Na ponta dos pés: escola de dança em Manguinhos une aprendizado e sonhos
Conheça a associação Ballet Manguinhos, espaço de referência para crianças, jovens e adultos e símbolo de resistência onde o Estado nem sempre está presente
Por Alice Novaes

Em uma tarde de sexta-feira, quem caminha por perto do prédio do projeto Ballet Manguinhos consegue ouvir os passos de dança que ecoam pelo espaço. Pelas portas de vidro, é possível ver a aula de dança urbana acontecendo. Quem entra no prédio é recebido pela energia vinda das músicas e coreografias de cada sala. Em uma caminhada pelo interior do prédio, diferentes ensaios estão acontecendo, a música vibra pelos andares e, nas paredes, estão expostos os registros de diversos espetáculos.
Embora se chame Ballet Manguinhos, a associação vai muito além do ballet. Trabalha também com dança contemporânea, baby class, jazz, dança urbana, dança de salão, aulas de circo, de teatro e de idiomas, alcançando jovens, especialmente meninas e mulheres, de várias idades em uma região do subúrbio da zona norte do Rio.
Com 100 salas e 700 alunos, o projeto cresce cada vez mais e os vínculos se fortalecem no lugar. Localizada na Avenida dos Democráticos, em Higienópolis, o projeto se firma como um ponto de resistência na comunidade, quebrando preconceitos ao mostrar que cultura e arte também são produzidas em áreas menos privilegiadas da cidade.


O projeto viabiliza o acesso à arte e educação para crianças e jovens da região. Entre as meninas alcançadas pela dança está a jovem Geovana de Souza, de 20 anos, que relata a dificuldade que tinha em encontrar espaços que oferecessem lazer, educação e cultura. “Eu adorava ver a magia de cada espetáculo. Fui atraída pelas apresentações e comecei a fazer parte do projeto”, disse. “Eu queria também fugir da minha realidade e encontrei no projeto essa chance”, explica a bailarina. Ela costumava passar os dias em casa sentindo vontade de se movimentar mais e experimentar algo novo. Conhecer o projeto ofereceu a ela esse escape e a oportunidade de desenvolver seu talento para a dança.
“O Ballet Manguinhos fez uma grande diferença em minha vida. Por meio do ballet e do incentivo dos professores, consegui ter minha carteira profissional de dança”, relata. Ela e outras meninas e meninos envolvidos nas aulas do Ballet Manguinhos encontram no local a motivação para crescerem profissionalmente e confiança para realizarem seus sonhos. A professora de ballet clássico Thifanni Macedo, de 27 anos, relata que a evolução das bailarinas ao longo do tempo é motivo de orgulho e apreciação por ela e pela equipe da ONG. “É gratificante ver um projeto social tendo as mesmas oportunidades que outras escolas de dança nomeadas têm", diz. “Saber que aqui as meninas têm a chance de se apresentar em grandes espetáculos, de dançar em outros estados, de subir em uma sapatilha de ponta, tudo é muito gratificante. Principalmente porque não é a realidade de muitas aqui, mas vemos o quanto o Ballet Manguinhos proporciona isso nesse território. O ballet mostra onde elas podem chegar.”
Assim como Geovana, outras crianças e jovens que chegam lá nem imaginam o quão longe podem ir. A jovem se aproximou do projeto porque costumava verr a prima, também bailarina, se apresentando em espetáculos organizados pelo Ballet Manguinhos. “Aqui a gente é recebido por uma equipe que trabalha para ajudar todas as crianças a realizar seus sonhos. Algumas vêm aqui para fazer outras atividades e acabam se apaixonando pela dança”, conta. Ela diz que a influência do projeto mostra que cada criança tem potencial para participar da dança.
Por se localizar perto das comunidades de Manguinhos, Jacarezinho e Mandela, o projeto recebe crianças e jovens dessas regiões, mas também de outras comunidades mais afastadas de onde está instalado. Geovana acompanha de perto crianças e jovens que vêm de outros bairros para aprender ballet por lá. Regiões menos privilegiadas do Rio de Janeiro acabam sendo desvalorizadas como se não houvesse riquezas culturais e humanas, mas o Ballet Manguinhos vem para desfazer esse mito. “Nosso projeto agrega muito nessa região. É aqui que o Ballet Manguinhos se firmou e aqui onde ele deve estar", diz Geovana, contando que, por muito tempo, ela sentiu na pele a falta de oportunidades e de acesso à cultura por ser moradora de uma comunidade da Zona Norte do Rio. O Ballet Manguinhos permitiu a mudança desse cenário em sua vida, ampliando suas oportunidades e trazendo novos aprendizados.
A presidente do projeto, Carine Lopes, de 37 anos, afirma: “Trazer o Ballet Manguinhos para esse lugar é dizer que a dança, a educação e a arte pertencem a todos. A gente oferece oportunidades onde muitas vezes elas são escassas e mostramos, na prática, que talento e potencial existem em todos os territórios”.
Lugar que faz história
O Ballet Manguinhos nasceu do sonho que Daiana Ferreira, sua fundadora, tinha de transformar a vida de crianças e jovens por meio da arte e da dança. Ela começou a dar aulas de ballet nos fundos de uma igreja para 70 crianças há 13 anos. Em 2020, após passar por muitos lugares, a ONG conseguiu adquirir sua sede própria com mais de 600 metros quadrados. Infelizmente, em 2021 a fundadora faleceu de Covid-19. O Ballet Manguinhos deu continuidade ao sonho de Daiana, preservando sua memória e mantendo vivo o seu legado.
Em 13 anos de existência, o projeto já produziu 11 espetáculos e atendeu 7000 alunos. Além das aulas de dança, a ONG também oferece atividades extras, como visita cultural a museus, teatros e bibliotecas, atividades de leitura, workshops internos e externos de jazz e outras modalidades, palestras com personalidades do mundo da dança e outras atividades.

Quando a associação se torna família
‘Tia, eu consegui! Tia, eu não errei’. Essas são frases que a produtora da associação adora ouvir após os espetáculos. De acordo com Isabel Severiano, de 48 anos, seu coração enche de orgulho quando vê a evolução de cada aluno, cada sorriso no rosto deles se apresentando.
“A gente está praticamente dentro de uma comunidade e sabendo como é a realidade desse lugar, ver as crianças e os jovens se formando, entrando em faculdades, muitos em faculdades públicas, fazendo curso técnico, realmente alcançando uma cidadania que fora daqui eles não conseguiriam... essa, para mim, é a minha maior alegria e recompensa dentro da instituição”, ela diz.
Isabel descreve o Ballet Manguinhos como uma escola que fortalece a união de cada integrante. Todas as dificuldades que enfrentam e vencem é considerado uma conquista de todos. “A gente aprende a trabalhar com pouco e a gente aprende a fazer muito do pouco. Tudo que chega é uma conquista conjunta, não é de uma única pessoa”, diz. Lá, a tarefa de fazer o projeto se manter e continuar a acolher cada vez mais crianças e jovens é um trabalho feito em equipe. Isabel relata o vínculo que a equipe tem com as alunas e alunos: “Aqui a gente passa muito tempo junto. Somos a família Ballet Manguinhos”.
Seu trabalho como produtora envolve estabelecer contatos, achar serviços, resolver toda a parte de logística, fazer orçamentos e fechar parcerias. É um trabalho que envolve muitas etapas e detalhes, mas, conforme ela descreve, ao final de cada espetáculo, a sensação é de dever cumprido. “Vale todo o trabalho. Ver o sorriso das crianças no palco… a realização delas é a minha realização”, ela expressa.


Carine, a presidente, diz que alcançar os jovens da região e democratizar o acesso à cultura é uma responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma realização. “Poder oferecer às alunas acesso à arte, formação, autoestima e novas perspectivas é uma forma de ampliar possibilidades e mostrar que elas podem ocupar qualquer espaço”, declara. Para ela, a ONG tem esse papel de criar oportunidades para que a arte faça parte do cotidiano dos moradores da região.
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