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Na Rocinha, jornalismo comunitário desafia estereótipos e valoriza histórias locais

há 10 minutos
6 min de leitura

Fala Roça e veículos nascidos no território atuam como contraponto à mídia hegemônica, democratizando o acesso à informação de qualidade


Por João Pedro Alves


Osvaldo Lopes na sede do jornal Fala Roça. Foto: João Pedro Serafim Alves/Rampas
Osvaldo Lopes na sede do jornal Fala Roça. Foto: João Pedro Serafim Alves/Rampas

O sol mal desponta no horizonte do Laboriaux, na parte alta da Rocinha, e o jornalista Osvaldo Lopes começa seu dia caminhando pelos becos e vielas que serpenteiam a favela. Seu destino? A sede do jornal Fala Roça, no qual coordenaria mais uma reunião de pauta com a equipe de redação. Para ele, o cotidiano vivido pelos moradores desta que é a favela mais populosa do país, com uma população estimada de 72 mil pessoas, segundo o censo do IBGE de 2022, constitui a matéria-prima que alimenta o jornalismo praticado por ele e sua equipe. 


As histórias retratadas pelo veículo ao longo de treze anos de existência, no digital e no papel, têm servido como contraponto aos estereótipos sobre a população da favela comumente reforçados pelos veículos da chamada ‘grande’ mídia - emissoras de rádio, tv e jornais diários com maior infraestrutura e audiência. Esse jornalismo feito "de cria para cria", pela e para a comunidade, vem garantindo que diversas dimensões do cotidiano da favela, mais complexas e diversas socialmente, se transformem em conteúdo jornalístico. Assim, além de revelar iniciativas no campo da cultura e da arte, de cobrar autoridades sobre demandas no campo da infraestrutura e de abordar dimensões da economia local, conta histórias que compõem um mosaico muito além da pauta privilegiada pelas ‘grandes’ redações - a da violência urbana.


"A Rocinha tinha acabado de sofrer uma ocupação da UPP. Então, tinha uma efervescência de notícias pejorativas sobre o território, como sempre teve nas favelas do Rio de Janeiro", relembra Osvaldo Lopes. Para ele, enquanto a mídia buscava manchetes sensacionalistas para vender jornais focando na violência e tiroteios, os veículos comunitários, como o Fala Roça, surgiram em prol dos moradores, mostrando que a favela vai muito além da violência estampada nos noticiários. “O  Fala Roça surge justamente para contar boas histórias da Rocinha, feitas por moradores como contraponto contra aqueles grandes grupos de mídia e tudo que vinham pregando naquele momento”, explica o jornalista.


Surgido em 2013 por iniciativa de cinco jovens moradores da Rocinha, o projeto começou como um blog chamado Viva Rocinha. Por motivos burocráticos e de registro, o blog foi encerrado, dando origem ao site Fala Roça (https://falaroca.com/) e à versão impressa. O objetivo? Ampliar a voz da comunidade e produzir notícias a partir do cotidiano da Rocinha, contando o dia-a-dia local em diferentes plataformas, como Instagram, Facebook e TikTok. 


     Primeira edição física do Fala Roça lançada em maio de 2013 / Imagem: Acervo Fala Roça
     Primeira edição física do Fala Roça lançada em maio de 2013 / Imagem: Acervo Fala Roça

Entre 2013 e 2016 — período marcado pelas obras de preparação para a Copa do Mundo de futebol e as Olimpíadas —, a difusão dos celulares e da internet barateou os custos de produção e acelerou a transição para as redes digitais. Assim, a chamada convergência digital permitiu o surgimento e a consolidação do Fala Roça e outros veículos independentes no território, como o Rocinha Alerta e o Rocinha em Foco. 


"A internet tem essa importância na hora de impulsionar e de ter o poder de ampliar, com custo baixo, narrativas, histórias e soluções locais que são desenvolvidas, de forma a dar voz para esses moradores", relata Iata Anderson, geógrafo e gerente da Favela Inc, plataforma que mapeia iniciativas sociais em territórios vulneráveis. 


Essa mudança na dinâmica da informação transformou a relação da comunidade com as notícias, já que o morador deixa de ser o espectador passivo e passa a ser o agente da própria história. “Acho que o jornalista local tem essa validação para poder falar sobre a comunidade. Normalmente a mídia tradicional vai trazer um especialista de uma universidade ou de uma empresa para falar sobre segurança pública, para falar sobre saúde na favela. E essa pessoa não tem essa vivência da perspectiva de quem mora no local”, explica o geógrafo. 


Logo, a atuação de veículos como o Fala Roça preenche esse vácuo deixado pela grande mídia, mostrando aquilo que o jornalismo destas empresas não se interessam ou não conseguem pautar: o dia a dia do morador, seus anseios e potencialidades. Apesar de avanços recentes, boa parte do território do país, quase a metade dos 2.504 municípios, não conta com nenhum veículo para a cobertura jornalística local. São os chamados "desertos de notícias". Segundo dados divulgados pelo Atlas da Notícia, iniciativa que  mapeia o jornalismo local no território brasileiro, houve um crescimento de 8,9% no número desse tipo de veículo, ( de 5.245 para 5.712 iniciativas) entre outubro de 2024 a junho de 2025. No Estado do Rio de Janeiro, o Atlas contabiliza 283 veículos de comunicação, dos quais 171 são digitais, sendo o Fala Roça um deles. 


Problemas de infraestrutura, como falta d’ água, quedas de energia no verão - quando o uso de ar-condicionado sobrecarrega os transformadores - e as dificuldades do trânsito provocadas pelo estacionamento irregular de carros e motos ganham visibilidade por meio dessas iniciativas comunitárias. “Para questões urgentes como falta de água, luz ou desabamento, o acompanhamento do Rocinha em Foco, por exemplo, é completo. Durante os últimos deslizamentos, eles passaram a noite inteira informando sobre a situação das vias. A grande imprensa não cobre essa rotina com o mesmo compromisso", exemplifica Kaic Barbosa, estudante de Publicidade e Propaganda da PUC e morador da Rocinha.


Muitas vezes, o jornalismo local pauta o nacional. O coordenador do Fala Roça relembra a denúncia que publicaram sobre o uso irregular de um tomógrafo pela Igreja Universal durante a gestão do prefeito Marcelo Crivella (2017-2020). A prefeitura adquiriu um tomógrafo com recursos públicos para a Rocinha, mas o instalou no estacionamento da Igreja Universal, na entrada da comunidade, pagando aluguel pelo espaço, enquanto unidades públicas como a UPA e Clínicas da Família tinham capacidade para abrigar o equipamento. Michel Silva, um dos fundadores do Fala Roça, recebeu a denúncia na madrugada, registrou com o celular a movimentação e publicou a matéria. Dias depois, a reportagem repercutiu em todo o país e virou manchete no Jornal Nacional. “O tomógrafo foi adquirido com dinheiro público e o lugar em que ele estava era alugado. Então, o Crivella repassava um dinheiro pra Igreja Universal só para aquele tomógrafo estar ali. Esse acontecimento gerava incidências em todo o território da Rocinha, então entendemos nosso papel e responsabilidade como território para denunciar o caso ”, afirma Osvaldo Lopes.


A cobertura comunitária também oferece espaço para personagens da Rocinha contarem suas histórias. Foi o Fala Roça o primeiro a noticiar a história do jovem influenciador Ruan Juliet, tiktoker que ganhou fama gravando vídeos sobre o cotidiano e vivência na comunidade carioca— que logo em seguida foi pautado por grandes redes de TV — e a trajetória de Maria Risonete da Silva, de 63 anos. Estudante do 10º período de Pedagogia, Maria teve sua aprovação na UERJ divulgada pelo jornal local. 


"Quem está de fora só sabe da violência e da miséria. A matéria do Fala Roça gerou uma rede de solidariedade, recebi doações de livros de várias partes do Brasil e passei a ser reconhecida nos corredores da universidade. Isso é gratificante", destaca Maria Risonete. 


    Versão impressa do Fala Roça. Foto: João Pedro Serafim Alves
    Versão impressa do Fala Roça. Foto: João Pedro Serafim Alves

A atuação do Fala Roça vai além do ambiente digital. O jornal promove o Viradão Cultural da Rocinha; foi responsável por elaborar o Mapa Cultural do território; e mantém a sua tradicional versão impressa. Prestes a completar 13 anos em 2026, a edição impressa já está na marca de 23 edições, um importante número após pausa em sua impressão entre 2021 e 2023 devido a reformulações estéticas e de distribuição, e atinge uma parcela vital da população: aquela não conectada digitalmente. “Nós vamos entregar o jornal para uma galera que não está ali no digital, para a dona Maria que mora lá no Terreirão da Rua 1 e usa o WhatsApp só para mandar áudio pra filha”, conta Osvaldo. Ele relata que existe todo um desenvolvimento editorial do jornal com foco na população semianalfabeta da comunidade, por isso há uma estratégia nas imagens utilizadas, letras e até mesmo na gratuidade do jornal, distribuído em postos de saúde, escolas e de porta em porta. “Só é para todos aquilo que é de graça””, afirma Osvaldo.


Entretanto, o jornalismo comunitário não deve ser tratado como uma solução “mágica”, pois não substitui políticas públicas nem elimina a desigualdade estrutural. "O jornalismo comunitário dá evidência para pessoas que nunca seriam entrevistadas numa escala macro. Mas não acho que isso mude a correlação de forças em relação ao acesso a direitos. A pessoa pode ser entrevistada no jornal local, mas vai continuar pegando ônibus lotado ou sem acesso ao saneamento básico. Não acho que o jornalismo comunitário tenha toda essa responsabilidade. Ele tem sua importância como resistência e reafirmação, mas não vai fazer uma revolução que faça a cidade deixar de ser desigual", observa Iata Anderson.


O geográfico explica que, apesar de sua importância, o jornalismo comunitário ainda não pauta o Estado diretamente, pois as políticas públicas costumam ocorrer quando são do interesse do poder público ou em períodos eleitorais, quando obras se convertem em votos. Contudo, cumpre o papel de trazer informações internas vitais para a própria comunidade: “Mesmo com a visibilidade das denúncias, as políticas públicas costumam acontecer quando há interesse político direto ou em períodos eleitorais. Para o público interno,  o jornal cumpre o papel vital de trazer informações estratégicas que a mídia tradicional jamais cobriria".


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