, é quase um ato de soberania”, revela Bernardo Accioly, 21, vocalista da banda Toss. Ele completa que o físico é uma espécie de “tranca do artista” contra o seu apagamento, o que garante que a sua obra continue sempre tocando. É um patrimônio, é sentir a arte e perceber que não está comprando uma mercadoria, mas adquirindo uma obra “viva”, algo que é seu e ninguém pode mudar.


Para além da estética, nostalgia ou proteção contra o desaparecimento da obra, a experiência de vinil/cd é um dos grandes atrativos para o consumo de mais pessoas. Ouvir o som saindo diretamente das ranhuras do disco oferece uma presença que a caixa de som conectada ao celular não consegue replicar. Mas não é apenas isso, todo o conceito do álbum também é modificado. No Spotify, o usuário tem a praticidade de escolher músicas específicas e montar playlists em ordens diversas. “O artista confecciona o álbum para ser uma grande experiência, tipo musical, tem um grande pensamento para ver qual música entra primeiro, onde vai entrar cada música, como elas vão se conectar de alguma forma. Ao ouvir música digital você perde um pouco isso.”, explica André.


  Javier garimpando alguns cds - Foto por: João Pedro Serafim Alves
  Javier garimpando alguns cds - Foto por: João Pedro Serafim Alves

O ressurgimento do vinil também trouxe alguns desafios econômicos. O hobby de colecionar vinis é algo que demanda tempo e, principalmente, disposição para gastar uma grana: o processo de prensagem, impressão e encarte do vinil é extremamente caro, sem contar outros fatores como distribuição, custos das lojas e o valor do maquinário para rodá-lo. Discos novos de artistas populares custam entre R$ 150 e R$ 350; raros e importados ultrapassam R$ 700. “Acredito que seja a maior contradição do mercado hoje. O vinil voltou com tudo, mas virou um artigo de luxo. Os preços estão muito altos para quem está chegando agora, o que é perigoso para as novas gerações de colecionadores”, avalia Bernardo. 


Por isso, o mercado de usados e os CDs seguem fundamentais para manter o hábito acessível. Enquanto os preços do vinil têm atingido patamares muito elevados e por vezes proibitivos, outras mídias continuam acessíveis. "O mercado de vinil voltou com força, mas considero os preços atuais realmente absurdos. Por outro lado, ainda é perfeitamente possível adquirir CDs e DVDs por valores muito acessíveis nas lojas de rua. Colecionar deve ser um prazer, e não uma compulsão”, relata Rogério Marques, mestre em História e frequentador do Pequeno Mundo dos CDs.


“Há uns três anos, quando comecei, ainda se achava mais baratinho em alguns lugares”, afirma Renan Diniz, 34, de Duque de Caxias, criador do projeto “Correndo Discos”, que mapeia lojas e feiras no Rio com foco em locais com preços acessíveis. Claro que nem sempre é possível, mas o mercado de usados de sebos é fundamental para o crescimento das vendas físicas, pois vendem CDs ou até mesmo vinis a preços mais baixos.


O streaming venceu a guerra da praticidade. Ninguém abre mão de milhões de músicas a distância de um clique, guardadas dentro do bolso. Você pode ouvir a qualquer momento e em qualquer lugar, como no carro, na rua ou até mesmo na praia. Entretanto, o físico está reconquistando seu espaço: o da posse, da experiência e da memória. Como descreve Rogério Marques de Paiva: “A experiência de procurar CDs e revistas é muito divertida e satisfatória. Quando encontro algo que estava caçando, surgem vários pensamentos. Me lembro de quando o item foi lançado e dos motivos de eu não conseguir ter na época penso em tudo o que passou desde então e de todo o percurso que ocorreu até o objeto finalmente chegar nas minhas mãos. "


Nos CDs e vinis, você encontra dedicatórias, encartes com artes e histórias que a capa carrega. Claro que não voltará a ser o mercado de massa das décadas de 1990 e 2000, que dominava a indústria musical, mas está se tornando um nicho consistente e, acima de tudo, resistente. 


Coleção de cds -  Foto: Luís Carlos Peçanha
Coleção de cds -  Foto: Luís Carlos Peçanha

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