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Na Fogazelas, nenhuma estrela é solitária

há 1 dia
4 min de leitura

Coletivo feminino e LGBTQIAPN+ botafoguense incentiva a presença de grupos marginalizados na arquibancada


Por: Maria Júlia Braga


Torcedor com a bandeira do coletivo Fogazelas - Foto: Maria Júlia Braga
Torcedor com a bandeira do coletivo Fogazelas - Foto: Maria Júlia Braga

Em meio ao mar alvinegro da torcida gloriosa a caminho do setor leste superior do estádio Nilton Santos, um ponto colorido se destaca dos demais. A bandeira com o arco-íris e a silhueta da Penelope Charmosa (personagem do desenho Corrida maluca) é símbolo do coletivo feminino e LGBTQIAPN+ Fogazelas, que tem como objetivo criar um espaço para que mulheres e membros da comunidade queer possam frequentar a arquibancada - tida como masculina e heteronormativa - em segurança. A iniciativa surgiu após as conquistas da Libertadores e do Brasileirão de 2024 e já conta com quase 500 membros no whatsapp, onde a lista de presença para a próxima partida é organizada.


1º tempo: Ausência feminina nos estádios


Nos relatos dos torcedores participantes, principalmente das mulheres, o medo e a falta de uma presença masculina de confiança eram os principais impeditivos para ir aos jogos até descobrirem a atuação do grupo. Em entrevista para o Rampas, a cineasta e produtora cultural Bruna Calôr de Oliveira relata que, sem a Fogazelas, não estaria frequentando o Nilton Santos por não ter companhia. “Antes, eu dependia bastante do meu irmão e/ou da minha mãe. Depois do ano vitorioso de 2024, passei a ter mais vontade e coragem de vir, e encontrei a torcida nas redes sociais. Eu tenho agorafobia (medo de multidão) e já tive crise de pânico na saída do estádio, também aconteceram situações de assédio, mas só de estar acompanhada e saber que tenho pessoas que vão me apoiar, me sinto mais motivada e segura a vir”, conta.


Jessica Campos Henrique (Jessy), cantora, diz que começou a assistir o Botafogo presencialmente por conta de um relacionamento. Com o término, Jessy continuou querendo ir à arquibancada e passou a buscar na internet torcidas organizadas para estar junto, mas por ser um ambiente majoritariamente masculino, se sentia insegura. “Foi nessa minha procura que achei a página Hot girls love BFR (perfil descontraído dedicado ao público feminino botafoguense) que estava divulgando o grupo de whatsapp da Fogazelas. Aí decidi vir em uma partida e fui tão bem acolhida que pensei: nunca mais deixo de ir ao estádio.”


O Fórum Brasileiro de Segurança Pública lançou em 2026 a 2ª edição do relatório Futebol e Violência Contra a Mulher com dados que mostram que, em dias de jogo, as denúncias de ameaças e lesões físicas aumentam em até 12,8 e 7,1 pontos percentuais, respectivamente. O estudo também aponta que, por mais que a maioria das agressões aconteçam em casa, ainda assim 32,6% dos casos de violência verbal e 26,8% da física acontecem em vias públicas, incluindo arenas esportivas.


Além disso, a pesquisa Mulheres & Futebol, de 2024, realizada pelo W.Lab em parceria com os institutos Ideia, Locomotiva e PiniOn diz que 94% das mulheres torcem para algum time de futebol, no entanto, apenas uma a cada três frequenta os estádios. Desse grupo de entrevistadas, 40% afirmam que a insegurança é a principal causa da sua ausência. Os números ilustram a realidade que as torcidas femininas, como a Fogazelas, visam a enfrentar ao construir um ambiente que faça com que meninas e mulheres se sintam à vontade para ir.


Panfleto de divulgação do coletivo distribuído no estádio - Foto: Maria Júlia Braga
Panfleto de divulgação do coletivo distribuído no estádio - Foto: Maria Júlia Braga

2º tempo: LGBTfobia recreativa nas arquibancadas


A homofobia também se apresenta como um fator de afastamento para torcedores queer. Desde cânticos que ridicularizam times rivais quando se referem a eles utilizando xingamentos pejorativos referentes à comunidade até ataques nas plataformas digitais dirigidos a pessoas LGBTQIAPN+ no futebol, a arquibancada ainda é um ambiente hostil para esse grupo. O médico e torcedor Tiago Amorim estava sozinho pela primeira vez no estádio quando conversou com o Rampas. “Eu sou baiano e atualmente moro em São Paulo. Sou botafoguense por causa do meu avô, que era apaixonado pela geração de Garrincha. Como não sou carioca e não moro aqui, normalmente só venho ao estádio com o meu marido, com amigos ou família. Mas a Fogazelas me fez sentir pertencente a esse espaço, nunca tinha me sentido tão à vontade no meio do futebol quanto me sinto aqui.”


O coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ divulgou, no final de 2025, o anuário da LGBTfobia no Futebol, com estatísticas referentes a 2024, que apurou casos de homofobia envolvendo o esporte no Brasil. Naquele ano, foram contabilizados 66 casos, dos quais 35 ocorreram no estádio - 20 deles sendo direcionados a torcidas rivais. Além disso, dos 20 coletivos LGBTQIAPN+ analisados, apenas 6 vão de forma organizada ao estádio (apenas 30%), demonstrando que, mesmo com a criação de grupos via mídias sociais, o espaço físico da torcida ainda é pouco receptivo para essas pessoas.


Integrantes da Fogazelas presentes na partida entre Botafogo X Cienciano no dia 20 de agosto - Foto: Maria Júlia Braga
Integrantes da Fogazelas presentes na partida entre Botafogo X Cienciano no dia 20 de agosto - Foto: Maria Júlia Braga

Apito final: Acolhimento a mulheres e pessoas LGBTQIAPN+


Os locais de convivência criados pelo coletivo, desde o encontro no pré-jogo no bar Engenho do Chopp até o pedaço ocupado no setor leste superior em meio às outras torcidas organizadas, dão aos participantes o sentimento inédito de pertencer ao fenômeno social que é o futebol. Quando perguntada sobre a principal diferença de ir à uma partida com a Fogazelas, a cantora Jessy afirmou prontamente: “Eu me senti segura. E o valor disso para a gente, como mulher, é imensurável. Estamos num ambiente que nos coloca numa posição muito vulnerável, então só de encontrar com o pessoal aqui no pré-jogo, mesmo que eu não consiga ir no mesmo setor que eles, já me sinto protegida.”



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